SONHOS DE MULHER

Betty Neels





Editados por HARLEQUIN IBRICA, S.A.

(c) 1998 Betty Neels. Todos os direitos reservados.

SONHOS DE MULHER, N. 96 - 1. 10.99

Ttulo original: Nanny by Chance.

Publicado originalmente por Mills & Boon, Ltd., Londres.

Todos os direitos, incluindo os de reproduo total ou parcial, so reservados. Esta edio foi publicada com a autorizao de Harlequin Enterprises II BY

Todas as personagens deste livro so fictcias. Qualquer semelhana com alguma pessoa, viva ou morta,  pura coincidncia.

I.S.B.N.: 84-396-7450-3
Depsito legal: M-29419-1999
Fotocomposio: M.T, S.A. Madrid Impresso: COIMOFF, S.A. Arganda del Rey

DISTRIBUIDOR EXCLUSIVO PARA PORTUGAL: M.I.D.E.S.A.

Rua da Repblica da Coreia, 34 Ranholas - 2710 Sintra - Portugal


Digitalizao e arranjo:
Ftima Chaves

Esta obra destina-se ao uso exclusivo de portadores de deficincia visual.



1

Araminta Pomfrey, com o cesto das compras debaixo do brao, dirigiu-se para a porta das traseiras, a cantar. Ao fim e ao cabo, estava de frias. Alm disso, estava
uma bela manh, o que prometia um agradvel dia de Setembro, o primeiro de descanso que tinha antes de comear a sua nova vida.

Parou um momento ao p da porta para acariciar carinhosamente a cabea do enorme e velho gato que estava deitado ali. A fera, que respondia ao inadequado nome "Querubim",
seguiu-a at  cozinha. Depois de lhe servir um prato de leite e guardar o contedo da cesta, Araminta foi para a sala.

Os seus pais deviam estar  sua espera para tomarem caf todos juntos. Era a sua nica filha e sabia, desde muito pequena, que o seu nascimento inesperado perturbara
imenso os seus hbitos metdicos. Ambos eram muito inteligentes e gozavam do estatuto de autoridades no estudo dos antigos celtas, tema sobre o qual tinham publicado
vrios livros, autnticos prodgios de erudio, segundo as crticas, mas que, na verdade, no tinham contribudo muito para aumentar os seus rendimentos.

No entanto, aquilo no os afectava minimamente. O


seu pai recebia uma pequena penso que lhes permitia viver, embora com algumas dificuldades, na pequena casa que herdara da famlia. Tambm se tinham permitido mandar
Araminta para uma escola muito boa, com a esperana de que, se seguisse os seus passos, se tornaria uma espcie de gnio. Ela fizera o que pudera, mas, infelizmente,
as suas notas nunca tinham sido particularmente brilhantes, o que causara uma enorme desiluso aos seus pais. Por isso, eles tinham aceitado com alvio a sua deciso
de estudar para auxiliar mdica.

Contudo, ela nunca tivera a oportunidade de sair de casa para estagiar num grande hospital. Embora estivessem to ocupados com as suas investigaes que no tinham
tempo de arrumar a casa nem cozinhar, os seus pais tinham despedido a empregada que fazia os trabalhos domsticos enquanto Araminta estava no colgio interno e tinham-lhe
pedido para se ocupar deles, razo pela qual s podia dedicar algumas horas por dia ao seu trabalho num hospital peditrico da zona. No era propriamente aquilo
que ela imaginara, mas, pelo menos era uma maneira de comear.

Felizmente, aps cinco anos de espera, parecia que a sorte comeara a sorrir-lhe. Uma prima distante dos seus pais, que enviuvara recentemente, ia mudar-se para
a sua casa para os ajudar e, finalmente, Araminta ia ser livre para completar a sua formao apropriadamente. Temera que no a aceitassem por causa da sua idade,
quase vinte e trs anos, mas, felizmente, no fora assim: previa comear os seus estudos oficiais num grande hospital de Londres dali a menos de duas semanas.

Abriu a porta da sala e constatou que os pais no estavam sozinhos. Estavam com o doutor Jenkell, o seu mdico de famlia e grande amigo h muitos anos.

Aps cumpriment-lo, Araminta, pedi u licena para ir  cozinha buscar uma bandeja com caf e bolachas.


- O doutor Jenkell tem uma surpresa maravilhosa para ti, Araminta - contou-lhe a me, quando ela voltou para a sala. - No, querida, no me ponhas tanto leite pediu-lhe
e, depois de se recostar no sof com a chvena na mo, sorriu-lhe, satisfeita.

- Ah, sim? - limitou-se a indagar Araminta, enquanto oferecia um pires de bolachas ao convidado. -  alguma coisa emocionante?

- Vim oferecer-te um emprego - revelou o mdico.  uma oportunidade nica: acompanhar dois meninos  Holanda, a casa do tio, onde ficaro durante uma temporada,
dado que os pais tm de ir para o estrangeiro. Tu tens muita experincia com crianas e, no hospital, disseram-me maravilhas a teu respeito, por isso pretendo recomendar-te
para o cargo.

- Mas, doutor Jenkell - Araminta estava muito confusa, - sabe perfeitamente que vou comear a estagiar no hospital de St. Jules daqui a duas semanas. At foi o senhor
que escreveu a minha carta de recomendao...

- Isso no faz diferena - atalhou o mdico, entusiasmado. - Basta escreveres a avisar que no podes comear o estgio a tempo. No acredito que seja grave se te
atrasares um ms.

- Para mim,  - replicou Araminta com firmeza, a servir-se de uma chvena de caf. - J tenho vinte e trs anos e, se no aproveitar esta oportunidade, daqui a pouco
tempo serei demasiado velha para ser aceite. Agradeo-lhe muito pelo seu interesse, mas esta oportunidade de estudar em Londres significa muito para mim e no tenho
a inteno de a deixar escapar.

Bastou-lhe lanar um olhar aos pais para ver que estavam do lado do doutor Jenkell.

- Pois eu acho que deves aceitar, Araminta - interveio a sua me. - Na verdade, no podes recusar, porque o doutor j disse ao amigo dele que tomars conta dos


pequenos. No acredito que tenhas problemas simplesmente por ingressares no hospital algumas semanas mais tarde. s muito nova e tens a vida inteira pela frente.

- Por acaso, aceitaste o emprego sem me consultares? - inquiriu Araminta, perplexa.

- Como tu no estavas aqui quando o doutor veio fazer-te a proposta - explicou-lhe o pai, - eu e a tua me aceitmos em teu nome, pois achmos que era uma excelente
oportunidade de conheceres o mundo. Fizemos o que achmos melhor para ti.

"Como se fosse uma criana, em vez de uma mulher adulta e vacinada", pensou Araminta, amargurada, "sem outra alternativa seno aceitar as resolues dos outros.
Pois no o farei!", decidiu.

- Se no se importa, doutor Jenkell, gostava de falar com o tio dos pequenos.,

- Com certeza, querida - anuiu o mdico, contente.

- Assim ficars a saber o que se espera de ti. Tenho a certeza de que vo chegar a acordo.;

Araminta no achava provvel, mas calou-se. Gostava muito dos pais e sabia que eles tambm gostavam dela... apesar de nunca se terem recuperado do choque produzido
pelo seu nascimento quando j tinham quase ] quarenta anos. Como no queria aborrec-los, decidiu ir visitar o tal homem primeiro e explicar-lhe por que razo no
podia aceitar o trabalho. Mais tarde pensaria numa maneira de dar a notcia aos pais. E ao doutor Jenkell, obviamente.,

Quando o mdico se foi embora, Araminta foi para a cozinha fazer o jantar, enquanto os seus pais falavam animadamente do livro sobre os celtas que estavam a escrever
em conjunto. No que se tivessem esquecido dela; simplesmente consideravam que, como o seu futuro estava praticamente assegurado, estavam livres para se dedicarem
ao seu assunto prioritrio.


Enquanto cozinhava, Araminta reflectiu sobre o seu plano de aco: o doutor Jenkell dera-lhe a direco do tio dos pequenos e, a menos que ele mesmo o avisasse da
sua visita, ela apanh-lo-ia de surpresa e poderia explicar-lhe os motivos pelos quais no podia aceitar a sua oferta. O melhor era esclarecer aquele equvoco o
mais depressa possvel. Por sorte, Humbledon ficava a apenas seis quilmetros de Henley-on-Thames, pelo que poderia ir a Londres no dia seguinte com todas as comodidades.

Quando revelou as suas intenes  sua me, ela no se ops.

- Por favor, querida, procura deixar o almoo feito pediu-lhe. - Sabes bem como o teu pai fica quando tem de esperar para comer e, se eu estiver ocupada...

Araminta prometeu-lhe que lhes deixaria uma salada de carnes frias preparada e foi para o seu quarto decidir que roupa vestiria para aquela visita. Estavam no incio
do Outono, o que punha de lado a hiptese de levar um vestido de Vero e o seu confortvel conjunto de l. Finalmente, optou por um conjunto de saia e casaco de
croch, com um leno de seda a combinar.

A sua me, que tinha uns gostos muito antiquados, aprovou a sua escolha, embora, na realidade, a roupa no realasse os poucos encantos de Araminta: o seu cabelo
era castanho, comprido e fino, as feies, vulgares, com excepo dos olhos, que eram grandes e cor de avel. As curvas do seu corpo nunca eram postas em evidncia,
pois, normalmente, usava roupas largas e confortveis, de cores discretas e tecidos que suportavam bem as lavagens frequentes.

Aps observar a imagem reflectida no espelho, suspirou, empinando levemente o nariz arrebitado. Pensou que o tio dos pequenos no prestaria ateno  sua aparncia.


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Devia ser um velho solteiro da idade do doutor] Jenkell.

No dia seguinte, levantou-se muito cedo para tomar o pequeno-almoo com os pais. Depois de arrumar a casa e fazer o almoo, apanhou o autocarro para Henley e, dali,
seguiu viagem para Londres.

Ao chegar  cidade, dirigiu-se a uma das ruas que davam para Cavendish Square, um bairro imponente com casas de estilo Regncia, cujas portas exibiam reluzentes
maanetas de bronze. Araminta concluiu que o amigo do doutor Jenkell devia ser um homem muito rico.

A casa ficava no fim da rua. Um caminho estreito conduzia s antigas cavalarias das outras casas. " um lugar lindo", pensou, ao bater  porta.

Um homem magro, de cabelo cor de areia, olhos brilhantes e nariz proeminente, veio abrir. "Parece um rato, mas um rato simptico", pensou Araminta ao reparar no
seu sorriso amistoso.

Naquele momento, pensou que devia ter marcado uma hora... afinal, o doutor podia andar a fazer as suas visitas ao domiclio.

- Gostava de falar com o doutor Van der Breugh. Sei que devia ter telefonado antes de vir, mas trata-se de um assunto muito urgente - explicou-lhe. - Tem a ver com
os seus dois sobrinhos...

-Ah! Com certeza, menina. Peo-lhe que espere um pouco enquanto vou ver se o doutor pode receb-la - o empregado conduziu-a a uma pequena sala. -  s um segundo.
Por favor, ponha-se  vontade.

Assim que o homem saiu, Araminta levantou-se e comeou a examinar a sala. Situava-se na parte de trs da casa e as janelas, altas e estreitas, davam para um


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jardim pequeno atravs do qual se chegava s cavalarias. Da moblia, clssica e, ao mesmo tempo, confortvel, destacavam-se os sofs situados ao lado da lareira.
Sobre ela havia um espelho grande. Era evidente que se tratava da sala de estar, pois, num canto, havia um cesto para um co e vrios jornais sobre a mesa.

Araminta olhou para a imagem reflectida no espelho com uma careta de desgosto: o conjunto castanho no lhe ficava muito bem e estava um pouco despenteada. Quando
comeou a arranjar o cabelo, a porta voltou a abrir-se.

- Venha comigo, menina - pediu-lhe o homem com cara de rato. - O chefe tem dez minutos livres.

"Ser o mordomo?", perguntou-se ela. Se era, no parecia muito respeitvel.

- A menina Pomfrey - anunciou o homem, depois de abrir uma porta do outro lado do vestbulo.

Araminta entrou numa sala grande, com as paredes cobertas de estantes cheias de livros. Ao v-la, o homem que estava sentado  secretria situada num canto, levantou-se
de imediato para a receber. "Este gigante no pode ser o tio dos pequenos", pensou Araminta, confusa. O homem tinha cabelo louro com alguns fios prateados, era alto,
atraente e possua um nariz aristocrtico, uma boca perfeita e um queixo firme. Depois de tirar os culos, estendeu-lhe a mo com um sorriso.

- Menina Pomfrey? O doutor Jenkell disse-me que viria ver-me. Presumo que queira saber mais pormenores...

- Espere um momento, por favor - interrompeu-o ela. - Antes que continue, tenho de lhe dizer que no posso tomar conta dos seus sobrinhos. Vou comear os meus estudos
de enfermagem daqui a duas semanas. No fazia ideia de que o doutor Jenkell tinha aceitado o trabalho em meu nome. Reconheo que foi muito amvel


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da parte dele recomendar-me e que os meus pais esto encantados com a ideia, mas aceitaram sem me consultarem.

- Porque  que no se senta para conversarmos um pouco? - convidou-a o mdico. O seu tom amvel acalmou-a quase de imediato. - Briskett vai trazer-nos um caf...

Por um momento, Araminta quase se esqueceu do propsito da sua visita. Sentia-se to  vontade com o doutor como se o conhecesse h muito tempo.

- Briskett? - repetiu, curiosa. - Refere-se ao homem que me abriu a porta?  o seu mordomo? Referiu-se a si como "chefe"... quero dizer, no me parece muito prprio
de um mordomo falar assim.

- Trata da casa com muita eficincia. A sua estranha maneira de falar deve-se ao gosto pelos filmes americanos, que, para ele, representam o supra-sumo da democracia.
Fora isso,  um homem digno da maior confiana e muito trabalhador. Por acaso incomodou-a?

- No, nada disso! Simpatizei muito com ele. Parece um ratinho, com os seus olhos brilhantes e nariz grande. Tem um sorriso encantador.

Pouco depois, Briskett ps a bandeja com o caf na mesa ao lado de Araminta.

- Sirva-o, menina - instruiu-a. - No se esquea de que esto  sua espera no hospital, doutor - acrescentou.

- Obrigado, Briskett, vou j. - Peo-lhe que me desculpe se fui inoportuna - desculpou-se Araminta. - Pensei que, se no o avisasse da minha visita, seria mais fcil
explicar-me e o senhor no teria a oportunidade de tentar convencer-me.

O doutor disfarou um sorriso.

- Vejo que houve um mal-entendido e lamento muito por si - respondeu-lhe amavelmente. -
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Pressinto que faria um trabalho maravilhoso com os pequenos. Eles so filhos da minha irm. So gmeos e tm s seis anos. Precisava de encontrar algum jovem e
paciente para tomar conta deles na ausncia dos pais - explicou-lhe. - Eles so arquelogos e tm de ir orientar uma campanha de escavaes no Prximo Oriente durante
um ms. Pareceu-nos uma boa ideia que os pequenos ficassem comigo, mas tenho de ir para a Holanda na semana que vem e, se no encontrar ningum que fique com eles,
a minha irm ter de permanecer em Inglaterra.  uma pena, mas no vejo outra alternativa.

- Mas, na Holanda, os pequenos ficaro consigo, no ? A sua esposa no pode tomar conta deles?

- Minha querida menina Pomfrey! Sou um homem muito ocupado. Nunca tive tempo para procurar uma esposa e, muito menos, para me casar. A minha governanta e o marido
cuidam da casa, mas j so demasiado velhos para tomarem conta de duas crianas to pequenas. Pretendia mand-los para a escola e passar todo o tempo que pudesse
com eles, mas, mesmo assim, preciso de contratar algum que tome conta deles - pousou a chvena na mesa. - Lamento pelo que aconteceu, mas compreendo que tenha outros
compromissos.  uma pena, porque tenho a impresso de que nos entenderamos muito bem.

Era uma forma muito educada de se despedir dela.

- Sim, eu tambm acho que sim - admitiu, triste. Bom,  melhor ir-me embora, caso contrrio vai chegar atrasado ao hospital - no entanto, quando ele se levantou
e lhe estendeu a mo, acrescentou, sem pensar: Acha que, se anular a matrcula no hospital, serei admitida mais tarde?  aqui em Londres, o St. Jules.

- Tenho alguns contactos l. No me parece que tenha problemas. Eles tm sempre poucos estudantes de enfermagem.


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- Quanto tempo  que eu teria de ficar na Holanda?!

- Um ms, talvez seis semanas. Mas no precisa de mudar os seus planos por minha causa, menina Pomfrey.

- Oh, no! No o fao por si - protestou, corada. - Se acha que  possvel que o faa bem, gostaria de tomar conta dos seus sobrinhos - levantou a cabea para o
encarar. - No sei porque  que mudei de ideia - confessou-lhe, - mas esperei tanto tempo para retomar os ] meus estudos que no acredito que mais um ms ou dois
faa muita diferena. No sou demasiado velha ] para isso, pois no? - perguntou-lhe, nervosa.!

- Acho que no. Que idade tem? - Vinte e trs anos. - No acredito que tenha problema - assegurou-lhe, - Se quiser, posso tomar as medidas necessrias para que seja
admitida assim que voltar para Inglaterra.

- Seria muito amvel da sua parte. Importa-se de me avisar de quando quer que comece e de quando pretende partir para a Holanda? Bom, vou-me embora, seno vai chegar
tarde e Briskett pr-me- na sua lista negra.

- No, fique descansada! - riu-se. - No se preocupe, entrarei em contacto consigo - acompanhou-a ao vestbulo. Briskett estava  sua espera.

- Mesmo a tempo - observou com austeridade. - Tenha cuidado consigo - recomendou a Araminta, enquanto lhe abria a porta.

Araminta foi de autocarro at Oxford Street, entrou num caf e pediu uma bica para poder pensar calmamente no que acontecera. No compreendia o que lhe dera na cabea
para decidir fazer exactamente o contrrio daquilo que pretendia inicialmente. Num impulso,


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Comprometera o seu futuro. Um futuro do qual, ainda por cima, no sabia nada.

Para onde iam exactamente? Quanto  que ia ganhar? Teria algum dia de folga? E quanto  lngua? O doutor no lhe dissera nada sobre o assunto e, o que era ainda
mais estranho, aceitara sem hesitar a sua repentina mudana de opinio, grato por ela atrasar os seus planos por ele.

Araminta pediu outro caf e um bolo e ps-se a pensar na roupa. O problema era que tinha pouco dinheiro. Embora teoricamente pudesse dispor do salrio que ganhava
no hospital, a verdade era que usava a maior parte para completar a pequena quantia que o pai lhe dava todos os meses para as despesas da casa.

Os seus pais nunca tinham demonstrado nenhum interesse pelas coisas prticas da vida. Podia dizer-se que viviam para as suas investigaes sobre os celtas que, pelo
menos para eles, eram muito mais importantes do que pagar as facturas pendentes.

Chegou  concluso de que tinha de gastar uma parte das suas poupanas em roupa. Por sorte, no precisava de muitas coisas: apenas um casaco que a protegesse da
chuva, uma saia, duas ou trs camisolas e sapatos confortveis e resistentes.

Quanto aos pais, teria de arranjar algum que tomasse conta deles, j que partiria para a Holanda em menos de uma semana e a prima Millicent no poderia vir antes
da data prevista. Talvez a senhora Snow pudesse encarregar-se de lhes fazer a comida e limpar a casa durante alguns dias... Fosse como fosse, no podia fazer planos
definitivos antes do doutor Van der Breugh lhe dar uma resposta.

Os seus pais demonstraram pouco interesse pelas novidades. A me limitou-se a afirmar que tanto ela


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como o seu pai achavam que aquilo era o melhor para ela e que esperava que a experincia de viver num pas estrangeiro, mesmo num to pequeno como a Holanda, lhe
agradasse. Alm disso, tinha a certeza de que a filha resolveria todos os assuntos da casa antes de se ir embora e de que adoraria tomar conta dos gmeos. Araminta
imaginava que fossem to barulhentos e rabugentos como todos os que conhecera no hospital, mas no se importava, pois gostava muito de crianas.;

Na manh seguinte, recebeu uma longa carta do doutor Van der Breugh. Nela, ele comunicava-lhe que ia busc-la no domingo seguinte s onze horas para passarem algum
tempo na sua casa de Londres com os pequenos, antes de apanharem o ferry nocturno em Harwich para a Holanda. Aconselhava-a a ter o passaporte  mo e a levar um
saco com o que fosse necessrio] para aquela primeira noite e, sobretudo, que se limitasse a levar duas malas.

Quanto ao trabalho propriamente dito, oferecia-lhe um dia de folga por semana e todas as tardes depois das seis. O seu salrio seria pago semanalmente, em florins
holandeses... Araminta parou de ler por um momento, surpreendida com a soma exorbitante que ele lhe oferecia. Alm disso, estava perplexa por ele lhe ter escrito
em termos to formais. Mal reconhecia naquela carta o mdico simptico que conhecera pessoalmente.

Disse  me que estava muito satisfeita com as condies que lhe ofereciam e, depois, convenceu a senhora Snow a tomar conta da casa at  chegada da prima Millicent.
S ento se dedicou a arrumar a sua bagagem.

Decidiu levar o conjunto de l castanho, uma blusa bege a combinar, uma saia igualmente simples com vrias blusas do dia-a-dia e duas camisolas. Meteu tambem na
mala um casaco de l e um vestido mais do que


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discreto de crepe azul, alm de uma gabardina, chinelos e roupa interior.

Por sorte, tinha um par de sapatos e uma mala de pele quase novos. Lembrou-se de que tambm devia levar luvas, meias e alguns lenos para a cabea. O resto das coisas
iriam no saco de mo. Embora gostasse de roupa bonita, devido ao trabalho que fazia quase toda a que possua era simples e resistente, para que as crianas no a
estragassem. Alm disso, como raramente saa, no possua vestidos elegantes. Sabia perfeitamente que aquelas peas no a favoreciam, mas no tinha tempo nem dinheiro
para comprar outras. Esperanosa, pensou que talvez pudesse faz-lo na Holanda.

Aquela semana passou rapidamente. Araminta dedicou-se a limpar a casa, a lavar e a passar, e a preparar comida com fartura, assim como a arrumar o quarto da prima
Millicent.

Uma tarde, foi comprar outro par de sapatos fechados de saltos rasos e no pde resistir  tentao de comprar tambm uma bela camisola cor-de-rosa, de angor. Hesitou
entre comprar ou no um bluso novo e acabou por decidir no o fazer, dado que j gastara mais dinheiro do que previra... o que, no entanto, no a impediu de comprar
uma linda blusa de seda para usar com uma das saias que ia levar consigo.

No domingo de manh j tinha tudo pronto e sentou-se  espera de que fossem busc-la. Os pais fizeram questo de lhe fazerem companhia, embora devessem estar ansiosos
por retomar o estudo dos celtas.

s onze horas, um carro parou diante da casa. Briskett saiu e, aps cumpriment-los, guardou a bagagem de Araminta no porta-malas e abriu-lhe a porta do assento
de trs.


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- Oh! Se no se importa - disse-lhe Araminta, depois de beijar os pais, - prefiro ir  frente.

Era um carro muito confortvel, um Jaguar, e, pouco depois, Araminta verificou, satisfeita, que Briskett era um ptimo condutor.

Para seu espanto, quando chegaram a Henley, ele seguiu para Oxford.

- No vamos para Londres? - indagou.

- No, menina. O doutor pensou que era melhor encontrar-se com os meninos em casa dos pais deles, em Oxford. Ele ir l buscar-vos esta tarde, para vos levar ao
ferry.

- Bom, no  m ideia - admitiu ela. - Vai connosco para a Holanda, Briskett?

- No, menina, ficarei a tomar conta da casa. O chefe tem quem o ajude na Holanda. Passa o tempo de c para l, de uma casa para a outra.

- Nesse caso, porque  que os pequenos no ficam em Inglaterra?

- O doutor pretende passar vrias semanas na Holanda. Entretanto, s vir a Inglaterra se precisarem dele.

- Ns no teremos que o acompanhar nessas viagens, pois no? Seria pouco aconselhvel para as crianas.

- Fique descansada, menina! Foi para isso que a contrataram, para que o chefe possa ir e vir sem ter que se preocupar com os sobrinhos.

Ao chegarem a Oxford, pararam diante de uma casa grande e acolhedora. Quando a empregada abriu a porta, Araminta comeou a ficar nervosa.

E se no agradasse aos meninos ou aos pais? Afinal,  semelhana do doutor Van der Breugh, eles no sabiam nada a seu respeito. No entanto, no teve tempo para pensar
no assunto, pois a empregada f-los entrar de imediato.


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- Esta  a menina Pomfrey - explicou-lhe Briskett. A senhora e o senhor Ingram esto  espera dela.

A rapariga assentiu e conduziu-os ao salo, situado no outro extremo da casa, com vista para o jardim. Era um lugar decorado com mveis confortveis e muito desorganizado,
onde quatro pessoas a esperavam. Os donos da casa encontravam-se sentados em duas poltronas, a ler os suplementos dominicais.

A mulher era nova e muito bonita: alta e esbelta, vestia um conjunto muito simples e favorecedor. Aproximou-se para receber Araminta calorosamente.

- Menina Pomfrey, foi muito amvel da sua parte vir at aqui. Muito obrigada. Eu sou Lucy Ingram, a irm de Marcus... mas, claro, a menina j sabe disso. Apresento-a
a Jack, o meu marido.

Araminta apertou-lhe a mo e, depois, cumprimentou o senhor Ingram, com quem simpatizou de imediato.

- At logo, menina - despediu-se Briskett, da porta.
- Vejo-a mais tarde.

-  um homem em quem se pode confiar de olhos fechados - confidenciou-lhe Lucy. - Venha conhecer os pequenos.

Os gmeos estavam no lado oposto da sala, a fazer um puzzle. "O facto de serem to parecidos vai dificultar-me as coisas", reflectiu Araminta. "Por outro lado, a
sua aparente docilidade  suspeita."

- Estes so Peter e Paul - informou-a Lucy. - Se prestar ateno, ver que Peter tem uma pequena cicatriz por cima do olho direito. F-la quando caiu, h trs anos.
Agora  muito til para os distinguir.

Os meninos levantaram-se ao mesmo tempo, sorridentes como dois anjinhos. Araminta perguntou-se com que terrveis ameaas ou promessas os pais teriam conseguido que
eles se comportassem to bem.


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- Ol! - cumprimentou-os. - Tm que me ensinar a distinguir-vos. Tenho a certeza de que, no princpio, vou fazer algumas confuses.

- Eu sou Peter. E tu? No acredito que o teu nome verdadeiro seja menina Pomfrey.

- Chamo-me Araminta.

Os meninos entreolharam-se, espantados.

- Que nome to comprido! Vamos chamar-te Mintie

- decidiram, aps lanarem um olhar rpido  me.

- Isso no  muito amvel... - comeou a repreend-los Lucy.

- Desculpe, mas parece-me uma excelente ideia interrompeu-a Araminta. - No consigo habituar-me a ser tratada por menina Pomfrey. Soa muito formal.

- Bom, se no se importa... Agora, meninos, vo tomar o leite enquanto eu e a menina... isto , Mintie tomamos um caf. Depois podero ir mostrar-lhe o vosso quarto.

Os meninos obedeceram-lhe imediatamente, mas sem tirarem os olhos dela at sarem da sala. Araminta gostou muito de conversar com a senhora Ingram. O marido dela
interveio algumas vezes na conversa para lhe perguntar pelo seu trabalho no hospital peditrico e se j alguma vez estivera na Holanda.

- s vezes, os gmeos so uns verdadeiros diabretes

- alertou-a, - mas acho que vai saber lidar com eles. No fundo, so bons rapazes e adoram o tio.

Araminta pensou que aquilo no era muito difcil. Gostaria de conhecer melhor o doutor Van der Breugh, mas sabia que seria praticamente impossvel e que o mais provvel
era que, quando voltassem para Inglaterra, no voltassem a ver-se.

Ps de lado aqueles pensamentos para se concentrar nas instrues da senhora Ingram sobre as refeies e a roupa dos meninos.


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- Tenho que lhe dizer isto tudo - explicou-lhe, - porque Marcus no quer que o incomodem com estes pormenores. Espero que no ache que estamos a abusar...

- Claro que no! No hospital, tinha mais de quarenta crianas sob a minha responsabilidade, de modo que tomar conta de duas parece-me quase um descanso. Diga-me
uma coisa: eles no se importam de ir para a Holanda?

- No. Presumo que, no princpio, sintam a nossa falta, mas como j estiveram em casa do tio, acabaro por se habituar.

A senhora Ingram fez-lhe algumas perguntas discretas a seu respeito e Araminta apressou-se a responder, consciente de que, se estivesse no lugar de Lucy, ela faria
o mesmo, por mais bem recomendada que tivesse sido. Afinal de contas, o doutor Van der Breugh contratara-a com base nos conselhos do doutor Jenkell.

Quando foram almoar, constatou com satisfao que os meninos tinham bons modos  mesa e no careciam de apetite. No entanto, perguntou-se se aquele comportamento
angelical duraria muito tempo. Na verdade, no acreditava que sim.

 tarde, os pequenos mostraram-lhe os brinquedos deles e acompanharam-na a dar um passeio pelo jardim, para que visse o peixe dourado que vivia no lago. Continuavam
a comportar-se como dois meninos modelos, o que s serviu para aumentar a sua apreenso.

Responderam a todas as suas perguntas, embora ela procurasse no os pressionar muito. Tinha conscincia de que no passava de uma estranha para eles e que tinha
de conquistar a sua confiana pouco a pouco.

Quando voltaram para casa, depararam-se com o doutor Van der Breugh na sala,  sua espera. No havia dvida de que os meninos o adoravam e de que ele os amava do
fundo do corao. Quando finalmente conseguiu


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livrar-se dos seus abraos, virou-se para cumprimentar Araminta.

- Partiremos depois do ch, menina Pomfrey. J disse  minha irm que, com certeza, a menina gostava de telefonar  sua me, antes.

- Obrigada, doutor. Tinha a inteno de lhe pedir isso.

- No  menina Pomfrey! - interrompeu-os Peter. Ela chama-se Mintie!

- A srio? - Marcus pareceu achar aquilo muito engraado. -  assim que vocs lhe chamam?

- Claro, tio! Menina Pomfrey no combina com ela.  um nome bom para uma velha cheia de rugas, daquelas que passam a vida a resmungar. Mintie, em contrapartida,
 muito simptica. No  muito bonita, mas est sempre a sorrir...

Ao ouvir aquilo, Araminta corou at  raiz dos cabelos.

- Cala-te, querido! - interveio a senhora Ingram, constrangida. - Venha comigo, menina Pomfrey, vou mostrar-lhe de onde pode telefonar - quando saram da sala, virou-se
para ela, envergonhada. - Peo-lhe que perdoe ao meu filho. Parece-me que o que ele queria era fazer-lhe um elogio...

Araminta desatou a rir-se.

-  bom saber que no me considera uma velha rezingona - comentou, bem-humorada. - Espero que nos dmos bem.

Os dois meninos foram lavar as mos, deixando o pai e o tio sozinhos.

- Ainda bem que te ofereceste para ficar com os pequenos - disse-lhe o senhor Ingram. -Assim, Lucy vai muito mais sossegada, sobretudo depois de ver a jia de ama
que contrataste. Parece uma jovem calma e sensata. Como Peter disse, no  muito bonita, mas tenho


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a impresso de que  de confiana. J a conhecias?

- No. Foi-me recomendada pelo velho doutor Jenkell. Conhece-a desde pequena e garantiu-me que  uma pessoa competente, paciente e carinhosa. Trabalhou durante anos
num hospital peditrico. No princpio, no queria aceitar o trabalho - revelou. - Disse-me que ia comear os seus estudos de enfermagem, mas, depois, mudou de ideia,
no sei muito bem porqu. Comprometi-me a tratar de tudo para que seja aceite no hospital de St. Jules quando voltar.

Aproximou-se da janela e ps-se a contemplar o jardim, pensativo.

- No te preocupes, Jack, cuidarei bem dos pequenos. Por sorte, a menina Pomfrey revelou-se um tesouro, como tu mesmo disseste. Parece-me uma rapariga simptica
e muito discreta. Precisamente do tipo de que eu estava a precisar.

No demoraram a ser servidos de um magnfico ch, depois do qual os pequenos se despediram dos pais. Araminta encarregou-se de os acomodar no assento de trs do
carro, antes de se sentar no da frente. Satisfeito, o doutor voltou a repetir-se que aquela jovem competente ia ser a ama ideal.


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Por sorte, Araminta estava longe de imaginar o que o doutor pensava dela, apesar de prestar ateno  forma como ele falava com os sobrinhos. A sua voz soava muito
alegre enquanto fazia planos para os levar a passear e a navegar. Araminta rezou para que, se chegasse a concretiz-los, no a convidasse a acompanh-los. Como era
uma rapariga sensata, resolveu no se preocupar com aquilo enquanto o problema no se apresentasse. Afinal de contas, aquele trabalho s a prenderia durante seis
semanas. Alm disso, era muito bem pago e dava-lhe a oportunidade de ter alguma independncia. Sentiu-se um pouco culpada ao pensar no quanto aquela perspectiva
lhe agradava, apesar de saber que os seus pais ficariam muito bem com a prima Millicent por perto.

Passaram por Maidenhead e Slough e, depois, o doutor rumou para a sua casa, em vez de seguir para a circunvalao. Araminta, que no vira Briskett sair de Oxford,
surpreendeu-se muito quando ele lhes abriu a porta.

- Mesmo a tempo - observou ele. - Espero que tenha conduzido com prudncia, doutor. Rapazes, esperem aqui enquanto eu atendo a menina Pomfrey. A propsito, houve
alguns telefonemas para si, chefe.


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A seguir, conduziu Araminta a uma casa de banho ao fundo do corredor.

- Pode retocar a maquilhagem aqui, menina. Entretanto, eu tomarei conta dos pequenos. H caf quente na sala.

Araminta teve de reconhecer que, apesar da sua estranha maneira de falar, a eficincia daquele homem era digna de elogios.

Quando saiu da casa de banho, encontrou-o  sua espera para a conduzir  sala. O doutor estava a mostrar um mapa aos sobrinhos. Quando ela entrou, levantou-se para
lhe oferecer uma cadeira e pedir-lhe que servisse o caf. Briskett tambm levara leite para os meninos e um prato de bolachas que os pequenos devoraram num abrir
e fechar de olhos.

Peter e Paul estavam muito contentes. Quase se esqueceram da tristeza de se separarem dos pais diante da perspectiva de dormirem num camarote. Passado um bocado,
o doutor foi atender um telefonema, deixando Araminta a entret-los. Quando voltou, encontrou-os a ouvir atentamente a histria que ela estava a contar-lhes.

- Talvez fosse boa ideia sentar-se no assento de trs com eles, menina Pomfrey - sugeriu-lhe.

- Mintie! - corrigiu-o Peter. Tio Marcus, tens de cham-la Mintie.

- Chamarei, se a menina Pomfrey no se importar assentiu, com ar srio.

No, claro que no - respondeu-lhe ela, alegremente.

Passado um bocado, empreenderam a viagem, atravessando Londres at  auto-estrada que os levou a Harwich, passando por Brentfor, Chelmsford e Colchester. Muito antes
de chegarem ao porto, os pequenos adormeceram. Araminta ps um brao sobre cada um e passou


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o resto da viagem a observar discretamente o patro.

Disse-se que seria interessante conhec-lo, mas no acreditava que tivesse oportunidade de o fazer. Ento, perguntou-se por que razo no se casara. Teria passado
por alguma experincia desagradvel? Estaria comprometido? Concluiu que a ltima hiptese era a mais provvel e decidiu averiguar o mais depressa possvel.

Foram dos ltimos a embarcar. O doutor levava um menino nos braos e um funcionrio do porto carregava o outro.

Araminta ia dormir no mesmo camarote que os pequenos. Era espaoso e confortvel e tinha uma casa de banho. Sem perder tempo, ela despiu-os e deitou-os. A seguir,
tirou as suas coisas do saco, sem saber o que fazer. O doutor importar-se-ia se ela pedisse para lhe servirem um ch e uma sanduche? J era quase meia-noite e estava
com fome. De repente, ouviu bater  porta.

- Pedi a uma funcionria para ficar um bocado com as crianas - informou-a o doutor. - Venha jantar comigo. Assim poderei explicar-lhe em que  que consiste o seu
trabalho.

Enquanto saboreava o delicioso jantar, Araminta ouviu atentamente o que o mdico esperava dela.

- Vivo em Utreque, numa casa que fica no centro da cidade. H vrios parques por perto e j tomei as medidas necessrias para que os meninos possam ir  escola da
parte da manh. Enquanto estiverem nas aulas, a menina poder fazer o que lhe apetecer, mas ter que passar o resto do dia com eles. Deve saber melhor do que ningum
como mant-los ocupados. A minha governanta e o marido encarregar-se-o do resto. No meu tempo livre, eu tomarei conta dos pequenos. Suponho que queira fazer um
pouco de turismo. Por outro lado.


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acho que a minha irm j lhe explicou tudo o que h para saber sobre a roupa e as refeies dos meus sobrinhos. J deve ter notado que so to barulhentos como a
maioria das crianas da sua idade e que no podem ver-se um sem o outro.

- Farei o que puder para que se sintam felizes e estejam entretidos - assegurou-lhe Araminta. - Diga-me: caso haja algum problema, como  que posso localiz-lo?
Suponho que passe o dia a trabalhar.

- Sim, mas deixo sempre um nmero de telefone ou um recado a Bas. Ele fala ingls, o que sem dvida ser uma grande ajuda para si - sorriu-lhe amavelmente. Tenho
a certeza de que vai correr tudo bem, menina Pomfrey. Agora,  melhor ir para a cama. Pedi para nos acordarem cedo. Se os pequenos estiverem muito nervosos para
tomarem o pequeno-almoo, pararemos no caminho para comermos alguma coisa. Espero que consiga t-los prontos a tempo...

Araminta apressou-se a assegurar-lhe que no haveria problema nenhum. A seguir, agradeceu-lhe pelo jantar, pronta para se retirar, mas, para seu espanto, ele acompanhou-a
ao camarote.

"Foi muito amvel", pensou, enquanto tomava um duche rpido. Antes de se deitar, deu mais uma vista de olhos aos gmeos, que dormiam a sono solto.

Os pequenos acordaram quando um empregado entrou com uma bandeja de ch. Beberam leite e comeram bolachas, sem pararem de falar um segundo. No se calaram nem sequer
enquanto se lavavam e vestiam. Quando Araminta estava a atar-lhes os atacadores dos sapatos, o doutor apareceu.

- Ainda temos tempo para tomarmos o pequeno-almoo, se quiserem - anunciou. - Dormiram bem?


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- Como duas pedras - respondeu-lhe Araminta. - J est tudo pronto.

- ptimo. Vamos, ento.

Enquanto o seguia para o restaurante, Araminta perguntou-se se aquela alterao de hbitos o incomodava. Se sim, disfarava muito bem. Tomaram o pequeno-almoo 
pressa, porque j estavam perto da costa e os meninos queriam ver o barco aportar.

O desembarque foi demorado, mas, finalmente, conseguiram passar pela alfndega.

- Vamos directamente para a minha casa - comunicou-lhe o doutor, que levava os sobrinhos pela mo. Demoraremos menos de uma hora a chegar l.

J no carro, fez uma chamada do telemvel.

-Avisei que vamos a caminho - explicou-lhe.

Apanharam muito trnsito no tnel que atravessava o Maas. Finalmente, chegaram  auto-estrada e Araminta pde contemplar com prazer a paisagem que os rodeava.

Como ela esperava, o pas era plano e pareceu-lhe encantador, com as suas quintas espalhadas pelas campinas onde manadas de vacas pastavam. Da auto-estrada, viu
algumas povoaes que pareciam muito bonitas e prometeu a si mesma que, assim que tivesse algum tempo livre, aproveitaria para explorar os arredores.

- A auto-estrada  muito cansativa, no ? - comentou o doutor, como se tivesse lido os seus pensamentos.
- Mas permite-nos chegar mais depressa. Prometo-lhe que, antes de voltarmos para Inglaterra, lhe mostrarei um pouco da Holanda rural. Tenho a certeza de que vai
adorar.

- Obrigada - murmurou. -  uma estrada muito boa.

- As auto-estradas so todas assim. Quando se deixam, a coisa muda de figura... mas acho que  melhor que veja por si mesma e, sem pensar duas vezes, desviou-se
para uma estrada que atravessava dois campos


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alagados. - Vamos seguir o curso do Vect. O percurso  mais longo, mas acho que vai valer a pena. Assim poder ver um pouco mais da Holanda rural.

A estrada era ladeada por casas muito bonitas, rodeadas de jardins bem tratados.

- As pessoas que enriqueceram com o comrcio das ndias Orientais construram aqui as suas manses. H, inclusivamente, um castelo perto daqui. Existem vrios, nesta
comarca, e a maioria  propriedade privada. Espero que tenha a oportunidade de visitar um dos que esto abertos ao pblico antes de voltar.

A partir daquele momento, o doutor entreteve-se a falar com os sobrinhos, como se pensasse que j lhe dedicara tempo mais do que suficiente, deixando que contemplasse
a paisagem  vontade. Araminta tinha a sensao de que ele s se mostrara amvel com ela por uma questo de educao.

Passado um bocado, chegaram a Utreque. A cidade tinha edifcios magnficos e era atravessada por um nmero incrvel de canais. Araminta viu ruas e praas com prdios
muito estreitos e telhados inclinados.

Os meninos tagarelavam, excitados, em holands. No era de admirar. Afinal, a sua me e o seu tio eram holandeses. Embora o doutor fizesse o possvel para os acalmar,
eles interrompiam-se um ao outro quase constantemente.

- Chegmos, Mintie! - quase gritou Paul. - No  uma maravilha?

Ela olhou pela janela. Estavam num gratch estreito, ladeado por uma fileira de rvores. De um lado e do outro do canal havia casas de todas as formas e tamanhos.
U doutor estacionou o carro no fim do gratch, diante de uma casa estreita de tijolos vermelhos e quatro andares, cada um com trs janelas que se tornavam mais pequenas
 medida que iam ganhando altura.


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O doutor saiu do carro e deu a volta para abrir a porta aos sobrinhos e, depois, a Araminta.

- Espero que a viagem no tenha sido muito cansativa para si - disse-lhe amavelmente.

- Nem por isso - apressou-se a assegurar-lhe Araminta, que acrescentou para si mesma que devia estar horrvel, pois mal pudera arranjar-se no barco.

Os meninos subiram a correr as escadas que levavam  varanda e puseram-se a falar atabalhoadamente com o homem de branco que apareceu para os receber.

- Este  Bas - apresentou-lho o doutor. - Ele toma conta da casa, juntamente com a mulher. Como j lhe disse, fala ingls. Tenho a certeza de que far tudo o que
estiver ao seu alcance para a ajudar.

- Seja bem-vinda, menina. Tentaremos fazer com que tenha uma boa estada.

Aquelas sim, eram palavras de boas-vindas. Secretamente, Araminta desejou que o doutor lhe tivesse dito alguma coisa parecida.

- Sim, sim - limitou-se a dizer ele, com expresso ausente. - Espero que se sinta como se estivesse em sua casa. Se precisar de alguma coisa, no hesite em pedi-la.

Pelos vistos, aquilo era o mais parecido com uma frase de boas-vindas de que o seu chefe era capaz.

O vestbulo era comprido e estreito, com muitas portas dos lados; do meio partia uma escadaria que levava ao andar de cima. Assim que entraram, foram recebidos por
uma mulher baixinha e rechonchuda, vestida com um uniforme preto e uma touca. Tinha o cabelo grisalho preso num carrapito e um sorriso alegre no rosto.

- Jet! - exclamou o doutor Van der Breugh, visivelmente feliz, ao mesmo tempo que se aproximava para a beijar carinhosamente na cara. Disse-lhe algumas palavras
em holands e a mulher deu alguns passos para


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apertar a mo a Araminta. A seguir, abraou os pequenos, sem parar de falar.

- Vo com Jet para a cozinha - indicou o doutor aos sobrinhos. - Ela vai dar-vos leite e bolachas. A menina Pomfrey ir ter convosco assim que tomar o caf.

Bas abriu uma grande porta de caju e Araminta viu-se conduzida a uma sala espaosa de tecto alto, com duas janelas que davam para o gratch, uma lareira enorme numa
das paredes e uma porta de vidro que dava para outra sala. Estava mobilada com dois sofs grandes, um de cada lado da lareira, e vrias cadeiras. Entre as janelas
destacava-se uma mesa Pembroke sobre a qual havia um jarro de porcelana com um ramo de rosas.

Ao lado da lareira havia um mvel de castanho e outro laado de preto e dourado, que servia de apoio a um relgio stoel cujo tiquetaque se ouvia claramente. As cortinas
verdes-escuras e cor de vinho combinavam com os estofos dos sofs e das cadeiras. O soalho de carvalho polido estava coberto por carpetes Kasham um POUCO desbotadas
pelo tempo.

Araminta pensou que era uma sala maravilhosa e que, se no estivesse com Marcus, daria voz aos seus pensamentos. Mas talvez ele no gostasse de elogios.

- Porque  que no nos sentamos, menina Pomfrey? Depois de tomarmos o ch, Jet vai acompanh-la ao seu quarto. Talvez queira desfazer as malas dos meninos e elaborar
um horrio para eles. Se quiser, podemos v-lo juntos esta noite.

Bas apareceu com a bandeja do caf e ela serviu-o. Enquanto o tomavam, o doutor ps-se a ler a correspondncia, aparentemente sem se importar com a sua presena.

Suponho que queira ir para o seu quarto - comentou pouco depois de Araminta comear a pensar que se


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esquecera dela. - Leve os pequenos consigo. Eu vou almoar fora. Sugiro-lhe que os leve a dar um passeio esta tarde. Eles sabem onde  o parque. Se precisar de alguma
coisa, pode pedi-la a Bas.

E, sem mais, levantou-se para lhe abrir a porta. Araminta no se atreveu a dizer-lhe que lhe apetecia tomar mais uma chvena de caf.

Bas esperava-a  porta da cozinha, que ficava na parte de trs da casa. Os gmeos receberam-na com exclamaes de entusiasmo e seguiram-na enquanto Jet lhe oferecia
mais uma chvena de caf com um sorriso. Bas informou-a de que o almoo era servido ao meio-dia e de que, quando voltassem do passeio, teriam um verdadeiro ch ingls
 espera.

- Ah! Pode telefonar  sua famlia quando quiser. So ordens do mijnheer.

- So? Nesse caso, vou telefonar agora mesmo, antes de subir para o meu quarto.

Foi a sua me que atendeu. Ficou muito contente por saber que a viagem decorrera sem incidentes e recomendou-lhe que, se tivesse tempo, fosse visitar os tmulos
que havia no norte do pas.

- Diverte-te, querida - despediu-se.

Araminta prometeu-lhe que o faria, embora no soubesse se a sua me se referia ao trabalho ou  visita aos achados arqueolgicos.

Acompanhada de Jet e dos gmeos, foi para o seu quarto, que ficava no segundo andar, na parte que dava para a rua, e estava mobilado com uma cama, uma mesa ao lado
da janela e outra um pouco maior com duas cadeiras. A carpete e as paredes combinavam as cores pastel, e a madeira dos mveis era clara. Tambm possua um grande
roupeiro e uma casa de banho privativa, com todas as comodidades modernas.

O quarto dos gmeos ficava perto do seu e tambm


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tinha casa de banho prpria. Ao lado havia uma sala de jogos, com mesa e cadeiras para que pudessem comer ali.

Os meninos mostraram-lhe tudo e contaram-lhe que alguns dos brinquedos que se encontravam nas estantes tinham pertencido ao seu tio e, inclusivamente, ao seu av.

- Temos que ter muito cuidado confidenciou-lhe Paul. - s vezes, quando estamos aqui, o tio Marcus deixa-nos brincar com eles.

- Costumam vir c muitas vezes?

- Todos os anos, com o pap e a mam.

Bas subiu para os avisar de que o almoo estava servido. Eles desceram rapidamente e, em pouco tempo, devoraram a comida.

Os meninos estavam to excitados que Araminta decidiu lev-los a passear antes de desfazer as malas.

O parque ficava a apenas cinco minutos de caminho e tinha um tanque com peixes coloridos, e bancos de madeira sob as rvores. No entanto, os pequenos no estavam
interessados em sentar-se e, assim que se cansaram de observar os peixes, pediram-lhe que os levasse a dar uma volta pelas ruas mais prximas.

- Tambm podemos ir  torre de Dom.  muito alta, como a de Domkerk...  a catedral, sabes? E pode ser que o tio nos leve  universidade um dia destes.

Quando voltaram para casa, os gmeos estavam visivelmente cansados e Araminta alegrou-se por Bas j ter servido o ch.

- O mijnheer est quase a chegar informou-a ele. Ele tomar conta dos meninos para que a menina possa ir desfazer as malas. O jantar ser servido s seis e meia.

Aquilo fez com que Araminta se lembrasse de que tinha de escrever o horrio dos gmeos para o mostrar ao doutor naquela mesma noite.


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- Enfim s! - exclamou com um suspiro, ao diri gir-se  sala, depois de deixar os pequenos na cozinha a brincar com a gata Miep e os seus filhotes.

- Espero que o trabalho no lhe parea excessiva mente cansativo - retorquiu uma voz atrs dela.

Araminta deu meia volta e deparou-se com Marcus, que a olhava com ar divertido.

- Nem por isso. Desculpe, no sabia que estava a. No, os meninos so encantadores. O problema  que foi um dia muito longo.

- Sim - assentiu ele, sem abandonar o ar de gozo. Suponho que queira ir desfazer as malas. Eu ficarei com eles at s seis e um quarto e abriu-lhe a porta para que
sasse.

Enquanto pendurava a roupa no roupeiro, Araminta ponderou que no devia voltar a exprimir os seus pensamentos em voz alta. Por mais que pensasse, no sabia por que
razo aceitara aquele emprego. No incio, pensou que fora por ter pena do doutor Van der Breugh, mas, depois, concluiu que aquilo era um disparate. Afinal, ele vivia
rodeado de todas as comodidades e tinha gente ao seu dispor para satisfazer todas as suas necessidades.

Imaginava que era um homem muito ocupado, embora no soubesse exactamente em que consistia o seu trabalho. No acreditava que se dedicasse  clnica geral... imaginava-o
mais como um especialista eminente. Prometeu a si mesma que ia tentar descobrir o mais depressa possvel.

Depois de guardar as coisas dos pequenos, pegou numa folha de papel e num lpis, e fez um rascunho do horrio deles. Esperava que, se o doutor discordasse de alguma
coisa, lhe desse pelo menos algumas sugestes pertinentes.

Quando desceu, s seis e um quarto, encontrou os gmeos e Marcus na sala onde tinham tomado o ch, deitados no cho a jogar s cartas. Ao lado do mdico havia um
enorme Labrador preto.

- Ol, menina Pomfrey! cumprimentou-a ele, enquanto o co se aproximava dela para a cheirar. - Esse  Humphrey. Gosta de ces?

- Gosto - assentiu, a acariciar a cabea do Labrador.
-  muito bonito.

Sentou-se a observar o fim do jogo, do qual Peter saiu vencedor.

- Vamos jantar, meninos? - props-lhes ento.

- Quando acabarem, venham dar-me um beijo de boas-noites.

Bas esperava-os no vestbulo.

- Servi o jantar na sala de jogos. J sabe onde , menina.

- O tio Marcus costumava jantar ali quando era pequeno - revelou Paul, e disse-nos que, quando tiver filhos, eles tambm comero na sala de jogos.

Araminta perguntou-se se o doutor estava a pensar em casar-se. Aparentava ter trinta e cinco anos, idade mais do que suficiente para pensar em assentar a cabea.
Seria uma pena que uma casa to bonita como aquela, com sala de jogos e tudo, fosse desperdiada.

Quando os gmeos acabaram de jantar, Araminta decidiu ir deit-los imediatamente, pois, de repente, pareciam muito cansados e tristes.

- O pap e a mam esto muito
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longe? - perguntou-lhe Peter enquanto tomava banho.

- Depende. A p, sim, mas, de avio, no se demora nada a ir e vir. Querem ir comprar postais amanh para lhes escreverem?

Depois de vestirem os pijamas e os roupes, os pequenos voltaram a descer para darem as boas-noites ao tio.
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O doutor abraou-os carinhosamente e, depois, lembrou a Araminta de que o jantar seria servido dali a meia hora.

Os meninos adormeceram quase de imediato, de modo que ela teve tempo de tomar um duche rpido e mudar de roupa. Pressentia que o doutor dava muita in portncia 
pontualidade.

Ficaram na sala de estar, a falar de banalidades e a tomar licor at que Bas entrou para anunciar que o jantar estava servido.

Araminta estava com fome e fez jus ao jantar delicioso que Jet preparara: cogumelos com molho de alho frango assado e tarte de ma com creme.

Enquanto comiam, conversaram sobre trivialidades. Marcus pensou que, a partir daquele dia, poderia passar as noites com os amigos ou no hospital. Quase nunca estava
em casa  hora do almoo e o pequeno-almoo no constituiria nenhum problema, j que os pequenos estariam com ela. A menina Pomfrey era muito simptica, mas no
lhe interessava minimamente. Estava convencido de que trataria bem os seus sobrinhos e esperava que fosse capaz de se entreter sozinha nos dias de folga.

Quando acabaram de jantar, sugeriu-lhe amavelmente que tomassem o caf na sala de estar.

- Se no se importa - respondeu-lhe Araminta, prefiro ir para a cama. Escrevi o horrio dos meninos e gostava que o lesse. Amanh de manh pode dizer-me o que pensa
dele. Tomaremos o pequeno-almoo todos juntos?

- Sim, por volta das sete e meia, porque tenho de ir para o hospital antes das oito.

-Ah, sim! Perguntava-me onde trabalhava - comentou, antes de lhe desejar as boas-noites.

Marcus aprovou o horrio. No lhe passou despercebido


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que, se o cumprisse  risca, Araminta acabaria por ficar exausta, mas o problema era dela. Alm disso, tinha algum tempo livre todas as manhs, enquanto os pequenos
estivessem na escola, e um dia de folga por semana para fazer o que lhe apetecesse, desde que os seus planos no interferissem com os dele.

Sentou-se  secretria e comeou a estudar as fichas dos pacientes que trouxera consigo do hospital. Tinha muito trabalho  sua espera, tanto em Utreque como em
eiden. Afinal, era um grande especialista em endocrinologia, com uma longa lista de pacientes. Concentrado no trabalho, no voltou a pensar na ama.

Araminta ainda demorou um bocado a deitar-se. Primeiro tomou um banho relaxante e passou algum tempo a observar o seu rosto ao espelho,  procura de rugas, felizmente,
no encontrou nenhuma, pois tinha a pele macia e lisa como um pssego. Pouco depois de se deitar, adormeceu.

Uma hora mais tarde, acordou com o choro de uma criana. Paul estava parado ao lado da sua cama, com a cara lavada em lgrimas. Alguns segundos depois, chegou Peter.

- Ena! - exclamou Araminta, a saltar da cama. - Tiveram um pesadelo? Eu acompanho-vos ao vosso quarto para me contarem como foi. Assim esquecem-se dele mais depressa.

No entanto, o problema dos meninos era terem saudades dos pais, de casa, dos gatos e do peixe do lago.

- Sim, eu compreendo - consolou-os ela, - mas tm que pensar que, daqui a pouco tempo, voltaro para casa e podero contar-lhes tudo o que fizeram aqui na Holanda.
Alm disso, tm o vosso tio...

- E tambm te temos a ti, Mintie... No te vais embora, pois no?

- Claro que no! Para onde  que havia de ir? Preciso


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de vocs para me servirem de guias em Utreque para que, quando voltar, possa contar tudo  minha famlia.

- Tens filhos? - quis saber Peter.

- No, s pai, me, tios e tias. Nem sequer tenho irmos.

- Podemos fingir que somos teus irmos? - props-lhe Paul timidamente. - Pelo menos enquanto estivermos aqui.

- Claro que sim! Parece-me uma ptima ideia.

- Ouvi vozes - disse o doutor, da porta. - Tiveram pesadelos?

-Acordmos e queramos ir para casa - explicou-lhe Peter, - mas Mintie consolou-nos, tio, e disse-nos que podemos fingir que somos os seus irmos mais novos. Ela
no tem nenhum, sabias?

Marcus entrou no quarto e sentou-se numa cama.
-  uma excelente ideia! Vamos fazer tantos planos que no teremos tempo para os realizarmos todos.

E prometeu-lhes que um dia os levaria a Frsia, a visitar alguns amigos, outro aos lados a norte de Utreque, para navegar de iate, e que tambm iriam comprar presentes
para os pais deles.

Os meninos sorriam de felicidade e, passado um bocado, comearam a fechar os olhos. Araminta tambm o ouvia como se estivesse hipnotizada, completamente esquecida
de que estava descala, sem roupo e com o cabelo solto e despenteado a cair-lhe nos ombros.

Com a sua discrio habitual, Marcus nem sequer a olhou duas vezes, convencido de que a pdica menina Pomfrey no gostaria nada de que ele a visse em camisa de dormir.
No entanto, no pde deixar de reparar que tinha um cabelo muito bonito.

- Agora, toca a dormir! Vou voltar para o meu escritrio,

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mas virei c daqui a dez minutos e quero encontrar-vos a dormir como duas pedras.

E saiu sem sequer olhar para Araminta. Enquanto cobria os meninos, ela apercebeu-se de que no vestira o roupo. Sem hesitar, voltou ao quarto e vestiu-o. A seguir,
prendeu o cabelo com uma fita. No tinha outro remdio seno tornar a ver Marcus, uma vez que os gmeos lhe tinham pedido para que ficasse com eles at adormecerem.

Quando o doutor voltou a subir, encontrou-a sentada numa cadeira, ao lado das camas dos pequenos.

- J esto a dormir, doutor - informou-o ela, no seu tom mais formal. - Boa noite.

Ele no pde reprimir um sorriso ao v-la com um roupo austero e o cabelo preso. Ento, lembrou-se de que o seu amigo Jenkell lhe dissera que ela era a nica filha
de um casal de meia-idade, cujos hbitos quase no se tinham alterado ao longo dos anos. Pelos vistos, tinham-na educado  sua imagem e semelhana.

No entanto, Araminta entendia-se muito bem com as crianas e no era nada maadora. Previu que, dali a alguns dias, lhe passaria completamente despercebida.

Durante o pequeno-almoo, ficou muito satisfeito com o comportamento dos sobrinhos, que no o interromperam enquanto lia a correspondncia.

- O horrio que elaborou parece-me ptimo, menina Pomfrey - comentou por fim. - Voltarei  hora do ch e levarei os pequenos a dar um passeio com Humphrey. Por outro
lado, hoje  o primeiro dia de escola deles. Se no se importar, de agora em diante passar a lev-los de manh e a ir busc-los ao meio-dia. Assim ter algum tempo
livre para ir s compras ou fazer turismo.

- Obrigada, doutor - agradeceu-lhe Araminta.

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- Tio - interveio Peter, - porque  que chamas "menina Pomfrey" a Mintie? No vs que ela  Mintie?

- Tens razo, desculpa. A partir de agora passarei a trat-la por Mintie - prometeu-lhe Marcus, com um sorriso que lhe transformou completamente o rosto. - Isto
... se ela permitir.

- Com certeza anuiu Araminta sem hesitar. Era a segunda vez que ele lhe fazia aquela pergunta,

Araminta chegou  concluso de que se importava to pouco com ela que nem sequer prestava ateno ao que lhe dizia.
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Os meninos no protestaram por terem de ir  escola, que ficava a cinco minutos da casa do doutor, numa rua muito sossegada do outro lado do canal. Araminta prometeu-lhes
que iria busc-los ao fim da manh e, depois, voltou a casa para avisar B as de que ia dar um passeio pelos arredores.

Chegou rapidamente a Domkerk, mas no entrou, pois os gmeos estavam muito entusiasmados com a ideia de a acompanharem. Dirigiu-se a outra igreja prxima, a St.
Pieterskerke, de estilo gtico, com uma cripta e frescos. Quando saiu, j estava na hora de ir buscar as crianas. No dia seguinte, visitaria um dos museus da cidade
e procuraria um lugar sossegado para tomar um caf.

Os meninos divertiram-se muito na escola e, a caminho de casa, perguntaram-lhe o que iam fazer naquela tarde.

- Bom, se quiserem, podemos ir comprar postais Para escreverem aos vossos pais. Se souberem o caminho, podemos ir aos correios. Todos os dias podem mostrar-me alguma
coisa nova e, assim, se algum dia voltar a Utreque...

- Claro que voltars, Mintie! - interrompeu-a Paul. tenho a certeza de que o tio Marcus te convidar.


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Araminta no achava muito provvel, mas no diss nada.

- Seria ptimo! Bem, enquanto almoamos, podem contar-me mais coisas sobre a escola.

Passaram uma tarde agradvel. Foram aos correios e exploraram algumas ruas prximas. Os pequenos divertiram-se muito a dar-lhe explicaes. Voltaram para casa 
hora do ch. Os gmeos entraram em casa muito contentes, a celebrarem com grandes gargalhadas as tentativas de Araminta para repetir as palavras que lhe tinham ensinado
em holands. De repente, a porta do escritrio abriu-se e Marcus

apareceu com um livro na mo, a olh-los com ar austero por cima dos culos. Sem hesitar, Araminta mandou calar os pequenos. - Desculpe, doutor! Se soubssemos que
estava em casa, no teramos feito tanto barulho.

-  bom saber disso, menina Pomfrey. Lamento interromper a vossa diverso, mas tenho que vos pedir que, enquanto estiverem nesta casa, se mantenham em silncio.
Na sala de jogos, as crianas podem fazer o barulho que quiserem, claro.

Araminta olhou-o com compaixo. A menos que se casasse rapidamente e enchesse aquela casa de crianas, aquele homem acabaria por se tornar um solteiro amargurado.

- Lamentamos muito, no  verdade, meninos? As crianas so assim, doutor - acrescentou, - o senhor sabe... embora talvez se tenha esquecido - e, com um sorriso,
deu meia volta e subiu as escadas com os gmeos,

- O tio Marcus est zangado? - indagou Paul.

- No, claro que no! Vocs ouviram-no dizer que podem fazer o barulho que quiserem na sala de jogos. Vi que tm um piano, portanto, se quiserem, podemos organizar
um concerto depois do ch.

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- Deve estar zangado - insistiu Peter, - seno no te teria chamado "menina Pomfrey".

- No! Esqueceu-se, mais nada. Vo lavar as mos. Como o vosso tio est a trabalhar, provavelmente vamos tomar o ch na sala de jogos.

Quando Marcus voltou para o escritrio, teve dificuldades para retomar a leitura. No conseguia parar de pensar no que Araminta lhe dissera, dando a entender que
era um velho cheio de manias. Ora, s tinha trinta e seis anos! No entanto, tinha de reconhecer que o seu estilo de vida era muito diferente do dos seus amigos e
que, como no era casado, estava habituado a trabalhar em casa.

No campo profissional, no podia estar mais satisfeito com o que conseguira, dado que era um famoso professor de endocrinologia. Tinha muitos amigos e parentes de
quem gostava, nomeadamente a irm e os sobrinhos. De vez em quando, pensava na possibilidade de se casar, mas nunca encontrara uma mulher com quem quisesse partilhar
o resto da sua vida.

Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de assentar a cabea, mas a ideia no o atormentava porque, no seu crculo de amizades, havia vrias mulheres que ficariam
encantadas com a perspectiva de se casarem com ele. Pelo menos, pensava que sim.

Continuou a ler durante um bocado e, depois, dirigiu-se  cozinha para pedir a Bas que servisse o ch na sala de estar.

- Por favor, avisa a menina Pomfrey e os meus sobrinhos de que os espero daqui a dez minutos.
Prometeu-se que, depois do ch, brincaria com eles  coisa mais barulhenta que lhes apetecesse. Sorriu ao ter conscincia do quanto ficara irritado com o comentrio
daquela rapariga insossa.

araminta ficou muito surpreendida ao receber o recado


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do doutor e, quando desceu com os pequenos, en controu-o  sua espera com o co aos ps.

- Pensei que podamos lanchar juntos - disse-lhe ele. - Parece que Jet fez bolachas e pofferjes. Quer sentar-se, menina Araminta?

- Mintie - lembrou-lhe Peter.

- Mintie - repetiu o tio, obediente. Araminta sorriu, feliz por ver que ele j no estava zangado.

- O que  que fizeram hoje? - perguntou Marcus aos sobrinhos, enquanto tomavam o ch. - Gostaram da escola?

Os meninos responderam-lhe com entusiasmo, o que permitiu que Araminta se concentrasse no problema do jantar. Calculou que tinha de se mostrar particularmente cautelosa,
porque, embora o seu patro tivesse uns excelentes modos, intua que ele desejava que as coisas decorressem exactamente como previra e no tolerava interferncias
na sua vida particular. No podia esquecer-se de que no passava de uma ama temporria. Depois do lanche, jogaram ao Monoplio. Os meninos jogavam muito bem e Peter
acabou por ganhar, seguido de perto por Paul. O tio fez uma srie de manobras para perder das quais s Araminta se apercebeu. Quando chegou a hora de irem para a
cama, os gmeos pediram ao tio para ir dar-lhes as boas-noites ao" quarto. Ele subiu depois deles tomarem banho e beberem o leite. Vestia um fato que lhe assentava
como uma luva.

- Esta noite vou jantar fora, menina Pomfrey - informou-a, depois de beijar os sobrinhos. - Bas vai servir-lhe o jantar  hora do costume.

Araminta teve de reprimir o impulso de lhe perguntar onde  que ia. A uma festa numa manso com muitos convidados, talvez, embora fosse mais provvel que tivesse

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convidado uma mulher sofisticada para jantar num restaurante caro, daqueles que tm candeeiros cor-de-rosa e servem pratos deliciosos.

- Vais jantar com alguma mulher bonita, tio Marcus?
- interrogou-o Paul, meio adormecido.

- Vou, Paul - assentiu ele, sorridente. - Amanh digo-te o que comemos.

E, aps fazer um gesto de despedida a Araminta, saiu do quarto. Ela ficou com os pequenos at calcular que ele j sara. Fora uma tola ao pensar que ele ficaria
em casa, a jantar com ela. No dia anterior, fizera-o por educao, mas era mais do que evidente que no a achava uma pessoa interessante. A sua me dissera-lhe o
mesmo vezes sem conta, acrescentando que, como tambm no era muito inteligente, tinha que se contentar com ser boa ouvinte.

Araminta seguira aquele conselho, apesar de saber que a sua me, com o egosmo tpico das pessoas brilhantes, no tinha conscincia do quanto a ferira.

Bas serviu-lhe um jantar delicioso com esmero.

- Vou servir-lhe o caf na sala de estar - comunicou-lhe.

Ela sentou-se com Humphrey aos seus ps. De repente, reparou nos quadros que pendiam das paredes e nos belos objectos de prata e porcelana dos aparadores.

Como ainda era cedo para ir para a cama, depois de verificar que os meninos dormiam a sono solto, voltou Para a sala para folhear algumas revistas. Contudo, deu
Por si a pensar nos acontecimentos do dia. Era bom saber que os gmeos se sentiam  vontade com ela. Gostava muito da casa, sobretudo do conforto do seu Quarto.
Bas e Jet eram a simpatia em pessoa e, sem dvida, Utreque era uma cidade muito interessante. O nico ponto discordante naquele quadro era a sensao de que o doutor
no gostava muito dela. Sentiu vergonha


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ao recordar a maneira como lhe respondera naquela tarde. Afinal de contas, era empregada dele. Estava ali para tomar conta dos gmeos.

Finalmente, decidiu ir para o quarto, receosa de que Marcus a encontrasse ali quando voltasse.

De manh, Bas disse-lhes que o doutor Van der Breugh tivera de partir muito cedo para Amsterdo e que s voltaria  noite. Os gmeos ficaram um bocado decepcionados
e, para sua surpresa, Araminta tambm!

 tarde, quando voltaram do passeio, ele j estava em casa. Araminta tirou os casacos e os gorros aos meninos e, depois de ver se eles se tinham penteado e lavado
as mos, deixou-os descer para se juntarem a ele

- Tu no vens? Est quase na hora do ch, Mintie! resmungou Peter, impaciente.

- Vou j, querido. Primeiro vou arrumar isto tudo. Decidiu ficar com eles s enquanto o lanche durasse

Depois, se o doutor desejasse, poderia ficar a ss com os sobrinhos. Estava to preocupada com a possibilidade de ter de jantar com ele que comeou a fazer uma lista
de possveis temas de conversa.

Chegou  sala de estar no preciso momento em que Bas entrou com a bandeja do ch.

- Boa tarde, menina Pomfrey. As crianas j me contaram que deram um passeio muito interessante.

- Sim, doutor. Espero que tenha passado um bom dia
- respondeu-lhe, enquanto servia os meninos.

- Eu... sim, sim - gaguejou, um pouco surpreen dido. - Vou ficar algum tempo com os meus sobrinhos. Pode vir busc-los s seis e meia.

Durante o resto do lanche, os meninos comandaram a conversa, intercalando algumas frases em holands. Quando acabaram, Araminta subiu para preparar as
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coisas para quando os gmeos fossem deitar-se. Em seguida, desceu para ir dar uma volta pelo jardim. Ao passar pela cozinha, Jet, que estava a fazer o jantar, dedicou-lhe
um sorriso carinhoso e ela retribuiu de imediato. No precisavam de palavras para saberem que se davam bem.

O jardim era muito bonito e estava extremamente bem tratado. Ao fundo, havia um banco de madeira quase coberto pela folhagem. A luz da tarde parecia feita de bronze
reluzente. Araminta sentou-se naquele lugar sossegado e deixou-se levar pelos pensamentos.

Marcus levantou a cabea do puzzle que estava a fazer com os sobrinhos e, pela janela, viu-a sentada ali. Parecia um pouco desamparada e ele perguntou-se se seria
infeliz, mas, quase de imediato, descartou a ideia. A menina Pomfrey era uma rapariga sensata, com os ps bem assentes no cho e uma lngua bastante afiada. Contara-lhe
que tinha o seu futuro bem planeado e ele no tinha dvidas de que seria bem sucedida na sua profisso.

Duvidava de que chegasse a casar-se, pois no fazia nenhum esforo para se tornar atraente: a roupa que usava era muito feia e penteava-se com pouca elegncia, apesar
de ter um cabelo muito bonito, como ele tivera a oportunidade de verificar na noite anterior. Naquele momento, os pequenos chamaram-no e ele deixou de Pensar nela.

Depois de pr os gmeos na cama, Araminta vestiu o Vestido de crepe azul e desceu para jantar dez minutos antes da hora. Ao passar pela sala de jantar, viu Bas a
Cabar de pr a mesa e decidiu ir ter com Marcus para falar com ele sobre os meninos.

No entanto, ele no se encontrava sozinho. Estava acompanhado de uma mulher muito bonita, talvez a
mais bonita que Araminta vira na sua vida. Tinha cabelo


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louro e comprido, nariz recto, olhos grandes e boca sensual. Usava um vestido preto de seda e lindssimas jias de ouro. Estava a rir-se de alguma coisa que o doutor
acabara de dizer.

- Lamento - desculpou-se Araminta, recuando precipitadamente. - No sabia que tinha companhia. -Ah, menina Pomfrey, entre, entre! - convidou-a o doutor. - Quero
apresent-la a mevrouw Lutyns. Christina - prosseguiu, a dirigir-se  sua acompanhante - esta  a menina Pomfrey. Ela ajuda-me a tomar comta dos filhos de Jack e
Lucy. - Ah, sim! A ama! Espero que goste da sua estada em Utreque. O seu ingls era quase perfeito. "Assim como ela prpria", reflectiu Araminta, "pelo menos, para
ser admirada". - Tenho a certeza de que sim, mevrouw esboou um sorriso educado e deu meia volta para sair da sala.!

- No se v embora, menina Pomfrey. Tome uma bebida connosco. Daqui a pouco ficar nas mos de Baj pois ns vamos jantar fora. - S vim dizer-lhe que os meninos
j esto na cama doutor. Obrigada, mas no quero tomar nada - em seguida, pediu licena e saiu do escritrio.

No entanto, antes de fechar a porta, ouviu a menina Lutyns dizer uma coisa que a deixou petrificada:

- Que mulher to insignificante, Marcus! Onde  que foste desencant-la?!

Ficou parada no corredor, a tremer de raiva. Foi uma pena no ter ouvido a repreenso do doutor:;

- Isso no  coisa que se diga, Christina. A menina Pomfrey  uma pessoa encantadora e os meus sobrinhos adoram-na. O seu aspecto no tem nenhuma importncia. 
uma jia de pessoa.

- Querido, eu no pretendia ser impertinente! Tenho


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a certeza de que  muito competente - desculpou-se a mevrouw Lutyns.

Foram a um dos melhores restaurantes de Utreque. De vez em quando, o doutor lembrava-se de Araminta, que devia estar a jantar sozinha, com o vestido que escolhera
por pensar que ele jantaria com ela.

Depois do jantar, acompanhou Christina  casa dela, num moderno bloco de apartamentos nos subrbios da cidade.

Recusou o seu convite para subir e tomar uma bebida com a desculpa de que o esperavam no hospital para ver um paciente e, quando ela lhe sugeriu que sassem juntos
outra vez, argumentou que nos prximos dias teria muito trabalho. Pde ver que a sua resposta no lhe agradou minimamente.

Chegou a casa meia hora depois e teve de levar a passear Humphrey, que o esperava  entrada, impaciente. A noite estava um pouco fria, por isso, quando voltou, serviu-se
de uma chvena de caf e foi para o quarto.

"Esta noite", pensou, "foi uma perda de tempo". Conhecia Christina h vrios anos e, embora lhe parecesse uma mulher divertida e inteligente, nunca se sentira atrado
por ela... assim como por nenhuma das mulheres solteiras que conhecia. O trabalho era muito importante para ele e estava habituado a levar uma vida calma e sossegada,
rodeado de empregados que considerava quase como amigos. s vezes, perguntava-se se algum dia conheceria uma mulher a quem pudesse amar acima de todas as coisas.

Na manh seguinte, durante o pequeno-almoo, Peter e Paul lembraram-lhe de que lhes prometera lev-los para fora da cidade durante o fim-de-semana. Depois de


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lhes assegurar que no se esquecera, Marcus cumprimentou Araminta, esperando sinceramente que no estivesse muito desiludida com o que acontecera na noite anterior.

Araminta respondeu-lhe educadamente enquanto servia o caf. Na verdade, passara muito tempo acordada, a convencer-se de que no era mais do que uma simples ama,
exactamente como a odiosa menina Lutyns afirmara. Fora uma estupidez pensar que ele passaria ao seu lado o pouco tempo livre de que dispunha.

Talvez at estivesse apaixonado por aquela mulher, o que no era de admirar, pois Christina era perfeita para ele, linda e elegante. Se lhe parecera insignificante
com o seu melhor vestido, o que diria se a visse com a sua roupa do dia-a-dia?

Tinha que se esforar para se lembrar de que, naquela casa, era apenas uma empregada, ao contrrio do que acontecia em Humbledon, onde era respeitada por ser filha
de dois investigadores famosos.

- Amanh irei passar o dia com os pequenos a Leiden - comunicou-lhe o doutor, aliviado por ver que ela no parecia aborrecida. - Suponho que queira ter um dia livre.
Vou deixar-lhe um mapa da cidade. H muito para ver e lojas excelentes. Se quiser sair  noite acrescentou, - Bas pode dar-lhe uma chave.

Araminta perguntou-se se ele no estaria a sugerir-lhe que no voltasse para casa antes da hora de se deitar.

- E quem  que tomar conta dos meninos?

- Jet. Pretendo passar a maior parte do dia fora. Espero que no veja nenhum inconveniente nisso.

- Claro que no! Tenho a certeza de que os seus sobrinhos se lembraro de uma srie de coisas para fazerem.


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At ali, os dias tinham sido todos iguais: de manh, ia pr os gmeos  escola, e,  tarde, iam passear ou comprar postais, livros e brinquedos. Depois de lancharem,
os meninos passavam algum tempo a brincar com o tio e, desde a noite da sua chegada, nunca mais tinham jantado com o doutor.

Por uma questo de orgulho, Araminta vestira o vestido azul todas as noites, para tentar convencer-se de que estava a adorar a sua estada naquela casa. Assim que
o relgio dava as dez, subia para o seu quarto, recusando-se a pensar no quanto se sentia sozinha. Nunca adormecia antes de ouvir os passos do mdico no corredor.

No sbado, levantaram-se muito cedo para irem passear. Antes de sarem, os gmeos deram-lhe um abrao apertado.

- Estars aqui quando voltarmos? - indagou Peter.

- Porque  que no vens connosco? - sugeriu-lhe Paul. - Tu no te importas, pois no, tio? - virou-se para o doutor, que os esperava no carro.

- A menina Pomfrey... isto , Mintie, s vai estar aqui um ms e, com certeza, quer conhecer a cidade. Hoje tem uma boa oportunidade de fazer turismo e ir s compras.
As mulheres gostam de ir s compras, sabiam?

- Se quiserem - props-lhes Araminta, sem olhar para o patro, - amanh podem acompanhar-me aos lugares que no tenha tempo de ver hoje.

Por fim, o carro partiu.

- Vir almoar a casa, menina? - interrogou-a Bas. S tem de nos dizer qual  a hora que mais lhe convm.

- Obrigada, mas acho que comerei alguma coisa por a. Quero aproveitar bem o dia. Acha que Jet pode desenvencilhar-se para deitar os meninos sozinha?

- Claro! O doutor vai sair  noite... - fez uma pausa, pouco  vontade.

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- Nesse caso, ela no ter de fazer o jantar, no ?

- Pensei que a menina no pretendia voltar antes da noite - explicou-lhe o homem. - O doutor disse-me para lhe dar uma chave, mas ficarei levantado at a menina
chegar, claro.

-  muito amvel, Bas, mas acho que estarei de volta antes das dez. Deixarei a chave sobre a mesa do vestbulo para indicar que j cheguei.

- Obrigada, menina. Quer tomar um caf antes de sair?

- Sim, por favor.

Passado um bocado, Araminta saiu de casa. J estivera com os pequenos em Domkerk, a catedral, por isso decidiu comear pela torre de Dom e, dali, seguir para a Universidade.
Em seguida, visitou o Museu Central, onde estava exposta uma magnfica coleco de roupas, jias e quadros. Quando saiu de l, j era quase meio-dia, de modo que
entrou num caf para tomar uma kaas brodje. Ficou com fome, mas no tinha muito dinheiro consigo nem fazia ideia de quanto custavam as coisas.

Aos poucos, o tempo foi piorando at comear a soprar um desagradvel vendaval.  tarde, Araminta dedicou-se a percorrer as lojas do centro da cidade. Parou para
admirar as vitrinas das lojas de roupa e sapatarias. Entrou em algumas livrarias e, para seu espanto, descobriu que vendiam muitos livros em ingls. Pouco depois,
localizou uma loja da Burberrys e outra da Harris Tweed e pensou que no teria problemas para se habituar a viver naquela cidade.

A meio da tarde, sentou-se num caf para descansar e pensar no que ia fazer a seguir. Decidiu que o melhor seria voltar para casa por volta das nove horas, pois
os pequenos j estariam na cama e, mesmo que o doutor tivesse sado, Jet e Bas estariam  sua espera na cozinha.


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Entretanto, poderia ir ao cinema. Ficaria sem dinheiro para jantar, mas poderia comer uma sanduche antes de ir para casa.

O bilhete custou-lhe quase todo o dinheiro que lhe restava. O filme americano que escolhera parecia muito divertido, mas estava to cansada que, sem se aperceber,
adormeceu e s acordou no fim do filme.

Quando saiu, j estava escuro, apesar de serem apenas oito horas. Sentou-se num caf movimentado para tomar um ch, a pensar que, quando chegasse a casa, poderia
comer as bolachas que tinha numa caixa no quarto.

Saiu dali disposta a voltar para casa a p, de modo a demorar o mais possvel. Ao atravessar a rua, viu um pequeno estabelecimento com um letreiro a dizer Pommes
Frites.

Batatas fritas! - exclamou, com gua na boca. Achou curioso que, estando na Holanda, o letreiro estivesse escrito em francs. Sem pensar duas vezes, dirigiu-se para
ali e gastou as poucas moedas que lhe restavam num pacote de deliciosas e crocantes batatas fritas.

O doutor Van der Breugh parou num semforo, a caminho da casa dos amigos com quem ia jantar. Estava a olhar para as lojas cheias de gente que aproveitara o sbado
para passear quando, de repente, viu Araminta numa esquina e, sem pensar duas vezes, estacionou perto dela.

Quando a viu a comer um pacote de batatas fritas com o entusiasmo de uma menina, sentiu uma onda de remorsos. Devia t-la convidado para o passeio ou, pelo menos,
ter-se assegurado de que tinha um plano definido para passar o seu dia de folga. Saiu do carro e foi ao seu encontro.

Ao v-lo, Araminta desejou que o cho a engolisse.




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- Boa tarde, doutor - conseguiu articular. - As batatas fritas daqui so deliciosas, no acha?

- O que  que est a fazer aqui, menina Pomfrey? Porque  que no foi jantar a casa...? - calou-se ao lembrar-se de que no pensara nela quando voltara para casa
com os sobrinhos; nem sequer perguntara a Bas se j regressara.

- Bom - explicou-lhe Araminta, perfeitamente consciente da sua consternao, - a verdade  que Bas achava que eu ia voltar tarde. Deu-me a chave e tudo. Pareceu-me
- prosseguiu, escolhendo as palavras com cuidado, - que o senhor esperava o mesmo... afinal de contas, disse-me que Jet se encarregaria de deitar os meninos... No
sei se me fiz entender - ao ver que ele no dizia nada, continuou a falar atabalhoadamente: Tive um dia muito divertido. At fui ao cinema esta tarde! Agora ia voltar
para casa, portanto... boa noite, doutor.

- No, menina Pomfrey, nada disso. Vai jantar comigo. Tenho a impresso de que no comeu praticamente nada durante todo o dia. Lamento no me ter lembrado de lhe
dar algum dinheiro nem de lhe perguntar se tinha planos para o seu dia de folga. Pode perdoar-me?

- Claro! - Araminta no poderia estar mais surpreendida. - Nem sequer h nada para perdoar! No sou sua convidada e estou mais do que habituada a cuidar de mim mesma.
Por favor, no se sinta obrigado a levar-me a jantar; acabei de comer um pacote de batatas fritas.

- No importa - conduziu-a ao carro, de onde fez uma chamada pelo telemvel. Falou em holands, de modo que ela no percebeu que estava a desculpar-se por no ir
ao jantar.

- Importa-se de me levar a casa, doutor? - pediu-lhe,


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num fio de voz. -  muito amvel, mas no tenho fome, a srio - em resposta, ele ps o carro em movimento com um suspiro e conduziu pelas ruas movimentadas. No
estou vestida adequadamente... - insistiu.

O doutor no lhe respondeu. Passado um momento, estacionou diante de um pequeno restaurante e ela no teve outro remdio seno sair do carro e segui-lo.

Sentiu um grande alvio ao ver que a maior parte das mulheres usava roupas elegantes, mas simples, pelo que a sua no chamava a ateno.

Pelo modo como foram atendidos, deduziu que o doutor era cliente habitual daquele lugar. Pouco depois, foram conduzidos a uma mesa e um empregado afastou uma cadeira
para que ela se sentasse.

- O que  que quer beber? - perguntou-lhe Marcus.
- Um xerez seco?

Araminta assentiu, satisfeita. Passados alguns minutos, outro empregado entregou-lhes a ementa. Pelo que Araminta pde ver, era tudo muito caro, mas, afinal de contas,
fora o doutor que insistira em lev-la ali, de modo que a culpa seria dele se ela pedisse lagosta, caviar ou trufas, pois todos faziam parte da ementa. No entanto,
no tinha vontade de provar nenhuma daquelas iguarias e, por outro lado, sentia-se culpada por ter estragado os planos do patro, de modo que decidiu pedir o prato
mais barato.

- A menos que queira alguma coisa especial, importa-se que lhe faa uma sugesto? - indagou o doutor.

- Faa o favor. H tantas coisas, que nem sei por onde comear!

- Est bem. O que  que acha de salada de beringelas para comear e, depois, robalo?

Ela concordou, deliciada. Felizmente, no era tmida e os pais tinham-lhe ensinado a no se acobardar. Embora nunca tivesse estado num restaurante como aquele,


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estava decidida a no se deixar intimidar. Saboreou com prazer os pratos que lhe serviram e, aos poucos, comeou a apreciar a conversa. No princpio, o doutor achou
graa  sua atitude, mas, a pouco e pouco, comeou a interessar-se verdadeiramente pela estranha menina Pomfrey. Talvez no fosse uma mulher que chamava a ateno,
mas era muito confiante e olhava-o de uma forma inquietante. Apesar de no se poder dizer que era um convencido, Marcus tinha conscincia da sua capacidade de atraco
e no estava habituado a ser observado daquela maneira.

Por um segundo, lamentou ter desistido dos seus planos, mas, quase de imediato, pensou que estava a ser injusto. Convenceu-a a pedir uma fatia de tarte e, ao ver
a satisfao com que a comia, apercebeu-se de que, apesar de tudo, comeara a gostar daquela mulher.

Falaram de assuntos banais como o tempo, os seus sobrinhos, os seus passeios por Utreque e outras coisas do gnero. Quando voltaram para casa, ele virou-se para
ela, muito srio.

- Menina Pomfrey, volto a repetir que lamento muito que tenha desperdiado o seu dia livre. Farei com que isso no volte a acontecer, prometo-lhe.

- Obrigada, doutor, mas, como j lhe disse, sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma.

- Mesmo assim - retorquiu ele com um sorriso, permita-me que o faa, por favor. Boa noite.

- Boa noite - despediu-se Araminta. Porm, antes de subir as escadas, virou-se para ele impetuosamente. Comprei as batatas fritas porque tinha fome. Aposto como
o senhor faria o mesmo.

O doutor ficou a observ-la a subir as escadas e, depois, foi para o seu escritrio onde, finalmente, pde rir-se  vontade.


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No domingo, Araminta levantou-se muito cedo e lembrou-se de que o doutor lhe dissera que ia passar a maior parte do dia fora e esperava que ela e os meninos tivessem
um bom dia. Mas o que  que ela podia fazer para os entreter? Tentou pensar em alguma coisa at Jet lhe levar uma chvena de ch, uma concesso aos costumes ingleses.

Quando ouviram a empregada, os dois meninos irromperam pelo quarto de Araminta e sentaram-se na cama para comerem as bolachas que Jet trouxera juntamente com o ch.

- Temos de nos vestir disseram-lhe. - Vamos  missa das nove e meia com o tio Marcus.

-Ah, sim? Ento, toca a levantar!

Calculou que passariam pelo menos uma hora na igreja e, depois, podiam ir a um parque dar de comer aos patos at  hora do almoo. At l, esperava lembrar-se de
alguma coisa para fazerem  tarde. Era uma pena que no estivesse a chover, porque assim poderiam passar a tarde em casa.

Teve a impresso de que Jet estava a dizer que o pequeno-almoo ia ser servido s oito e meia, por isso vestiu-se e foi ver se os gmeos precisavam da sua


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ajuda. Penteou-os e ps-lhes as gravatas, certificando-se de que se tinham lavado bem. Estavam a acabar de tomar o pequeno-almoo quando o doutor chegou do seu passeio
com Humphrey. Sentou-se e serviu-se apenas de uma chvena de caf," pois comera antes de sair de casa.!

- Temos de estar na igreja s nove e meia - avisou-a, convidando-a a acompanh-los. - Fica perto daqui e talvez lhe parea interessante.

- Obrigada, irei - aceitou Araminta, intuindo que era o que ele esperava dela. -A que horas sairemos daqui

- s nove e dez. A missa dura uma hora, mais ou menos.

Saram cada um com um pequeno pela mo. A igreja era pequena e austera. Sentaram-se num banco duro. deixando que Peter e Paul se acomodassem entre eles.

Como era de esperar, Araminta no compreendeu nada do sermo, embora algumas melodias dos hinos lhe parecessem familiares. Pelo tom do padre, parecia que estava
a amea-los com o fogo do inferno. Araminta quase se sentiu aliviada quando a missa terminou e a congregao se levantou para entoar o hino final. Apesar do doutor
lhe ter entregue um missal, ela foi incapaz de acompanhar a letra. Em contrapartida, os gmeos cantaram com entusiasmo, assim como o doutor.

Quando voltaram para casa, ele pediu a Bas para servir o caf na sala de estar.

- Tenho de sair - disse a Araminta. - Suponho que v dar um passeio com os meus sobrinhos antes do almoo.  tarde, Bas vai levar-vos  loja de brinquedos Steijner.
H l uma exposio de brinquedos e eu comprei bilhetes para os trs. Perto dali h um caf onde podem lanchar. Bas ir buscar-vos por volta das cinco, mas, se quiserem
regressar mais cedo, pode telefonar-lhe.

Os meninos mostraram-se entusiasmados diante


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daquela perspectiva,  semelhana de Araminta, embora esta no se tenha permitido demonstr-lo. Daquele modo, os pequenos passariam o dia entretidos.

- Divirtam-se - despediu-se o doutor, ao beijar carinhosamente os sobrinhos. - Espero que tambm se divirta, menina.

Assim que ele saiu, Araminta lembrou-se, com certa apreenso, de que no tinha dinheiro suficiente para pagar o lanche. Porm, os seus temores dissiparam-se quando
os pequenos lhe mostraram a quantia que o tio lhes dera. Passado um momento, Bas informou-a de que o doutor deixara um envelope para ela no escritrio. Ao abri-lo,
Araminta viu que continha dinheiro suficiente para alugar um barco. Contou-o cuidadosamente, decidida a devolver cada centavo que sobrasse.

Naquela manh, em vez de irem ao parque, decidiram ir ao Oudegratch, onde se situava a casa do sculo XIV em que o Tratado de Utreque fora assinado.

- No estamos muito longe de casa? - indagou Araminta, de repente. -Acho melhor voltarmos.

- No, Mintie, s temos de voltar ao neude e atravessar a praa Vredeburg - explicaram-lhe os meninos.
-  muito perto.

Ela estivera ali no dia anterior, a admirar as montras do centro comercial. A casa do doutor ficava perto do Singel, o fosso que rodeava a cidade antiga, margeado
por uma alameda elegante e manses muito bonitas.

- Vocs so uns guias fantsticos - elogiou-os. Agora temos de ir almoar para chegarmos a tempo  exposio.

A Steijner ocupava um prdio antigo de vrios andares. A loja que havia na fachada principal dava passagem para outra sala, comprida e estreita, que ia at ao lado
oposto do edifcio. As paredes estavam cobertas Por estantes repletas de brinquedos.


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A loja estava to cheia de crianas que eles tiveram algumas dificuldades para subir ao segundo andar. Passaram pouco tempo ali, porque era a seco das bonecas,
louas e casas de brincar.

O terceiro andar agradou mais aos gmeos. Ficaram boquiabertos a contemplar os carros em miniatura, as bicicletas, os patins e as marionetas. Araminta comeou a
sentir dor de cabea e sugeriu aos pequenos que sassem dali para irem lanchar e esperar por Bas. No entanto, os meninos estavam muito entusiasmados com os brinquedos.

- As coisas para acampar esto no andar de cima Peter apertou-lhe a mo. - No podemos subir? S por um bocadinho?

- Est bem - anuiu Araminta, incapaz de resistir s splicas dos gmeos. - Mas no podemos ficar muito tempo.

O ltimo lance de escadas era particularmente ngreme e estreito. Aquele andar era o ltimo e no era muito alto, mas estava muito bem arrumado e exibia uma quantidade
impressionante de objectos de campismo. Como no havia tanta gente como nos andares inferiores, Araminta permitiu que os meninos explorassem tudo  vontade. Eles
disseram-lhe que iam pedir ao tio para lhes comprar uma tenda de campismo.

- Assim poderemos dormir no jardim, Mintie. Podes vir connosco, se quiseres.

No se cansavam de ver tendas para tentarem descobrir de qual gostavam mais. Ainda no tinham chegado a acordo quando Araminta olhou para o relgio.

- Est na hora do lanche, meninos. No podemos deixar Bas  espera.

Passaram-se mais cinco minutos antes de descerem as escadas em fila indiana. Peter, que ia  frente, parou no ltimo degrau.

- A porta est fechada..


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- Ento, abre-a - replicou Araminta.

No entanto, em vez de trinco, a porta tinha apenas uma velha fechadura sem chave. Araminta afastou Peter para o lado e deu um empurro  porta, que no se mexeu
nem um milmetro. Ento, pediu aos pequenos para baterem  porta com toda a fora, mas to-pouco obtiveram resposta. Por incrvel que parecesse, a loja j estava
fechada. No entanto, tinham-lhes dito que fechava s cinco e ainda faltava um quarto de hora. Por outro lado, o mais lgico era que algum tivesse avisado os clientes
de que iam fechar.

- Que aventura! - exclamou. - V l, vamos gritar bem alto!

Contudo, foi intil.

-  melhor voltarmos a subir - sentenciou. - Mais cedo ou mais tarde, viro  nossa procura. Ainda  cedo para fecharem - procurou mostrar-se calma para no assustar
os meninos.

De regresso ao ltimo andar, examinou atentamente a clarabia do tecto inclinado. Era de vidro duplo e, evidentemente, no podia abrir-se. Araminta pegou numa estaca
das tendas de campismo e tentou bater no vidro para o partir, incitada pelos gritos dos gmeos que, obviamente, estavam a divertir-se imenso com aquilo.

Foi um bocado difcil conseguir o seu propsito. Porm, alguns vidros caram na rua. Infelizmente, ningum se apercebeu disso nem ouviu os seus gritos.

Entretanto, Bas foi busc-los com o outro carro do doutor, um Jaguar. Primeiro entrou no caf para ver se estavam a lanchar. Como no os viu, dirigiu-se para a loja
de brinquedos, que j estava a fechar.

- J saiu toda a gente - assegurou-lhe o dono da loja, que no fazia ideia de que um dos seus ajudantes no se
dera ao trabalho de ir ao ltimo andar antes de ir para casa. Bas deduziu que a menina Pomfrey devia ter levado j
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os pequenos para casa, para evitar que ele tivesse de ir busc-los. Quando chegou ali, viu o Bentley do doutor estacionado  entrada.

- J chegou, mijnheer - indagou, assim que entrou.
- A exposio foi encerrada antes do previsto. Pensei que a menina Pomfrey j tivesse voltado...

- O qu? - o doutor levantou-se da cadeira de um salto. - No estavam  tua espera no caf?

- Ningum os viu. Falei com o dono da loja. Pelos vistos, houve uma avaria e tiveram de fechar. Ele disse-me que tinha a certeza de que no havia ningum na loja.

- No podem estar muito longe. Anda - chamou-o, j a dirigir-se para a porta, - vamos  procura deles.

Passados alguns minutos, estacionaram em frente  loja. O dono e os ajudantes j se tinham ido embora, mas encontraram um homem a descarregar uma camioneta.

- Tem a chave da loja? - interrogou-o o doutor. Acho que h dois meninos e uma mulher l dentro. No tenho a certeza, mas gostava de me certificar.

De repente, viu vidros partidos no passeio. Levantou a vista e viu algum a agitar uns collants na janela do ltimo andar.

-  melhor subir, mijnheer - indicou-lhe o homem, ao seguir a direco do seu olhar. - Tome a chave.

Por alguma razo que no conseguia compreender, Marcus experimentava sensaes contraditrias. Por um lado, um alvio compreensvel, por outro, uma fria insana.
"Que mulher tola", pensou, "porque  que no desceu juntamente com os outros? Com certeza, os pequenos tinham-se apercebido do que se passava.

Subiu os degraus de dois em dois, abriu a porta do ltimo andar e entrou como um furaco. Os gmeos atiraram-se para os seus braos, entre exclamaes de alegria.

- Espero que possa dar-me uma explicao para o


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que aconteceu - a sua voz soou to fria que Araminta sentiu o sangue gelar nas veias.

Aquela calma deixou-a petrificada. Entenderia se ele tivesse desatado a gritar ou a insult-la, mas aquela fria serenidade deixou-a sem palavras.

- Bas est l em baixo, no carro. Se ainda no lancharam, podemos faz-lo juntos - props Marcus aos sobrinhos.

- Queres que te conte o que aconteceu, tio? - ofereceu-se Peter.

- Quando chegarmos a casa - atravessou a sala com dois passos largos e desatou os collants de Araminta. Embora estivessem rotos em vrios stios, entregou-lhos.
Ela agradeceu-lhe educadamente, sem o encarar. Sentia-se estpida e, para piorar as coisas, aquele homem acabara de responsabiliz-la por uma coisa da qual no tivera
culpa. Nem sequer lhe perguntara o que acontecera; limitara-se a tirar as suas prprias concluses.

Araminta parou diante da porta para lhe mostrar que no tinha trinco, mas ele continuou a andar sem lhe prestar ateno.

Quando chegaram a casa, ela levou os pequenos  casa de banho para lavarem as mos e foi para o quarto, alegando que estava com dor de cabea. Pela expresso do
doutor ao ouvir as suas desculpas, deduziu que a considerava uma cabea de vento, incapaz de tomar conta das crianas que tinha sob a sua responsabilidade.

- A menina Pomfrey no vem tomar o ch? - indagou Bas, preocupado, ao entrar com a bandeja. Ao voltarem para casa, notara que a tenso entre os dois adultos era
de cortar  faca.

- Di-lhe a cabea - respondeu-lhe Marcus com secura. - Leva-lho ao quarto.

- Mintie nunca tem dores de cabea - declarou Peter. - Ela disse-nos que nunca fica doente.


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- Nesse caso, tenho a certeza de que se recupera rapidamente - retorquiu o tio. - Ena! Vejo que Jet fez boterkook e kretenbollejes. - Posso guardar um para Mintie?
- Se quiseres... Bom, digam-me: gostaram da exposio? Viram alguma coisa que vos agradasse? -As tendas de campismo! Estavam no ltimo andar. Havia l muitas coisas
para acampar. Queremos uma, tio! Mintie prometeu-nos que dormiria connosco no jardim. Fez-nos rir muito, sobretudo quando tentmos abrir a porta...

-Ah, sim? - Foi uma verdadeira aventura - afirmou Paul, maravilhado. - Mintie disse-nos que as pessoas dos andares debaixo se tinham ido embora sem darem pela nossa
presena. Como no conseguimos abrir a porta, que no tinha trinco, tivemos que fazer barulho e gritar. Foi espectacular, tio! Depois, Mintie partiu o vidro da janela
e meteu os collants dela pelo buraco. Disse-nos que era assim que os meninos dos livros de Enid Blyton costumavam fazer e que ns estvamos a ter uma aventura como
as deles. Foi fantstico, no foi, Peter? Parece emocionante. - Se calhar, foi por isso que Mintie ficou com dor de cabea - arriscou Peter. - Acho que tens razo.
J acabaram? Porque  que no vo para o jardim brincar com Humphrey? Eu tenho de fazer uma coisa... Os meninos saram a correr  procura do co.! Quando Bas foi
buscar a loua suja, Marcus disse-lhe que fosse ao quarto da menina Pomfrey e que lhe pedisse para, quando se sentisse melhor, ir ter com ele ao escritrio. Bas
voltou para a cozinha e contou o que se tinha passado  esposa, que no acreditou nem por um


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segundo que o doutor tivesse a inteno de despedir a simptica ama dos sobrinhos.

- Nada disso! - exclamou. - Com certeza, apercebeu-se de que cometeu um erro e quer perguntar-lhe o que aconteceu esta tarde.

- No sei... A verdade  que os meninos parecem encantados com a aventura...

Araminta tomou o ch, chorou um pouco e, depois de lavar a cara e maquilhar-se levemente, sentou-se para pensar no que acontecera. No tinha a inteno de dar nenhuma
explicao quele arrogante. Nem sequer suportava a ideia de tornar a v-lo. Ele no lhe dera nenhuma oportunidade de relatar o que se passara, partindo do princpio
de que era uma irresponsvel.

Quando Bas lhe transmitiu o recado dele, decidiu descer imediatamente, mas no sem antes se olhar ao espelho. Tinha as plpebras um bocadinho inchadas, mas podia
culpar a dor de cabea por isso. Decidiu maquilhar-se um pouco mais para disfarar os vestgios do choro enquanto preparava cuidadosamente o seu discurso. Um pouco
mais animada, desceu para o escritrio.

- Por favor, menina Pomfrey - comeou a desculPar-se o doutor assim que ela entrou no escritrio, Peo-lhe que me perdoe. No tinha o direito de falar consigo daquela
maneira, sem sequer ouvir as suas exPlicaes...

- No faz mal, doutor - interrompeu-o ela. -  compreensvel que estivesse preocupado.

- Por acaso a menina no estava? Ela surpreendeu-se momentaneamente, mas reagiu de imediato:

- Eu? Claro que sim! Estava morta de medo, com reCeio de que os meninos se apercebessem de que estvamos


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fechados e que aquilo no era nenhuma brincadeira. No entanto, sabia que o senhor iria  nossa procura, mais cedo ou mais tarde. "

- E como  que podia saber?

- No... no sei - gaguejou, confusa.

- Por favor, aceite o meu pedido de desculpas. Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

- Claro! No continue, por favor.

 feliz connosco? - interrogou-a ele, preocupado. No se aborrece?

No acredito que algum possa aborrecer-se com Paul e Peter - replicou Araminta, com um sorriso.

- No esteve a chorar, pois no?

- Eu? Claro que no! - assegurou-lhe, orgulhosa. Porqu?

- Por vrias razes. Pode ser uma ptima ama, menina Pomfrey, mas  uma pssima mentirosa.

Araminta corou at  raiz dos cabelos.

Est a ser muito desagradvel - censurou-o, esquecendo-se momentaneamente de que era o seu patro. Eu nunca digo mentiras, pelo menos das que podem ferir os outros.
Por outro lado, o meu pai costuma dizer que uma mulher chorona  como um espinho para qualquer homem.

- Palavras sbias - comentou Marcus, a tentar manter a compostura. - De qualquer forma, peo-lhe perdo se fiz ou disse alguma coisa que a tenha magoado.

Araminta no soube o que responder.

- Demonstrou um bom senso invejvel, esta tarde prosseguiu ele. - O doutor Jenkell j me tinha dito que era a mulher mais sensata que conhecera na vida e eu estou
completamente de acordo com ele.

Diante daquele elogio, Araminta ps-se a pensar no que teria acontecido se fosse uma rapariga frgil e impressionvel. Talvez tivesse desatado a gritar como uma
louca


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at que algum aparecesse. Com certeza, ter-lhe-iam oferecido um ombro no qual pudesse chorar, seguido de um copo de brandy e de algumas palmadinhas no ombro, antes
de a mandarem para a cama at se recuperar do trauma. "Sem dvida, ser uma rapariga prudente tem as suas desvantagens", concluiu, divertida.

Longe de imaginar o que a ama estava a pensar, o doutor concluiu que era uma sorte ela ser uma jovem to sensata. Para a recompensar, encarregar-se-ia pessoalmente
de fazer com que aproveitasse bem o prximo dia de folga.

- Presumo que queira subir para ir ver os pequenos. Eu disse-lhes que podem jantar connosco, com a condio de tomarem banho e vestirem o pijama primeiro.

Aquilo no admitia discusses, de modo que Araminta passou a hora seguinte a preparar os pequenos. Quando acabou, eles pareciam dois querubins. Infelizmente, ela
no teve tempo de se arranjar. Enquanto retocava o nariz  pressa, pensou com resignao que o doutor no repararia nela nem que pusesse uma peruca e pestanas postias.

- Quero l saber! - exclamou em voz alta, a observar a imagem reflectida no espelho.

Os dias seguintes foram parecidos com os da primeira semana. Marcus brincava com os sobrinhos todas as tardes, dando a Araminta a oportunidade de fazer o que quisesse.

Ela gostaria de passar alguns daqueles momentos a ver televiso na sala de estar, mas ningum a convidara a faz-lo e no se atrevia a pedi-lo, de modo que ficava
fechada no quarto, a arranjar as unhas ou a pregar botes. Embora adorasse aquele quarto, s vezes sentia-se muito sozinha.


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Certa manh, quase no fim da semana, Paul levantou-se mal disposto e sem vontade de comer. Araminta pensou que devia estar constipado, porm, quando ele voltou da
escola, estava a arder de febre. Por azar, o doutor tivera que ir a Haia e s voltaria  noite.

Araminta deitou-o rapidamente e Peter, que no queria separar-se do irmo, vestiu o pijama e deitou-se tambm. Quando lhes levou o jantar, Paul disse que no queria
nada. Doa-lhe a cabea e a garganta e, depois de lhe pr o termmetro, Araminta verificou que a febre subira de forma alarmante. Ento, sentou-se ao lado dele e
insistiu para que bebesse pelo menos um pouco de sumo. A seguir, para o entreter, comeou a contar-lhe uma histria. Passados alguns minutos, os gmeos adormeceram,
apoiados nela.

Mais tarde, Bas subiu ao quarto para a avisar de que o jantar estava pronto.

- Desculpe, Bas, mas no vou descer - respondeu-lhe.
- Paul no est bem e pode acordar... Importa-se de dizer a Jet que lamento muito? No tenho muita fome, a srio. Talvez coma um prato de sopa mais tarde.

Voltou a ficar sozinha, a lamentar que o doutor tivesse viajado para to longe precisamente naquele dia. Procurou no entrar em pnico. Afinal, tinha muita experincia
em tratar de crianas doentes e sabia que se recuperavam rapidamente.

Uma hora mais tarde, Bas voltou para ver como estavam os pequenos.

- Devem estar quase a acordar - sussurrou Araminta. No entanto, ambos dormiam profundamente, Peter com o sono profundo de uma criana saudvel e Paul, a respirar
agitadamente. Araminta mudou de posio para ficar mais confortvel, a perguntar-se se o doutor demoraria muito a chegar. Esperava que no estivesse com ningum
que pudesse ret-lo...


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Por volta das dez da noite, ouviu-o chegar.

- O que  que se passa? - inquiriu ele, assim que entrou e viu o ar preocupado de Bas.

-  o menino Paul. Est doente, mijnheer. Adormeceu no regao da menina Pomfrey. Est h horas sem se mexer. Peter est com eles. A menina pediu-me para lhe telefonar
para o hospital, mas no consegui localiz-lo...

- Tive de ir atender um caso urgente. Subo j, Bas. Araminta suspirou de alvio ao v-lo parado  porta do quarto.

- J teve papeira? - perguntou-lhe ele.

- H sculos!

O doutor examinou o rosto do sobrinho e, delicadamente, tirou-o do regao de Araminta.

- H quanto tempo est a sentada?

- Desde as seis horas. Paul tem muita febre e queixou-se de dores de cabea e garganta. Peter est bem.

Depois de acomodar os meninos nas respectivas camas, Marcus virou-se para Araminta. Ela mal conseguia mexer-se por causa das cibras e ele ajudou-a a levantar-se.

- Desa e diga a Bas que pea a Jet para nos preparar alguma coisa de comer. Enquanto jantamos, ele ficar com os pequenos. Vamos, menina Pomfrey! - insistiu, ao
ver que ela hesitava. - Quero jantar.

Ela lanou-lhe um olhar eloquente. Ela tambm queria comer, mas, com a aflio, nem sequer pudera pensar em faz-lo.

- Eu tambm, doutor - replicou, cortante. - Paul est bem?  s papeira?

- , menina Pomfrey - assegurou-lhe com frieza.

Depois de descer e dar o recado a Bas, Araminta sentou-se na sala de estar a pensar no que podia acontecer a seguir. Com Paul doente, era provvel que Peter tambm
adoecesse.


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- Pelo menos, passar doze dias na cama - disse em voz alta. - E ainda teremos de esperar para ver se Peter est contagiado...

- Outra vez a falar sozinha, menina Pomfrey? inquiriu o doutor, que entrara na sala sem fazer barulho. - No se preocupe - estendeu-lhe um copo de licor. - Paul
ter de passar alguns dias na cama e, claro, Peter tambm no poder ir  escola. Pode tomar conta dos dois? Jet ou Bas podem tomar conta de Paul  tarde para que
a menina possa levar Peter a passear.

Compadeceu-se um pouco ao ver a sua expresso desanimada.

- Se achar melhor - completou, - posso contratar outra pessoa para a ajudar.

- Acho que no  necessrio, mas era bom que Peter tambm adoecesse. Seria mais fcil cuidar deles.

-Acho que  o mais provvel.

Bas serviu-lhes um jantar delicioso: sopa de cogumelos, sufl de queijo, salada e tarte de limo. Araminta, animada pelos dois copos de licor que tomara, comeu com
apetite e falou pelos cotovelos, sob o olhar divertido do mdico.

- Agora v para a cama, menina Pomfrey. Amanh, Jet ir acord-la  hora do costume.

- Nada disso! - protestou. - Vou tomar banho e vestir o pijama, mas depois vou voltar para o p dos meninos. S irei para a cama quando tiver a certeza de que eles
esto bem.

- Vai fazer o que eu disser. Tenho que ler algumas coisas e posso faz-lo enquanto tomo conta deles.

- No tem de ir ao hospital amanh?

- Tenho.

- Nesse caso, no pode passar a noite acordado, caso contrrio amanh estar de rastos.


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- Garanto-lhe que sei perfeitamente o que posso e no posso fazer. Por favor, obedea-me. Boa noite.

Araminta teve que fazer um grande esforo para conter as lgrimas. Depois de tomar um banho quente, sentiu-se mais animada. Vestiu o pijama e foi ao quarto dos gmeos
ver se estavam bem.

Aparentemente, estavam a dormir a sono solto. Prometeu-se que, se os ouvisse acordar, nada nem ningum, nem sequer o doutor Van der Breugh, a impediria de cuidar
deles.

A meio da noite, ouviu um gemido infantil. Levantou-se rapidamente para ir ver o que se passava. Paul acordara e o tio estava sentado ao lado dele, a dar-lhe de
beber. O soalho e a mesa estavam cobertos de papis. Consciente de que a sua presena no era necessria, Araminta voltou para o seu quarto. Eram quase duas da manh.

Quando se levantou no dia seguinte, os gmeos continuavam a dormir e o mdico j no estava no quarto. Depois de se vestir, serviu-se de uma chvena de ch na cozinha
e preparou uma limonada. Paul tinha a cara completamente inchada, mas Peter parecia bem. Araminta no fazia ideia de como se desenvencilharia nos dias seguintes.
Tudo dependia de Peter apanhar ou no papeira.

Ps-se a arrumar o quarto e, de repente, o doutor entrou. Apesar de ter um aspecto impecvel, parecia cansado.

- Espero que esta noite tenha o bom senso de dormir como deve ser - disse-lhe, muito sria. - O que  que vai ser de ns se o senhor tambm adoecer?

- Por favor, menina Pomfrey! No seja to dramtica! Se precisar de mim, diga a Bas. Ele sabe onde Pode localizar-me - e, sem dizer mais nada nem olhar Para ela,
saiu do quarto.


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Aquele dia foi to complicado como Araminta previra. Paul acordou dorido e mal-humorado. Foi um tormento conseguir fazer com que se lavasse e vestisse um pijama
limpo, e pior ainda tirar-lhe a febre e obrig-lo a beber um sumo. Felizmente, Bas arranjara umas palhinhas coloridas que lhe permitiram tomar o sumo mais facilmente.
O pobrezinho tinha a cara completamente inchada.

Araminta passou o dia a ler histrias ao doente e a brincar com Peter.  tarde, levou-o a dar um passeio e aproveitou para comprar mais puzzles, canetas de feltro
e cadernos de desenho. Tomaram o ch na sala de estar e, depois, subiram para entreterem Paul. Felizmente, j quase no lhe doa a cabea, embora continuasse com
muitas dificuldades para engolir.

- Amanh de manh j estars melhor - assegurou-lhe Araminta. - E, quando o teu tio chegar, vai dar-te um remdio para fazer passar a dor de garganta.

O doutor chegou a casa s seis horas em ponto e a primeira coisa que fez foi ir ver os sobrinhos, que o receberam com exclamaes de entusiasmo. Ele pareceu um pouco
aborrecido ao ver Humphrey ao p deles.
- Trouxe Humphrey para fazer companhia a Paul

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explicou-lhe Araminta, sem lhe dar tempo para protestar. - Se quiser repreender algum, repreenda-me a mim.

- No me lembro de ter dito nada acerca disso - replicou ele, a franzir a testa com um sorriso. - No vejo razo para repreender ningum.

Sentou-se na cama e examinou cuidadosamente o sobrinho.

- Ests muito melhor - observou alegremente. Vais sentir-te um bocadinho mal disposto e ters que ficar na cama durante alguns dias, mas tenho a certeza de que a
menina Pomfrey te divertir.

- Tio - interveio Peter, - a menina Pomfrey... isto , Mintie, tambm te diverte?

- Claro! - confirmou o doutor, sorridente.

Tinha uma expresso to calorosa e irresistvel que Araminta no pde deixar de sorrir tambm, enquanto os dois pequenos celebravam com gargalhadas.

- Vais comer iogurte e gelado ao jantar - informou-o o doutor, aps recuperar a compostura. - Menina Pomfrey, venha comigo ao escritrio. Quero dar-lhe alguns remdios
para aliviar a dor de garganta de Paul. Peter, toma conta do teu irmo at ns voltarmos.

Quando chegaram ao escritrio, dirigiu-se a ela com mais seriedade:

- Hoje teve um dia muito difcil, menina Pomfrey, e receio que os prximos no sejam melhores. Apesar de Paul estar a recuperar bem, ter de permanecer na cama Pelo
menos mais dois dias. Depois poder levantar-se, desde que no saia do quarto e esteja bem agasalhado. peter parece bem...

- Sim, e gosta muito de estar com o irmo.

- Esta noite ficarei em casa e cuidarei deles enquanto a menina janta.  melhor deitar-se cedo, no est com boa cara...


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Estou assim to mal? - perguntou-lhe, sem se conter.

- Digamos que podia estar melhor - retorquiu o doutor, com voz fria. - Tome - entregou-lhe um comprimido. - Misture-o com o gelado de Paul e faa-o engolir tudo.
Pelo que sei, tem muita experincia em lidar com crianas doentes...

-  verdade, doutor - confirmou, circunspecta. Que homem odioso! Por acaso esperava que ela estivesse fresca como uma alface depois de ter passado o dia inteiro
a cuidar dos gmeos?

- No se preocupe, menina Pomfrey - acrescentou o desalmado, quando ela j se preparava para sair. - Assim que Paul se recuperar, ter tempo de sobra para fazer
um tratamento de beleza e ir s compras.

- Est a fazer troa de mim? - indignada, deu meia volta. -  o cmulo! Acho que  o homem mais irritante que conheci na minha vida - calou-se bruscamente, chocada
com as suas prprias palavras. - Desculpe pediu-lhe, - no pretendia dizer isto...

Ele ficou a olhar para ela sem dizer nada, o que a enfureceu ainda mais.

- Lamento se feri os seus sentimentos... embora o senhor no tenha demonstrado nenhuma considerao pelos meus - acusou-o, em tom de desafio. - De qualquer modo,
estamos num pas livre e posso pensar o que me apetecer.

- Com certeza, no se coba... - replicou ele, abrindo-lhe a porta.

Araminta subiu a toda a velocidade para o quarto dos gmeos. Tinha quase a certeza de que Marcus ia despedi-la... na verdade, depois do que ela lhe dissera estava
no seu direito. "No entanto", pensou, a sorrir maliciosamente, "vai-lhe custar muito a encontrar algum disposto a tomar conta de duas crianas, uma das quais com
papeira...".
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Voltou a mudar o pijama a Paul e Peter perguntou-lhe se podia jantar na cama, juntamente com o irmo.

- No vejo por que no - respondeu-lhe Araminta. Veste o pijama e o roupo enquanto eu vou ver o que  que Bas acha.

- "O que  que Bas acha", de qu? - inquiriu o doutor, que acabara de entrar, to silencioso como sempre.

- Quero pedir-lhe para trazer tambm o jantar de Peter.

- Est bem, menina Pomfrey, pea-lhe. Depois, pode ir jantar. Ainda  cedo, mas imagino que queira ir descansar.

Sem dizer nada, Araminta desceu para ir falar com Bas.

- Tens que a tratar por Mintie, tio. Porque  que a chamas sempre "menina Pomfrey"?

- Tenho pssima memria, pequeno. O que  que acham de jogarmos s cartas depois do jantar?

Apesar de estar muito preocupada com o que acontecera, Araminta no pde deixar de apreciar o jantar. Jet preparara cogumelos com molho de alho, frango com aipo
e mousse de chocolate. "Seria uma pena desprezar estas delcias", pensou. No futuro, procuraria controlar a lngua.

Subiu para ficar com os gmeos enquanto o doutor jantava. Eles fizeram-no prometer que iria jogar outra Partida com eles antes de ir para a cama.

- J deviam estar a dormir h muito tempo - comentou Araminta.

- Bom, por esta vez podemos ignorar as regras, no ? - replicou o doutor, antes de sair do quarto.

Voltou meia hora depois para cumprir o prometido e, aPs passar mais meia hora a jogar, decidiu que j estava na hora dos sobrinhos se deitarem.


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- Voltarei daqui a cinco minutos e quero encontrar-vos a dormir. Obrigada, menina Pomfrey, e boa noite.

Ela deitou-se quase imediatamente, mas, por volta da meia-noite, acordou com um choro infantil. Peter acordara com uma forte dor de cabea e garganta.

Quando desceu para tomar o pequeno-almoo no dia seguinte, tinha um aspecto horroroso. O doutor limitou-se a olh-la por cima dos culos sem fazer nenhum comentrio.

- Peter tambm est com papeira - anunciou ela, enquanto se servia de um caf forte.

- Era de esperar. Vou subir para ver como  que ele est. Passou mal a noite? - Sim - confirmou Araminta com secura, sem acrescentar que ela tambm no passara muito
bem. - Pelo que vejo, a menina tambm - observou o doutor. Ela estava muito plida e abatida. Vai sentir-se melhor depois de comer - afirmou, passando-lhe as torradas.
-Araminta teve que morder a lngua para no ripostar,! mas estava to perturbada que no pde deixar de se engasgar com o primeiro pedao de torrada. Ps-se a tossir
ruidosamente at que, com um grande esforo, conseguiu recuperar a compostura.

- Parece um pouco tensa, menina Pomfrey - comentou o doutor. - Talvez seja melhor contratar algum] para a ajudar a tratar dos meus sobrinhos.

- No  preciso - declarou Araminta. - Com os dois na cama, no terei muito o que fazer - continuou airosamente, embora soubesse que no seria assim. Provvelmente,
ficaria estafada, com a garganta dorida aps passar o dia a ler histrias, dor de cabea por fazer tantos


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puzzles e  beira de um esgotamento nervoso depois de tentar fazer, por todos os meios, com que os gmeos comessem e bebessem alguma coisa.

- Como queira - assentiu o doutor. - Vou ver Peter. Paul dormiu bem?

- No acordou nenhuma vez durante a noite. Antes de ela terminar de tomar o pequeno-almoo, o doutor desceu do quarto dos sobrinhos para lhe explicar quais os remdios
que devia dar-lhes.

- Tenho a impresso de que Peter vai fazer muitas birras. Tem que lhe dar estes comprimidos para a dor de garganta. Paul est muito melhor. Bas sabe onde pode localizar-me
se precisar de mim. Voltarei s seis horas.

O dia pareceu-lhe interminvel, embora, sem o doutor a rondar pela casa, pudesse cuidar dos pequenos com a sua habitual eficincia. Eles estavam muito cansados e
rabugentos, mas melhoraram bastante depois do lanche.

Bas e Jet ofereceram-se para ficarem com eles para que Araminta pudesse sair e espairecer um pouco, mas ela recusou, alegando que poderia descansar quando o doutor
chegasse a casa.

Ele chegou quando ela estava a ler um captulo de O Leo, a bruxa e o armrio e sentou-se na cama para examinar Paul com calma.

- Este est muito melhor. E Peter, como est?

Ela pensou que, pelo menos, podia t-la cumprimentado.

- Acho que tambm est melhor. Ambos se comportaram muito bem. Tomaram os medicamentos como dois homenzinhos valentes. Jet est a fazer-lhes gelatina para o jantar.

- ptimo! Se quiser, menina Pomfrey, pode ir dar uma volta pelo jardim antes do jantar.

- Mas... eu estou ptima e...


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- Sim, eu sei - interrompeu-a o doutor, - mas peo-lhe que faa o que lhe digo - virou-se para os sobrinhos e disse-lhes qualquer coisa em holands que os fez soltar
gargalhadas, apesar da papeira.

Cansada, Araminta passou primeiro pelo quarto para ir buscar um casaco, sem foras para se arranjar um pouco. Nem sequer podia contar com a companhia de Humphrey,
dado que o co passara o dia inteiro deitado no quarto dos gmeos.

Quando comeou a sentir frio, Bas foi avis-la de que o jantar j estava pronto.

Embora a comida estivesse deliciosa, Araminta procurou comer depressa para ir render o doutor, pois o mais certo era que ele tivesse planos para sair.

No entanto, perante a resistncia de Bas, sentou-se durante um momento na sala de estar a tomar o caf. Estava a servir-se da segunda chvena quando ouviu a campainha
da porta. Passado um momento, a porta da sala de estar abriu-se para dar passagem a Christina Lutyns.

- Boa tarde, mevrouw - cumprimentou-a educadamente, pousando a chvena na bandeja. No entanto, a mulher ignorou o seu cumprimento.

- O que  que est a fazer aqui sentada? - inquiriu. Onde  que est o doutor Van der Breugh? Porque  que no est com as crianas?

O doutor, que entrara na sala to silenciosamente como sempre, antecipou-se a Araminta:

- Dag, Christina - murmurou, com um sorriso. - A menina Pomfrey est a desfrutar de um momento de merecido descanso. No est com os meus sobrinhos porque passou
o dia inteiro com eles. Esto com papeira.

A mulher gritou, assustada.

- No te aproximes de mim! - exclamou em holands. - Podes contagiar-me! Esta rapariga devia estar l em cima com os midos em vez de estar aqui sentada,


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Vou-me j embora - prosseguiu, cada vez mais histrica. - E pensar que vim ver quando  que podamos voltar a sair juntos! Quanto tempo  que eles vo ficar doentes?

- Muito, acho respondeu-lhe alegremente o doutor.
- Felizmente, eu e a menina Pomfrey tivemos papeira quando ramos pequenos, de modo que no h risco de contgio.

- Vou-me embora - repetiu Christina. - Telefona-me quando eles j estiverem bem.

E saiu sem sequer se despedir de Araminta. O doutor acompanhou-a  porta, mas sem se aproximar muito, para evitar que desatasse a gritar outra vez. Em seguida, voltou
para a sala de estar, onde Araminta o esperava, pronta para sair.

- Bom,  melhor subir para ver como esto as crianas.

- Sim, sim - assentiu ele, ausente. - Eu tambm j vou.

- No  necessrio... - comeou a protestar, mas o olhar que o doutor lhe lanou f-la mudar de ideia. Como queira - e foi para o andar de cima.

Ficou com os pequenos at  hora de apagar a luz. Ento, Marcus foi substitu-la.

- Estarei fora durante dois dias - comunicou-lhe. Tenho um compromisso inadivel. Pedi a um dos meus colegas para a atender, caso precise de alguma coisa. Os meus
sobrinhos j o conhecem.

Ao preparar-se para ir para a cama, Araminta concluiu que, com o doutor fora, a tenso diminuiria. Apesar de ser um homem muito amvel e de se preocuPar com a sua
comodidade, era irritante saber que no tinha a mnima considerao por ela como pessoa.


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Na manh seguinte, Paul estava muito melhor e Peter encontrava-se suficientemente bem para tomar o pequeno-almoo. Bas disse-lhe que o patro partira muito cedo
e que, s dez horas, o doutor Van Vleet passaria por ali para ver como estavam as crianas.

Tratava-se de um homem no muito bem apessoado, mas simptico.

- Sou o doutor Van Vleet - apresentou-se num ingls perfeito, ao apertar-lhe a mo. - Suponho que Marcus a tenha avisado...

- Sim, claro. Os meninos esto muito melhor. Pelo menos, j no tm a cara inchada.

O mdico sentou-se na cama para os examinar e ps-se a brincar com eles de modo a distra-los.

- Esto muito bem. Acho que amanh j podero levantar-se, desde que permaneam num lugar quente.

- H uma sala de jogos ao lado deste quarto. Podem passar o dia ali.

- No permita que se cansem - recomendou-lhe o doutor, com um sorriso. - Marcus disse-me que tem muita experincia em tratar de crianas, portanto creio que no
 necessrio que lhe diga nada...

Enquanto ele guardava as suas coisas na maleta, Bas entrou no quarto.

- Servi o caf na sala de estar. Ficarei com os meninos enquanto o tomam. Ordens do doutor Van der Braugh - acrescentou, ao v-la hesitar.

Araminta passou um bocado muito agradvel a conversar com aquele homem. Era delicioso estar com algum que no a tratava com indiferena. Alegrou-se ao pensar que
ele voltaria ali no dia seguinte.

Na manh seguinte, apesar dos gmeos j se encontrarem muito melhor e da sua presena j no ser necessria, o mdico foi ver como estavam. - Marcus voltar esta
noite - informou-a. - Pretendo
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telefonar-lhe amanh, mas pode dizer-lhe que os meninos j esto ptimos.

Depois de tomarem caf, ela acompanhou-o  porta.

- Tem algum dia livre? - indagou o jovem mdico. Gostaria de lhe mostrar Utreque...

- Adoraria! Tenho um dia de folga por semana, mas  o doutor Van der Breugh que determina qual .

- Aqui tem o meu nmero de telefone. Telefone-me quando quiser... talvez possamos marcar um encontro...

- Muito obrigada, telefonarei - sorriu-lhe, lisonjeada com a sua amabilidade.

Ainda se sentia contente quando o doutor voltou,  tarde. F-lo to discreta e silenciosamente como sempre. Depois de ir pr as suas coisas no escritrio, subiu
ao quarto dos sobrinhos, onde encontrou Araminta sentada no cho, diante da lareira, a jogar s cartas com os gmeos.

Eles levantaram-se de um salto para o receberem. Enquanto os abraava, Marcus olhou para a ama. Sem querer, pensara nela durante a sua viagem. Embora no soubesse
muito bem porqu, aquilo perturbara-o e regressara disposto a p-la no lugar com determinao, de modo a que no pudesse interferir no seu trabalho.

No entanto, habituado como estava a ver o seu rosto sereno e a sua aparncia calma, ficou mais do que surpreendido ao constatar que ela parecia radiante, quase feliz.
Intrigado, perguntou-se a que se deveria aquela mudana.

Quando Araminta terminou de lhe explicar como se encontravam os seus sobrinhos, Bas apareceu para os avisar de que o ch j estava servido na sala de estar. Ento,
o mdico decidiu descer e tom-lo na companhia dos meninos.

- Devolvo-lhos daqui a uma hora, menina Pomfrey -


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prometeu-lhe. Continuaremos a nossa conversa depois deles se deitarem.

Araminta aproveitou aquele tempo para arrumar um pouco o quarto e preparar as coisas dos pequenos. Em seguida, sentou-se diante da lareira acesa. A casa possua
um bom sistema de aquecimento, mas alguns quartos tambm tinham lareira. Araminta reparou que, depois daquele luxo todo, teria problemas para se habituar ao hospital.

Lamentava ter de se ir embora, agora que conhecia o simptico doutor Van Vleet. Apesar de saber que tinha direito a um dia de folga, perguntava-se se seria capaz
de o pedir ao patro, depois da maneira fria como ele a tratara naquela tarde.

Depois de pr os meninos na cama, foi ao seu quarto mudar de roupa para o jantar. Muito embora Marcus nunca jantasse com ela, fazia aquilo em ateno a Jet e Bas,
que a serviam sempre com muito esmero. Enquanto se arranjava, ouviu o doutor subir as escadas para ir dar as boas-noites aos sobrinhos e, pouco depois, Bas bateu
discretamente  sua porta para a avisar de que o jantar estava servido.

Quando entrou na sala, Araminta deparou-se com o doutor  sua espera. Ele convidou-a a sentar-se e serviu-lhe um copo de xerez.

- Pelo que pude ver, os gmeos esto ptimos.  melhor que no voltem  escola por enquanto, mas no vejo motivo nenhum para que no vo dar uma volta amanh, se
estiver bom tempo. Para ser sincero, o poder de recuperao das crianas no pra de me surpreender.

Araminta assentiu e tomou um gole de xerez. Esperava que o doutor no a retivesse ali muito tempo, pois estava cheia de fome.

-Aconselho-a a tirar um dia de folga - estava a dizer


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o doutor. - Amanh e depois estarei muito ocupado, mas depois poderei ficar a tomar conta dos pequenos. Asseguro-lhe que, desta vez, farei com que desfrute do seu
tempo livre. Se quiser, posso pr  sua disposio o Jaguar e o motorista, para o caso de lhe apetecer fazer um pouco de turismo.

Araminta reflectiu por um momento. Sentia-se uma espcie de parente pobre, algum a quem se oferecia um prmio de consolao.

-  muito generoso - acabou por responder, - mas no  necessrio incomodar-se. Tenho outros planos.

- Tem? - Marcus parecia incrdulo. Ela lanou-lhe um olhar gelado.

- Tenho vinte e trs anos, doutor - lembrou-lhe num tom ainda mais frio.

- Pois no parece. Eu dava-lhe dezanove ou vinte, no mximo sorriu e, naquele momento, Araminta soube que tinha que lhe dizer a verdade.

- O doutor Van Vleet pediu-me para passar o meu dia de folga com ele - confessou-lhe, um pouco corada.

- Boa ideia! Fico mais sossegado sabendo que est com ele. Telefone-lhe para combinar tudo. Tenho a certeza de que se divertir muito - ps o copo em cima da mesa.
- Vamos jantar?

- Ah! Mas... vai jantar em casa? - ela no pde disfarar o seu espanto.

- Vou, menina Pomfrey - confirmou. Ela no pde ver o seu sorriso porque baixou a cabea, envergonhada com a sua falta de tacto.

Durante o jantar, ele mostrou-se to atencioso que, aos poucos, ela tomou conscincia do seu erro. Quando se deitou, teve de reconhecer que, quando queria, o doutor
era uma ptima companhia.


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Os dias seguintes foram muito agradveis. Araminta dedicou-se a percorrer a cidade na companhia dos meninos, que adoravam ser seus guias. Entretanto, mal viu o doutor.
Ele passava algumas horas com os sobrinhos todas as tardes, dando-lhe algum tempo livre, e no tinham voltado a jantar juntos.

Araminta telefonou ao doutor Van Vleet e combinaram sair juntos no sbado seguinte.

Para a ocasio, decidiu vestir uma saia, uma blusa e um casaco. " uma pena", pensou, "que nunca tenha tempo de ir s compras". Dispunha de muito dinheiro para o
fazer, dado que o doutor lhe pagava bem, por isso decidiu que, quando tivesse uma oportunidade, no hesitaria em aproveit-la.

No sbado, o sol brilhava no cu quando o doutor Van Vleet foi busc-la a casa. Os gmeos saram para se despedirem dela juntamente com o tio.

-Amanh tens que nos contar tudo, Mintie!

O seu acompanhante conduzia um Fiat um pouco rpido para o seu gosto.

- Onde  que vamos? - quis saber.

- Primeiro, a Arnhem. H l um museu ao ar livre que, com certeza, vai gostar de ver. Ainda no viu muito da Holanda, no ?

- No, ainda no. S passeei por Utreque com os meninos.

- So umas crianas adorveis - dedicou-lhe um sorriso amvel. - A propsito, chamo-me Piet. Como  que os pequenos te chamam?

- Mintie.  uma abreviatura de Araminta.

- Ento, tambm te chamarei assim.

A viagem pelos campos pitorescos de Veluwe pareceu-lhe uma delcia. Chegaram a Arnhem  hora do almoo.

A seguir, Piet levou-a a Nimega, a Culemborg e a


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Amersfoort, antes de se dirigir para Soestdijk para visitarem o palcio real.

Tomaram o caf em Soest e, depois, recuaram para irem ao palcio de Appeldoorn. Em seguida, iniciaram a viagem de regresso a Utreque.

- Foi um dia maravilhoso - comentou Araminta. Muito obrigada. Adorei.

- Ainda no terminou. Quero convidar-te para jantar num restaurante dos subrbios de Utreque, o Auberge de Hoefslag. Tem uma vista magnfica e a comida  deliciosa.

- Adoraria - comeou a argumentar Araminta, - mas no estou bem vestida...

- Para mim, ests ptima - interrompeu-a ele, cavalheiresco.

Tratava-se de um lugar muito acolhedor com duas salas: uma moderna e outra deliciosamente antiga. A comida era divinal e o servio, impecvel. Quando retomaram o
caminho para Utreque, eram quase onze da noite.

Piet deixou-a  porta de casa e esperou at ela entrar. Araminta estava muito preocupada porque era muito mais tarde do que previra. Despediu-se do seu acompanhante
muito feliz pelo dia maravilhoso que tinham passado juntos e por ele ter sugerido que voltassem a sair noutra ocasio.

- Passou um bom dia, menina? - perguntou-lhe Bas.
- Quer tomar um caf ou um ch?

- Foi fantstico, Bas - assegurou-lhe, com os olhos ainda brilhantes de alegria. - No quero nada, obrigada.

- Boa noite, menina.

Ao chegar s escadas, reparou que a porta do escritrio estava entreaberta. O doutor estava sentado  secretria, mas, apesar de a ter ouvido entrar, no fez nenhum
movimento para ir cumpriment-la. Embora


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Araminta no quisesse admitir, aquela indiferena estragou-lhe o dia.

Ao pequeno-almoo, ele perguntou-lhe educadamente como fora o seu dia de folga. Ainda emocionada, ela comeou a relatar tudo o que fizera. No entanto, pouco depois
apercebeu-se de que ele no estava minimamente interessado e calou-se abruptamente, procurando terminar o pequeno-almoo o mais depressa possvel.

- Acho que os meus sobrinhos j podem ir  missa comentou o doutor quando saram da sala. - Por favor, certifique-se de que estejam prontos a tempo e horas.

Os meninos ficaram encantados por sarem com o tio, ao contrrio dela, que passou a hora inteira a pensar na roupa que ia comprar. Piet prometera-lhe lev-la a Amsterdo,
um passeio que, sem dvida, requeria uma roupa bonita. De onde estava sentado, o doutor podia ver nitidamente o seu rosto e perguntava-se como  que algum dia podia
t-lo considerado desinteressante. Agora parecia-lhe outra mulher. Mais tarde, quando j tinham acabado de almoar e estavam a tentar decidir como iam passar o resto
da tarde, Christina Lutyns foi visit-los. Cumprimentou carinhosamente o doutor, saudou brevemente os gmeos e, ignorando completamente a presena de Araminta, desatou
a falar em holands. Ele ouvia-a, sorridente.

- Estarei fora o resto do dia, menina Pomfrey anunciou. Em seguida, ps fim aos protestos dos sobrinhos com a promessa de passar pelo quarto deles para lhes dar
as boas-noites, mesmo que j estivessem a dormr.

De facto, os pequenos j estavam a dormir h horas quando o doutor chegou a casa. Na manh seguinte.


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contou-lhes o que fizera em holands, de modo que ela no pde compreender nada.

 tarde, quis saber quando  que ela pretendia tirar folga. Piet dissera-lhe que o dia que mais lhe convinha era a quinta-feira e, por sorte, o doutor disps-se
a ficar com os sobrinhos naquele dia.

- Vai sair com Van Vleet? - indagou num tom casual.

- Sim. Vamos a Amsterdo. Disseram-me que  uma cidade maravilhosa e estou ansiosa por conhec-la.

- Menina Pomfrey, acho que h uma coisa que deve saber...

- Sim? No podemos deixar para mais tarde? Se me demorar, no poderei levar os meninos a tempo  escola.

- Como queira, menina Pomfrey.

A partir daquele momento, ela fez de tudo para no voltar a ficar a ss com o doutor. Tinha quase a certeza de que ele ia dizer-lhe que podia voltar para Inglaterra
antes da data prevista e ela no queria ouvi-lo, no depois de ter conhecido Piet.

Enquanto os pequenos estavam na escola, foi s compras. No pde resistir  tentao de comprar um vestido cor de mbar e um casaco de l a combinar. Apesar de ser
muito caro e da cor no ser muito prtica, dava vida ao seu cabelo e assentava-lhe como uma luva. Tambm comprou uma mala, sapatos e um leno.

Na quinta-feira, Piet foi busc-la  hora combinada.

- Ests linda! - exclamou, ao p das escadas, onde estivera a conversar com o doutor enquanto esperava. Gosto dessa cor. Fica-te muito bem.

- Ests sensacional! - opinou Peter.

- No est, tio? - acrescentou Paul.

O doutor assentiu, quase sem olhar para ela.


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Amsterdo revelou-se uma cidade to bonita como ela imaginara. Piet fez questo de a levar a dar um passeio de barco pelos canais e, aps visitarem o Rijksmuseum,
foram ver as montras das melhores lojas. Depois do ch, passearam ao longo do gratchen, a admirar as manses antigas e as lojas de antiguidades.

Piet convidou-a para jantar no Hotel de l'Europe e, durante a sobremesa, contou-lhe que tinha a inteno de se casar no incio do prximo ano.

- Anna est no Canad, a visitar os avs. Felizmente, voltar em breve. Sinto muitas saudades dela. Tenho a certeza de que vocs se daro bem. So muito parecidas
uma com a outra, ambas so muito calmas. Ela cozinha muito bem e adora crianas. Espero que sejamos muito felizes.

"Que tola fui!", repreendeu-se Araminta com amargura. Felizmente, ningum tinha conhecimento dos sonhos loucos que alimentara.

- Conta-me mais coisas sobre ela - pediu-lhe, e ele ps-se a fazer uma extensa exaltao das virtudes da noiva.

- Temos que sair juntos outro dia - props-lhe, j a caminho de casa.

- Bom, acho que no ser possvel. Parece-me que vou voltar para Inglaterra daqui a pouco tempo - desculpou-se Araminta, a estender-lhe a mo. - Foi um dia maravilhoso.
Obrigada pelo jantar. Se no voltarmos a ver-nos, espero que tu e Anna sejam muito felizes.

- Seremos, sim - assegurou-lhe ele.

- No precisas de me acompanhar - declarou ela. Bas est  minha espera  entrada.

Bas retirou-se assim que lhe desejou as boas-noites, deixando-a sozinha no vestbulo. Sentia-se estpida. Como  que pudera imaginar que um homem podia sentir-se
atrado por algum como ela? Piet s se oferecera


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para sair com ela por gentileza... talvez at por compaixo.

De repente, reparou que a porta do escritrio estava aberta e que o doutor a observava. Murmurou uma saudao e dirigiu-se rapidamente para as escadas, mas ele saiu
do escritrio e deteve-a com um gesto.

- Parece que est quase a chorar. Talvez se sinta melhor se desabafar...

- No tenho nada que desabafar.

Ele ps um brao em redor dos seus ombros.

- Eu acho que tem. Tentei dizer-lhe, mas no me deixou.

Parecia uma pessoa completamente diferente: terna, amvel e compreensiva.

- Fui to tola! - exclamou Araminta e, enterrando a cabea no ombro dele, desatou a chorar.


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O doutor esperou pacientemente que ela se acalmasse um pouco e, enquanto esperava, comeou a notar algumas coisas. A suave fragrncia do seu cabelo, por exemplo,
a sua frgil suavidade e uma crescente preocupao com o seu bem-estar. Por fim, estendeu-lhe um leno.

- Est melhor? - indagou. - Acalme-se e conte-me tudo.

- No... no quero falar disso - balbuciou Araminta, entre gemidos. - La... lamento - desculpou-se, soltando-se do seu abrao. - Foi muito amvel... depois lavarei
o len...

Ele f-la sentar-se numa cadeira do escritrio.

- No precisa de me contar nada, se no quiser aproximou-se de um carrinho e serviu-lhe uma bebida.
- Beba isto, vai sentir-se melhor.

-  brandy? - perguntou-lhe ela, receosa. - Nunca...

- H uma primeira vez para tudo. Suponho que Van Vleet lhe tenha contado que vai casar-se daqui a pouco tempo... e que pensasse que ele estava interessado em si.
Devia ter-lhe contado na primeira vez que saram juntos, mas imagino que nem sequer se tenha lembrado disso - completou com um suspiro. - Asseguro-lhe que  um homem
muito correcto.


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Araminta bebeu um grande gole de brandy. Quase de imediato, sentiu que a bebida a agoniava, ao mesmo tempo que a reconfortava.

- Fui muito estpida - admitiu com voz entrecortada. - Devia ter adivinhado que ele nunca se interessaria por mim. Sou muito insossa, no tenho nenhum encanto e
as minhas roupas so horrorosas.

O doutor disfarou um sorriso.

- Garanto-lhe que quando um homem se apaixonar por si, no ligar a nada disso.

- O problema  que no convivo com rapazes da minha idade - confessou-lhe. - O meu pai e a minha me s se relacionam com homens que conheo desde pequena. So todos
velhos e casados - esvaziou o copo. Tinha plena conscincia de que de manh se arrependeria de se ter deixado levar. - De qualquer modo, posso dedicar-me  minha
carreira e tornar-me uma boa enfermeira - concluiu, antes de se levantar. - Agora vou para a cama. Sinto-me um pouco zonza.

Ele acompanhou-a at s escadas e ficou a observ-la a subir. Tinha o pressentimento de que ela recusaria caso se oferecesse para a ajudar a chegar ao quarto.

Graas ao brandy, Araminta dormiu profundamente. Porm, quando se levantou, lembrou-se de tudo o que acontecera no dia anterior, incluindo da conversa que tivera
com o doutor. Enquanto vestia os gmeos, rezou para que ele j se tivesse ido embora quando descesse para tomar o pequeno-almoo.

Por azar, encontrou-o sentado  mesa, a ler a correspondncia. Ele abraou os sobrinhos e cumprimentou-a com a sua frieza habitual. No lembrava em nada o homem
que a consolara na noite anterior. Com aquela atitude


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parecia dizer-lhe que considerava a conversa embaraosa que tinham tido como guas passadas. Araminta concluiu que aquilo a ajudaria a aprender a lio: se, no futuro,
algum homem se apaixonasse por ela, teria que lho demonstrar claramente.

O dia decorreu normalmente. Felizmente, os meninos absorviam toda a sua ateno e energia, o que a obrigava a manter-se ocupada. Quando o doutor chegou a casa, 
tarde, pde desfrutar de uma hora de liberdade. Depois, ele voltou a sair.

Enquanto jantava, Araminta perguntou-se onde ele estaria. Provavelmente com Christina Lutyns. Embora no simpatizasse com ela, sabia que era a mulher ideal para
o doutor... mas no a adequada. Algumas vezes, poucas, ele deixara-a entrever uma faceta terna e amvel da sua personalidade, que provava que havia um homem diferente
atrs da sua fachada impassvel. Ela desejava conhec-lo, mas sabia que era quase impossvel.

A semana chegou ao fim sem que ele voltasse a mencionar o seu dia de folga. "Talvez pense que no quero ter um dia livre", pensou Araminta. No entanto, na sexta-feira
 noite, ele pediu-lhe que esperasse um momento antes de ir pr os gmeos na cama.

- No sei se j tem algum plano, menina Pomfrey, mas pretendo levar os meus sobrinhos a Frsia no domingo, para verem os meus tios. Eles vivem perto de Leeuwarden
e pensei que talvez a menina pudesse ir connosco. Os pequenos adorariam que aceitasse e os meus tios tambm. Evidentemente - concluiu, com um sorriso amvel, - pode
fazer o que desejar.

- No serei um estorvo?

- No, absolutamente. Nem sequer ter de se preocupar


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com os pequenos. Gostava que visse um pouco mais da Holanda antes de voltar para Inglaterra.

- Eu tambm. Muito obrigada, doutor.  muito longe daqui?

- A cerca de cento e cinquenta quilmetros. Partiremos por volta das oito horas. Depois de almoarmos em Huis Breugh, ainda poderemos passar uma hora em Leeuwarden
antes de irmos tomar o ch com os meus tios.

Os meninos ficaram loucos de alegria ao saberem que ela os acompanharia. Quando desceu, depois de os deitar, constatou que o doutor j sara. Embora no esperasse
o contrrio, no pde deixar de se sentir um pouco decepcionada.

"Com certeza", pensou com amargura, "temia que eu me pusesse a chorar outra vez no seu ombro". Provavelmente, decidira pr uma pedra sobre aquela cena embaraosa.

Contudo, estava redondamente enganada, pois o doutor lembrava-se muito bem do que acontecera. No parava de se dizer que aquela mulher estava quase a voltar para
casa e que ele no demoraria a esquec-la. No entanto, aquilo no o impedia de tentar fazer com que a sua estada naquele pas fosse o mais agradvel possvel para
que se esquecesse do malvado e inconsequente doutor Van Vleet.

No podia permitir que ela interferisse na sua vida bem organizada. O que importava era o seu trabalho e s estava disposto a casar-se com uma mulher que o compreendesse
perfeitamente... "Como Christina", pensou com um estremecimento.

Irritado, abanou a cabea e concentrou-se nos apontamentos que estava a tomar para a conferncia que tinha de dar naquela tarde.


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No domingo, Araminta ficou muito contente ao levantar-se e ver que estava um dia muito bonito. Decidiu vestir o vestido novo e a gabardina. Depois de resolver aquele
problema, vestiu os pequenos e, todos juntos, desceram para tomarem o pequeno-almoo.

- O tempo est magnfico - comentou o doutor, que j estava  espera deles, mas  melhor levar um casaco, menina Pomfrey.

Levarei. Tambm preparei os casacos dos meninos. Humphrey tambm vai?

- Sim, no assento detrs, com os pequenos. Passado pouco tempo, estavam prontos para partir.

O doutor conduziu pela auto-estrada de Amsterdo at Purmerend e Hoorn e, de l, seguiu para Afsluitdijk.

 uma pena que no tenhamos tempo para parar disse a Araminta. - Talvez noutra ocasio...

Ela pensou que era pouco provvel que aquilo acontecesse e prometeu-se desfrutar o melhor possvel de tudo o que pudesse naquele dia.

Quando saram do dijk, o doutor seguiu para Leeuwarden e, depois de passar por Franeker, desviou-se para um caminho rural que atravessava hortos bem cultivados,
campos e prados onde manadas de vacas pastavam.

- No se parece nada com os arredores de Utreque.

- No, deve ser o nico lugar da Holanda onde se tem a sensao de amplitude. Gosta?

- Muito.

Passado um bocado, viu as guas de um lago a cintilarem ao longe. Havia barcos de recreio e vrias pessoas a pescar.

Os meninos soltavam exclamaes de entusiasmo, obrigando-a a reparar em todos os pormenores.

- No  lindo, Mintie? Vais adorar! Ests contente por teres vindo?


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Ela assentiu com sinceridade.

O doutor conduziu por uma calada e parou diante de uma casa grande de paredes brancas, com uma torre quadrada num dos lados e chamins altas. As janelas eram pequenas,
com persianas pintadas de vrias cores. Parecia muito antiga e conservada. Araminta estava ansiosa por ver o interior.

A entrada principal situava-se ao p da torre e dava para um vestbulo pequeno que se abria para um hall mais espaoso. Assim que entraram, foram recebidos por um
casal de idosos. O homem era alto e magro, de cabelo branco e ainda bastante atraente. A mulher, em contrapartida, era baixinha e rechonchuda, tambm de cabelo branco.
Devia ter sido muito bonita na juventude e ainda tinha uns belos olhos azuis, grandes e expressivos. Usava uma saia de tweed e uma camisola de caxemira que combinava
com os seus olhos.

- Marcus... j chegaram! cumprimentou-os. Disse a Bep que me parecia ter-vos ouvido - ps-se em bicos de ps para que o sobrinho lhe desse um beijo na cara e, depois,
agachou-se para abraar os gmeos.

- Apresento-vos a menina Pomfrey - anunciou o doutor. A senhora apertou-lhe a mo com um sorriso caloroso.

- Se no se importa, vamos falar em ingls, para eu poder praticar um pouco.  um prazer conhec-la, menina Pomfrey.

O marido tambm se aproximou para a cumprimentar.

- Seja bem-vinda, menina Pomfrey. Marcus disse-nos que o ajuda muito com os meninos.

- Obrigada - Araminta achou-o muito simptico. Quando foram para a sala de estar tomar caf, a anfitri insistiu para que Araminta se sentasse ao seu lado.

- Deve ter reparado que Marcus nem sequer lhe


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disse como nos chamamos. Este rapaz! Pode ser um gnio, mas esquece-se sempre das coisas mais simples. A me dele era minha irm. Como deve saber, tanto ela como
o marido morreram h alguns anos. O nosso sobrenome  Nos-Wieringa. O meu marido nasceu e cresceu nesta casa e raramente samos daqui. Adoramos que os pequenos venham
visitar-nos quando esto na Holanda. Conhece a me deles? Araminta assentiu.

- E o que  que me diz de si, querida? Tem irmos?

- No, s os meus pais. Mas gostava muito de ter.

- A famlia  a coisa mais importante do mundo afirmou a senhora. - Marcus  o mais velho de quatro irmos. Lucy  a mais nova. Vive em Inglaterra desde que se casou.
Os outros dois rapazes tambm so mdicos. Um vive no Canad e o outro, na Nova Zelndia.

Araminta compreendeu que, graas  senhora Nos-Wieringa ficara a saber mais coisas sobre o doutor em cinco minutos do que em vrias semanas a trabalhar para ele.

Depois de tomarem o caf, o anfitrio levou os meninos  quinta que ficava perto da casa para verem os novilhos.

- Entretanto, vou mostrar-lhe a casa - ofereceu-se a senhora Nos-Wieringa. -  muito antiga e no quisemos reform-la, embora tenhamos instalado aquecimento central
e essas coisas. Gosta de casas antigas?

- Sim, muito. Os meus pais vivem numa um pouco mais pequena do que esta, do sculo passado... mas parece-me que esta  muito mais antiga.

- Tem algumas partes do sculo XIII, mas a maioria  do sculo XVII. Consta que um antepassado do meu marido fez fortuna nas ndias Holandesas e mandou reform-la
completamente.


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As divises eram espaosas e de tectos altos e as paredes estavam cobertas de retratos.

- Antepassados? - quis saber Araminta.

- Sim, meus e do meu marido. Ainda se nota a semelhana, no acha? Marcus herdou o nariz da famlia. Curiosamente, poucas mulheres o tm. A me dele era uma mulher
de feies comuns. Ao que parece, os Van der Breugh costumam casar-se com mulheres simples. So uma famlia muito numerosa. O av ainda vive na manso da famlia.
No o conhece?

Araminta respondeu-lhe que no e quase acrescentou que era muito pouco provvel que viesse a conhec-lo. Para evitar que a conversa se centrasse mais do que era
conveniente no doutor, ps-se a falar dos mveis.

Comeram em redor de uma mesa grande, sentados em cadeiras nada confortveis. Quando terminaram, a senhora Nos-Wieringa virou-se para o sobrinho.

- Agora, Marcus, leva Mintie a Leeuwarden. Posso chamar-te Mintie, no , querida? Ns vamos adorar tomar conta dos pequenos at vocs voltarem. Lembrem-se de que
o jantar  servido s seis.

Araminta virou-se para o doutor, surpreendida.

- Ia-me esquecendo - antecipou-se ele. - Pensmos que seria uma boa ideia, para se distrair um pouco no seu dia livre. No diga que no, seno os meninos vo apanhar
uma decepo...

- Sim, Mintie, vai! - exclamaram os gmeos em coro. - O tio pode mostrar-te o edifcio da cmara e o resto. H um caf perto do parque onde podem tomar o ch.

- Soa muito bem - comentou Araminta, comovida com tanto carinho. - Foram muito amveis...

No entanto, quando j iam a caminho da cidade, julgou-se na obrigao de dizer ao doutor:


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Foi muito amvel da sua parte, mas no quero estragar-lhe o dia. Deve querer conversar com os seus tios.

- No, menina Pomfrey, esteja descansada! - negou ele de imediato. Posso vir v-los quando me apetecer. Em contrapartida,  pouco provvel que a menina regresse
a Frsia ou at  Holanda. Suponho que pretenda passar o tempo livre que lhe derem no hospital em sua casa.

Ela limitou-se a assentir. Surpreendida, apercebeu-se de que a perspectiva de estudar no hospital no lhe agradava nada. Concluiu que no devia ter aceitado aquele
trabalho, que s servira para a distrair do seu objectivo... embora tivesse de admitir que tambm servira para fazer com que a sua vida parecesse muito mais interessante.

- Pretende casar-se com a menina Lutyns? - inquiriu de repente, sem se aperceber do que estava a fazer. La.. Lamento desculpou-se imediatamente. No sei porque 
que lhe perguntei isto.

Acha que devia casar? indagou o doutor, por sua vez. - Por favor, menina Pomfrey, seja sincera. Valorizo muito a sua opinio.

A srio? - Araminta estava perplexa. Por ser uma estranha, uma espcie de observadora imparcial?

Mais ou menos.

Bem, j que quer saber... parece-me que a menina Lutyns  muito bonita e veste-se muito bem. Embora no parea, a sua roupa  muito cara e assenta-lhe que nem uma
luva... divagou. Estavam a chegar aos arredores de Leeuwarden. Que lugar lindo! - exclamou, ansiosa por mudar de assunto.

-  verdade. Responda  minha pergunta, menina Pomfrey, por favor.

Bem... - repetiu. A sua me costumava dizer que


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abusava das repeties porque no era uma grande conversadora. - No sei o que dizer. Parece que ela gosta muito de sair e ver gente, ao contrrio de si, que prefere
trabalhar e estudar. No sei porque  que quer a minha opinio - acrescentou bruscamente, - o assunto no me diz respeito. De qualquer forma - continuou, aps pensar
melhor, - formam um lindo par.

- Que opinio curiosa! - exclamou o doutor, ao estacionar ao lado de um grande edifcio. - Gostava de a levar ao museu Frsio, mas no temos muito tempo, por isso
iremos primeiro  Grote Kerk e, depois,  torre Oldehove. Pelo caminho poder ver algumas das casas mais antigas da cidade.

Araminta ouvia as suas explicaes com ateno, decidida a no deixar escapar nada.

- Agora vamos tomar o ch ao caf que os meus sobrinhos nos recomendaram - sentenciou o doutor, depois do passeio. - Lembram-se bem dele porque servem uns bolos
deliciosos. Temos que comer pelo menos um ou dois para que no fiquem decepcionados.

Era um lugar muito agradvel, onde, de facto, lhes serviram um ch delicioso e oferecem um grande surtido de bolos com creme e chocolates com recheio de licor e
frutos.

O doutor observou-a a comer e, de repente, pensou em Christina, que no se atreveria a comer nenhum daqueles doces por medo de engordar. Aparentemente, a menina
Pomfrey no se preocupava nada com aquela possibilidade. "Alm disso,  muito elegante", pensou.

- Que lanche maravilhoso! - exclamou Araminta, quando voltaram para o carro. - Muito obrigada por tudo, doutor. Os seus tios tambm foram muito gentis comigo.

Durante o trajecto de volta, ele permaneceu em silncio. " como se achasse que j cumpriu o seu dever", pensou Araminta, frustrada.


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Quando chegaram a casa, os meninos receberam-nos com grandes demonstraes de alegria e, a seguir, fizeram-lhes um interrogatrio completo sobre o que tinham visto
e comido. Por sua vez, contaram-lhes que tinham ido pescar com o tio e que, depois, a tia mostrara-lhes uma ninhada de gatinhos recm-nascidos.

Araminta sentou-se a conversar com eles e com a senhora Nos-Wieringa enquanto o doutor ia para o escritrio com o tio, que queria a sua opinio sobre alguns assuntos.
S regressaram  hora do jantar.

Em considerao aos pequenos, serviram-lhes uma refeio muito parecida com o ch ingls, abundante em doces. O que mais lhes agradou foram os poffertjies, uns deliciosos
bolos cobertos de acar.

Depois do jantar, empreenderam a viagem de regresso. Pouco depois, os meninos adormeceram, estafados pelas emoes do dia. O doutor decidiu voltar por Meppel e Zwolle,
passando por Hardewijk e Hilversum, para que Araminta pudesse ver mais coisas da Holanda.

No entanto, permaneceu em silncio durante todo o caminho. Ela limitou-se a olh-lo, vagamente infeliz.

J estava escuro quando chegaram a Utreque. A primeira coisa que Araminta fez foi deitar os pequenos, o que demorou um bocado, dado que eles estavam muito excitados.
O doutor subiu para lhes dar as boas-noites e, pelo seu tom, ela compreendeu que no esperava que voltasse a descer para a sala de estar. No teve outro remdio
seno ir para o quarto e, embora lhe apetecesse tomar uma chvena de ch, no ousou descer para a cozinha por medo de se encontrar com ele. Tomou banho e meteu-se
na cama. "Foi um dia muito agradvel. S  pena que o doutor no se tenha mostrado mais amigvel", pensou, antes de adormecer.


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Na manh seguinte, os meninos levantaram-se muito bem-dispostos. Como sempre, o doutor mal lhe dirigiu um cumprimento educado. " como se eu fosse invisvel", pensou
ela, enquanto o ouvia a fazer planos com os meninos para irem comprar presentes para os pais deles.

- Tu tambm tens de vir - disseram-lhe eles. - O tio vai sempre connosco para pagar o que escolhemos.

- Acho que a menina Pomfrey prefere ir s compras sozinha - interveio o doutor. - Talvez eu possa ir convosco uma tarde destas.

- Mintie? - insistiu Paul.

- O vosso tio tem razo. Prefiro ir sozinha, mas prometo que vos mostrarei o que comprar. Vo ajudar-me a fazer os embrulhos, no ?

A tentar disfarar a irritao, mandou-os ir buscar os cadernos e, assim que saram, virou-se para o doutor, indignada:

- Pelo que vejo, vamos regressar a Inglaterra daqui a pouco tempo - observou com frieza. - Agradecia-lhe que, ao menos, tivesse a amabilidade de me manter informada
para que pudesse organizar-me.

O doutor pousou a carta que estava a ler.

- Minha querida menina Pomfrey! Sabe bem que sou um homem muito esquecido. Lamento se feri os seus sentimentos - desculpou-se alegremente. - Voltaremos daqui a cinco
dias. Tenho vrios compromissos em Londres, mas os meus sobrinhos ficaro comigo at que os seus pais regressem. Espero que fique connosco at l...

- Antes de vir, disse-me que trataria da minha entrada no hospital.

- De facto. Acha que est pronta para comear assim que chegar? Normalmente, h sempre algumas estudantes que desistem nas primeiras semanas, de modo que,


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com certeza, haver uma vaga para si. Continua determinada a estudar enfermagem?

- Continuo. Porque  que pergunta?

- No sei se  o mais indicado para si - respondeu-lhe ele, diplomtico.

- Estou habituada a trabalhar duro - replicou, fria. Naquela manh, foi s compras. Escolheu um leno

para a me, um livro de histria dos Pases Baixos para o pai e uma blusa muito bonita para a prima Millicent, embora tivesse a certeza de que ela nunca a vestiria.
Tambm comprou uma caixa de charutos para Bas e outro leno para Jet. Lembrou-se do que prometera aos gmeos e comprou papel de presente e fitas para embrulhar as
suas aquisies. Aquilo ia mant-los ocupados durante a tarde, enquanto esperavam pela chegada do tio.

Estavam entretidos a embrulhar os presentes no quarto dos meninos quando a porta se abriu de repente para dar passagem ao doutor e  menina Lutyns. Como sempre,
a mulher tinha um aspecto radiante. Araminta corou ao recordar a conversa que tivera com o patro em Leeuwarden. Como devia ter-se rido dela! At talvez tivesse
contado tudo quela mulher.

A mevrouw Lutyns no lhe prestou ateno, cumprimentou rapidamente os pequenos e, a seguir, ps-se a falar com o doutor. Ele ouvia-a com ar ausente, a brincar com
uma fita. Quando lhe respondeu, f-lo em ingls, o que, sem dvida, desagradou profundamente quela jovem orgulhosa.

- A menina Lutyns disse-me que est a pensar em ir a Inglaterra daqui a pouco tempo - comunicou a Araminta.

- Suponho que j conhea bem o meu pas - retorquiu ela educadamente.

- S Londres. No gosto do campo. Tenho de ir s


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compras... mas suponho que a menina no se interesse por roupa, no ?

Araminta lembrou-se de vrias respostas, mas, como eram todas muito venenosas, manteve-se calada.

- Vamos descer para tomar qualquer coisa, Christina

- sugeriu-lhe o doutor. - Volto j - prometeu aos sobrinhos. - Se quiserem, depois podemos jogar s cartas.

Quando eles saram, Peter virou-se para a ama.

- No gostamos daquela mulher - sussurrou, nunca fala connosco. Porque  que o meu tio gosta dela, Mintie?

Bom...  muito bonita e veste-se muito bem. Imagino que tambm seja divertida e o faa rir-se.

- Tu pareces-nos linda, Mintie - declarou Paul, a abra-la. - Tambm nos fazes rir e a tua roupa  muito gira.

A srio? Isso  muito bonito! As raparigas gostam de receber elogios, sabes? Bom - prosseguiu, a pegar na bandeja, - querem jogar  bisca at o vosso tio voltar?

Passado um bocado, Marcus subiu ao quarto dos sobrinhos e uniu-se ao jogo.

- Isto  muito mais divertido com quatro jogadores!

- exclamou.

- A menina Lutyns j se foi embora? - quis saber Paul.

- J. Tinha que ir mudar de roupa para esta noite. Vamos jantar fora - explicou-lhe, sem tirar os olhos de Araminta que, aparentemente, estava concentrada em baralhar
as cartas.

Passados dois dias, os meninos foram s compras com o tio, enquanto ela comeava a fazer as malas. Gostara muito da Holanda e ia sentir a falta daquela


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vida confortvel, mas sabia que tinha de comear a pensar no futuro

Numa das suas cartas, a sua me dissera-lhe que presumia que ela fosse directamente da casa do doutor para o hospital embora, se desejasse, pudesse passar um dia
ou dois em casa para embalar as suas coisas. De qualquer forma, eles no estariam l para a receberem, pois o seu pai tinha de dar uma srie de conferncias no Pas
de Gales

Ao ler aquela carta, Araminta compreendeu que nem o seu pai nem a sua me queriam saber como fora a sua vida na Holanda. No tinha ningum a quem contar o que acontecera.
Por um momento, esteve prestes a deixar-se levar pela autopiedade, mas lembrou-se de que tinha um futuro muito prometedor  sua frente, independentemente do que
o doutor pensasse

Nos dias seguintes, mal o viu. Os meninos estavam muito nervosos com a perspectiva de voltarem para Inglaterra. Passaram as ltimas tardes a passear pelas suas ruas
preferidas e a lanchar nos cafs que mais lhes agradavam

No dia da partida tiveram que se levantar muito cedo. Atarefada com os preparativos, Araminta mal teve tempo de se sentir melanclica. Depois de instalar os gmeos
no carro, deu um abrao carinhoso a Jet e a Bas, e sentou-se ao lado do doutor

Quando arrancaram, chegou  concluso de que naquelas poucas semanas aprendera a amar a casa do doutor e a cidade de Utreque, com as suas ruas pitorescas e sossegadas.
Ia sentir saudades dela e do doutor. Provavelmente, nunca mais o veria

De repente, deu por si a imaginar como  que acabara por se apaixonar por um homem que no tinha nenhum interesse nela. No fundo", reflectiu, " uma sorte ter que
me despedir dele to depressa

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No entanto, nem toda a sensatez do mundo pde impedir que as lgrimas lhe inundassem os olhos.

- Est triste por deixar a Holanda, menina Pomfrey?
- interrogou-a o doutor, com delicadeza. - Felizmente, no fica muito longe de Inglaterra. Talvez possa voltar c daqui a pouco tempo.

Araminta limitou-se a assentir, consciente de que aquilo era impossvel.

A viagem decorreu sem nenhum percalo e, quando chegaram a Londres, Briskett estava  espera deles com o ch servido. Era como se nunca tivessem sado dali.


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Briskett entregou a correspondncia ao patro e comunicou-lhe que tinha vrias chamadas urgentes. A seguir, guardou os casacos dos gmeos e acompanhou Araminta ao
seu quarto.

- Os meninos ficaro no quarto do costume, ao lado do seu, menina - informou-a. - O doutor no gosta que o incomodem com as suas brincadeiras. Divertiram-se? Espero
que o doutor tenha tido tempo de fazer um pouco de turismo.

- Sim, de facto. Estivemos em Frsia.

-  um prazer voltar a v-la, menina - afirmou ele, com um sorriso sincero. O seu quarto  este. Por favor, considere-se em casa.

"Ser fcil, num quarto to lindo como este", pensou Araminta. Tinha uma cama de madeira polida, uma cmoda e uma mesa. As cortinas e o edredo eram de cretone amarelo
e algum pusera um ramo de flores ao lado da cama. A janela dava para o jardim.

No pde desfrutar muito daquele lugar, porque os gmeos reclamaram a sua ateno. Tinham-se comportado muito bem durante a viagem, mas estavam cansados e nervosos.
O melhor seria deit-los depois do ch... a menos que o doutor tivesse outros planos.


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Quando desceu para falar com ele, ouviu-o a falar em holands no escritrio. Ele acenou-lhe.

- Espere-me na sala de estar pediu-lhe. - Briskett serviu l o ch.

Pouco depois, juntou-se a eles para saborear um magnfico lanche. Assim que terminou, levantou-se com o pretexto de ter muito trabalho pendente.

- Esta noite terei de sair, por isso no vos verei antes de se deitarem, mas amanh terei mais tempo para estar convosco - prometeu aos sobrinhos. - De manh iremos
ao parque dar de comer aos patos. Assim, a menina Pomfrey ter mais tempo para desfazer as vossas malas. Imagino que queira telefonar aos seus pais para os avisar
de que j voltou - acrescentou, a dirigir-se a ela. Por favor, telefone quando quiser.

- Muito obrigada. Se no se importa, vou subir para preparar as coisas dos seus sobrinhos para esta noite. Acho que talvez seja melhor deit-los cedo...

- ptima ideia! Tenho a certeza de que Briskett vos far um jantar especial.

- Se no se incomoda, gostava de jantar com eles pediu-lhe Araminta.

- Como queira. Vou dizer a Briskett para fazer o jantar para as sete. Deste modo ter tempo para dar banho e vestir o pijama aos pequenos, no ?

- Sim, obrigada, doutor.

Subiu para desfazer a sua mala e preparar o banho dos meninos. Quando terminou, ouviu o doutor despedir-se dos sobrinhos e sair. Espreitou pela janela e viu-o entrar
no carro, vestido com elegncia.

- No  de admirar que tenha sempre o trabalho em atraso com uma vida social to agitada - reflectiu em voz alta, apesar de saber que aquilo no era verdade, POIS
Marcus era um homem muito responsvel, extremamente dedicado  sua profisso. Esperava que ele


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no voltasse muito tarde e pudesse dormir como devia ser.

Suspirou. Tentara no pensar muito nele durante o dia, mas no podia deixar de o amar, apesar de saber que no tinha nenhuma hiptese de ser correspondida. Embora
tivesse o corao partido, estava determinada a continuar com a sua vida... afinal, que ela soubesse, nunca ningum se matara por aquele motivo. Conseguiria esquec-lo
assim que sasse daquela casa, mas, entretanto, no via mal nenhum em pensar nele de vez em quando.

Em Londres, a sua rotina era ligeiramente diferente da de Utreque, sobretudo porque os meninos no iam  escola. Andavam muito contentes com a perspectiva da chegada
eminente dos pais. De manh, ela dava-lhes aulas e,  tarde, iam passear at  hora do ch. Depois, entretinham-se a jogar at  hora de irem para a cama. O doutor
mal parava em casa.

- Levanta-se muito cedo e deita-se tardssimo - confidenciou-lhe Briskett. - Dedica-se de corpo e alma ao trabalho. Ainda bem que pode sair para se distrair um pouco.

Apesar de tambm conseguir passar uma hora ou duas com os sobrinhos  tarde, era evidente que no lhe sobrava tempo para Araminta, a quem se limitava a cumprimentar
com indiferena  hora do pequeno-almoo.

Estavam h trs dias em Inglaterra quando ele anunciou que os pais dos pequenos chegavam dali a dois dias.

- Queria pedir-lhe que ficasse mais um dia connosco para ajudar a minha irm. Ela agradecia-lhe muito.

"S me restam trs dias", pensou ela, "depois, nunca mais voltarei a v-lo".

- Se  isso que a senhora Ingram quer,  claro que ficarei.


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- Pretende voltar para a sua casa depois? Esto  sua espera? - quis saber o doutor.

- Esto - respondeu-lhe Araminta, surpreendida com aquele interesse repentino. No lhe disse que, provavelmente, os seus pais no estariam em casa. A nica pessoa
que estaria ali seria a sua prima Millicent, com quem ficaria at ser chamada do hospital. - A propsito
- acrescentou, - disse-me que havia algumas probabilidades de ser aceite no hospital.

- Ah, sim! Quase me esqueci! H uma vaga. Uma estudante teve de voltar para casa por motivo de doena. Ser aceite, se estiver disposta a comear daqui a alguns
dias e a trabalhar arduamente para alcanar o nvel das suas colegas.

Ele tratara de tudo sem se lembrar de a avisar, o que demonstrava o seu desinteresse por ela.

-  mesmo isso que quer? - insistiu.

- , sim - afirmou com convico, um pouco irritada com o seu tom de voz. - No h nada que queira mais. Agradeo-lhe muito pelo interesse. Tenho que telefonar para
o hospital?

- No. Vai receber uma carta daqui a alguns dias. E no me agradea. Ajudou-me muito com os meus sobrinhos. Eles vo sentir a sua falta.

Estava a ser corts, mas, no fundo, sabia que tambm ia sentir a falta dela. A sua presena agradvel, a sua voz calma... de repente, lembrou-se de como chorara
no seu ombro e deu por si a pensar nela com uma ternura inesperada.

"Disparate!", repreendeu-se. A menina Pomfrey era uma pessoa muito competente e discreta e estava-lhe muito grato pela ajuda que lhe dera, mas, assim que se fosse
embora, esquecer-se-ia dela para sempre.


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Os senhores Ingram chegaram na data prevista,  tarde. Estava um dia de Outubro frio e chuvoso. Araminta tivera muitas dificuldades para manter os gmeos sossegados.
Passaram o dia inteiro a espreitar pela janela. Quando viram o carro, comearam a pular de contentamento.

- Esperem por eles l em baixo - disse-lhes Araminta.

Aproximou-se da janela a tempo de os ver entrar em casa, seguidos pelo doutor. Imaginou que tomariam o ch todos juntos e sentou-se  espera de que Briskett lhe
levasse o seu numa bandeja. Naquela manh, combinara com ele que o tomaria no quarto.

- Acho que vo cham-la - confidenciou-lhe o homem. - O chefe quer que conte aos pais dos pequenos como  que as coisas correram.  evidente que confia muito em
si.

Araminta serviu-se de uma chvena de ch com a impresso de que no estava com tanto apetite como era normal.  noite, quando os meninos fossem para a cama, comearia
a fazer as malas. Assim, ficaria livre para ajudar a senhora Ingram no dia seguinte.

De repente, a porta abriu-se para dar passagem ao doutor.

- No o ouvi bater - ironizou ela.

- Desculpe. Porque  que no desceu para tomar o ch connosco?

- Pensei que fosse uma reunio familiar.

Ele aproximou-se e fez meno de comer uma bolacha. Com aquele gesto, o homem srio e confiante transformou-se momentaneamente num menino. Araminta teve que se esforar
para reprimir a onda de amor que sentiu por ele naquele momento.

- J acabou, menina? - indagou ele, depois de comer a bolacha. - Se j, peo-lhe que desa.


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Araminta no pde deixar de anuir. Como  que se apaixonara por um homem to dominador? Desceu juntamente com ele para a sala de estar, onde os pais dos gmeos a
cumprimentaram calorosamente.

- Portaram-se bem? - quis saber Lucy, quando ela se sentou. - Podem ser dois terramotos...

- Portaram-se como dois anjinhos. So muito obedientes e simpticos.

- Que bom! Imagino que esteja ansiosa por voltar para a sua casa... mas gostava de lhe pedir que ficasse at amanh para me ajudar a fazer as malas.

- Com certeza. Os senhores tambm devem estar ansiosos por voltarem para Oxford, assim como os pequenos, embora tenham adorado passar esta temporada em Utreque,

- Na verdade, adoram o tio e, como falam ingls e holands, sentem-se muito  vontade com ele. Tenho a certeza de que devem ter imensas coisas para nos contarem.
E quanto a si, menina Pomfrey, gostou da Holanda?

- Sim, adorei.

- Marcus disse-nos que vai comear a estudar enfermagem.  mesmo isso que quer? - quis saber a senhora Ingram, interessada. - No tem namorado?

- No... por enquanto, s quero fazer uma carreira. A senhora Ingram no disse mais nada. Passado um momento, Araminta subiu para dar o jantar aos gmeos. Quando
se deitaram, os pais foram dar-lhes as boas-noites. Estafados pelas emoes do dia, adormeceram rapidamente e Araminta teve tempo suficiente para mudar de roupa
antes do jantar.

A refeio foi agradvel, mas ela retirou-se assim que acabou de comer. Quando chegou ao quarto, terminou de fazer as malas, sentindo-se um bocadinho sozinha.


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Procurou animar-se com a ideia de que tinha um ptimo futuro  sua frente, algum dinheiro e que, em pouco tempo, faria novas amizades entre as outras estudantes.
Decidiu que quando chegasse o momento de escolher um destino, poria de parte a possibilidade de trabalhar em Londres, pois no queria correr o risco de se encontrar
com o doutor.

No dia seguinte, desceu com os gmeos para tomar o pequeno-almoo. Pouco depois, juntaram-se a eles os pais, que os levaram s compras, deixando Araminta a fazer
as malas.

Ela passou o dia completamente sozinha, a arrumar a roupa e os brinquedos dos pequenos. Estava previsto que o doutor os levaria a Oxford depois do ch, de modo que
Araminta tinha de arrumar tudo at l.

- A casa vai ficar muito vazia - declarou Briskett enquanto a ajudava. - Vamos sentir muito a sua falta, menina.

- Imagino que o doutor esteja feliz por ter a casa s para ele outra vez - comentou Araminta.

- Engana-se. Ele gosta muito dos sobrinhos e a menina adaptou-se perfeitamente  nossa rotina.

- Muito obrigada, Briskett - apesar da sua aparncia, aquele homem parecia-lhe muito simptico. Alm disso, a sua lealdade ao doutor era comovente.

- Talvez volte, menina - murmurou Briskett, para seu espanto.

- Eu? No, no acredito. Quer dizer como ama, quando o doutor se casar e tiver filhos? Quando isso acontecer, eu j terei acabado os meus estudos e estarei a trabalhar
sabe Deus onde.

Finalmente, chegou o momento das despedidas. Os gmeos abraaram-na e deram-lhe um embrulho, pedindo-lhe que o abrisse.


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- Foram eles que o escolheram - informou-a a senhora Ingram, a jeito de pedido de desculpas.

Era um estojo com um creme facial, um baton e um frasco de perfume.

- Como no s muito bonita - explicou-lhe Peter, pensmos que essas coisas te ajudariam. Pelo menos, foi o que a empregada da loja nos disse.

-  exactamente aquilo que sempre desejei - afirmou Araminta, entusiasmada. - Muito obrigada, vocs so uns amores. Pretendo us-lo todos os dias.

Por fim, entraram no carro. Todos se despediram dela, excepto o doutor, que se limitou a acenar-lhe do assento do condutor sem a olhar.

Araminta jantou cedo e decidiu ir deitar-se. "Com certeza", pensou, "o doutor vai passar a noite em casa da irm". No entanto, ao subir as escadas, ouviu-o chegar.

- Menina Pomfrey - chamou-a ele, - importa-se de vir ao meu escritrio?

Ela obedeceu-lhe sem hesitar e sentou-se numa cadeira em frente  secretria.

- J recebeu a carta do hospital, no ? Briskett ir lev-la a casa amanh. Imagino que esteja ansiosa por voltar. Com certeza, na carta dizem-lhe onde e quando
tem que se apresentar.

- Sim, obrigada. No  necessrio que Briskett me acompanhe... - protestou.

- Peo-lhe que lhe diga a que horas quer partir, menina Pomfrey. Vejo-a antes de se ir embora. Presumo que queira ir descansar, portanto, no lhe roubo mais tempo.

- Sim, sim, claro. Boa noite, doutor.

Passou a noite acordada e, quando desceu para tomar o pequeno-almoo, Briskett disse-lhe que o doutor tivera que sair e que indicara que no esperassem por ele.


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Araminta serviu-se de vrias chvenas de caf, mergulhada na mais profunda melancolia. Nem sequer podia despedir-se de Marcus. De repente, ocorreu-lhe que ele podia
ter sado mais cedo para a evitar, talvez porque adivinhara que estava apaixonada por ele... Diante daquela terrvel perspectiva, disse-se que era melhor sair o
mais depressa possvel daquela casa.

Chegaram a Humbledon por volta do meio-dia. Briskett tirou a sua bagagem do carro e acompanhou-a  porta.

- Parece que no est ningum em casa - observou.

- Os meus pais esto no Pas de Gales, num congresso. Uma prima ficou a tomar conta da casa...

Briskett entrou primeiro e viu de imediato um bilhete sobre a mesa do vestbulo que dizia: Fui passar alguns dias com Maud. Maud era uma amiga da prima Millicent.
Boa sorte no teu novo emprego.

- Onde quer que ponha a sua mala, menina? No seu quarto?

- Sim, obrigada,  o primeiro  esquerda do andar de cima. Quer tomar uma chvena de ch? Convidava-o para almoar, mas no sei se h alguma coisa...

- O ch  suficiente, menina.

Enquanto levava a bagagem para o andar de cima, Briskett constatou que aquela casa era muito bonita e continha alguns mveis valiosos. No entanto, apesar de estar
bem conservada, dava a impresso de que no era habitada. No lhe agradava deixar a menina Pomfrey ali sozinha, mas no podia fazer nada para o evitar.

Desceu para a cozinha, que era um lugar um bocado antiquado, mas agradvel, e viu-a a fazer o ch.

- Encontrei uma caixa de bolachas - disse-lhe ela, entusiasmada. - Acha que chegar a tempo para o almoo?


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- Claro, no se preocupe - naquele momento, Querubim entrou pela janela da cozinha e ps-se a contemplar Araminta. - Que gato to bonito!  seu?

- . Damo-nos muito bem. Isso faz-me lembrar de que vou ter saudades de Humphrey.

- Ele tambm vai sentir a sua falta, com certeza.  uma pena que o doutor no tenha podido despedir-se de si... na verdade, trabalha mais horas do que um relgio.

Quando Briskett se foi embora, Araminta foi para o seu quarto desfazer a mala e separar o que ia levar para o hospital. Mais tarde inspeccionaria a cozinha para
ver o que  que podia comer.

O doutor chegou muito tarde a casa, naquele dia.

- Boa noite, doutor - cumprimentou-o Briskett. - O jantar est pronto.

- Obrigado. Acompanhou a menina Pomfrey a casa?

- Sim, doutor.  uma jovem muito simptica. No me agradou ter de a deixar numa casa to vazia. Os pais esto no Pas de Gales e a prima que vive com eles foi passar
alguns dias fora. O nico que estava l para a receber era o gato.

O doutor ficou perturbado ao ouvir aquilo, mas no fez nenhum comentrio.

- A casa  muito bonita - prosseguiu Briskett. - Pequena, mas com bons mveis.  uma pena que no estivesse l ningum - o doutor continuou em silncio. Tommos
uma chvena de ch. A menina Pomfrey estava preocupada com a possibilidade de eu no chegar a tempo do almoo.

- Foi ela que lhe disse que a prima tinha viajado?

- No, senhor. Li o bilhete que lhe deixou no vestbulo.

- Estava contente?


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- Eu no diria isso... - hesitou um momento antes de completar: - Pensei em voltar a traz-la, mas no me pareceu apropriado.

- Fez muito bem, Briskett. A menina Pomfrey comea amanh os seus estudos no hospital de St. Jules e suponho que, at l, a prima j tenha voltado.

O doutor foi para o escritrio, mas, uma vez ali, no conseguiu concentrar-se no trabalho. Sentia a falta dela, embora no soubesse muito bem porqu: no era bonita
e vestia roupas horrorosas. "s vezes", lembrou-se, "tem uma lngua muito afiada, mas a verdade  que tem uma voz muito bonita, alm de ser terna e paciente. E os
seus olhos tambm so bonitos".

Agarrou a caneta com fora, a tentar convencer-se de que aquele sentimento de perda era apenas temporrio, que o que estava a acontecer era perfeitamente normal.
Afinal de contas, aquela mulher fizera parte do seu lar durante algum tempo. Era natural que sentisse a falta dela. Com certeza, esquec-la-ia em duas semanas.

Jantou  hora do costume, dizendo-se que ia ser maravilhoso trabalhar sem ser incomodado pelas vozes dos sobrinhos... e pela de Mintie a mand-los estar calados.

Contudo, quando se sentou  secretria, foi incapaz de escrever uma palavra. S pensava em Araminta, sozinha em casa. Levantou-se para ir dar um passeio antes de
se deitar e, quando finalmente foi para a cama, no conseguiu conciliar o sono.!

Araminta comeu um ovo escalfado e um pouco de fiambre. Deu de comer a Querubim, ps a mquina de lavar roupa a funcionar e comeou a preparar a sua bagagem. Tinham-lhe
dito que devia apresentar-se no hospital s duas horas do dia seguinte. Como no sabia quando a prima voltaria, foi pedir  vizinha, a senhora


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Thomas, que se encarregasse de alimentar o gato at Millicent regressar.

- No te preocupes, querida - sossegou-a a senhora.

- Eu tomarei conta dele.

- D-me pena deix-lo sozinho - confessou-lhe ela,

- mas no posso lev-lo comigo.

- A tua prima partiu ontem de manh. Presumo que no demore muito a voltar, assim como os teus pais...

- Sim, s no sei quando.

 tarde, a me telefonou-lhe.

- Imaginei que estivesses em casa - disse-lhe. - Deves estar ansiosa por comear a trabalhar no St. Jules. Como vs, tnhamos razo: no houve nenhum problema por
teres aceitado o trabalho e teres-te atrasado um pouco. Vais ver como depressa te adaptars. Eu e o teu pai voltaremos em breve, embora no saibamos ao certo quando.
As conferncias foram um sucesso. A propsito, Millicent est em casa?

Contudo, antes que Araminta pudesse responder, a sua me comeou a fazer uma descrio pormenorizada dos objectos celtas que vira no Pas de Gales e, depois, despediu-se
bruscamente.

O hospital de St. Jules era muito antigo e, embora tivesse sido alvo de vrias reformas e ampliaes ao longo dos anos, continuava a ter um ar sinistro. O hall de
entrada era muito grande e estava decorado com os retratos dos mdicos mais eminentes que tinham trabalhado ali.

Assim que entrou, foi avisada de que, como estudante, no podia usar a escadaria principal, por isso encaminhou-se para a ala das estudantes por um corredor estreito
que partia do lado oposto do vestbulo.

Quase de imediato, viu uma porta com uma placa


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que dizia Gabinete. Bateu discretamente e, quando entrou, deparou-se com uma mulher de meia-idade, muito plida, vestida com um uniforme castanho.

- Araminta Pomfrey? Feche a porta. Daqui a pouco, irei lev-la ao seu quarto. Pode pr l as suas coisas antes de ir ver as outras dependncias - fez uma pausa para
procurar um papel. - Esta  a lista das regras internas. Se quiser, quando terminar o seu primeiro ano como residente, pode viver fora do hospital. No  permitido
fumar nem consumir bebidas alcolicas, nem receber visitas masculinas - interrompeu-se outra vez para procurar outro formulrio. - Vejo que tem vinte e trs anos...
no  demasiado velha para comear? - comentou, antes de lhe fazer um verdadeiro interrogatrio. -  casada? Os seus pais ainda so vivos...? Bem, acho que  tudo.
Vou acompanh-la ao seu quarto.

Subiram mais um lance de escadas e percorreram um corredor comprido que dava acesso a vrios quartos. A mulher abriu uma porta e disse-lhe:

- Aqui tem a chave. Tem que fazer a cama e manter o quarto limpo.

O quarto era pequeno e um bocado escuro, mas estava bem mobilado e as cortinas e o edredo eram muito alegres. Alm disso, tinha uma casa de banho privativa e um
roupeiro encastrado.

- Como  que devo cham-la? - quis saber Araminta. -  enfermeira?

- Sou a vigilante, a menina Jeff - olhou para o relgio. - Esteja no meu gabinete daqui a dez minutos para ir falar com a directora.

Quando ficou sozinha, Araminta tirou o casaco e retocou o penteado. Satisfeita, constatou que a sua saia e a sua blusa continuavam com um aspecto impecvel, assim
como os sapatos. Fechou a porta  chave e foi ter com a menina Jeff.


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O gabinete da directora era muito espaoso, com enormes janelas cobertas por cortinados de veludo, alcatifa fofa e uma secretria impressionante. A mulher que a
esperava era alta e bem parecida e usava um conjunto elegante. Depois de lhe apertar a mo, comunicou-lhe que tivera sorte em ser admitida.

- O doutor Van der Breugh intercedeu a seu favor. Disse-me que teve de retardar a sua entrada para o ajudar numa emergncia familiar.  uma sorte ter um padrinho
to influente - comentou, com um sorriso. - Espero que seja feliz aqui. Ter que trabalhar muito, claro, mas tambm poder fazer amizades. Embora seja um pouco mais
velha do que as outras estudantes, no acredito que isso constitua problema.

Quando voltou para o seu quarto, Araminta desfez a mala e examinou o uniforme de algodo s riscas azuis e brancas que lhe tinham deixado em cima da cama.

A menina Jeff dissera-lhe que estivesse no bar s quatro horas para tomar o ch. Tratava-se de um salo grande, situado na cave do hospital. Quase todas as mesas
estavam ocupadas, de modo que Araminta ficou parada por um momento com a bandeja nas mos, sem saber para onde ir.

- s nova aqui, no s? - Araminta virou-se. A rapariga que estava a falar com ela era muito alta e usava um uniforme igual ao seu. - Vem sentar-te ao p de ns.
As que usam uniforme azul-escuro so enfermeiras e as de azul-claro, auxiliares. No te sentes ao p delas.

Conduziu-a a uma mesa ao fundo da sala.

-  uma colega nova - comunicou s raparigas que estavam ali sentadas. - Como  que te chamas?

- Araminta Pomfrey.

Algumas raparigas desataram a rir-se.

- Que nome! Duvido de que a tua tutora simpatize com ele.


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Toda a gente me trata por Mintie.

Isso soa muito melhor. Senta-te e toma o ch connosco. J sabes que turno vais fazer amanh?

No. A quem  que tenho de perguntar?

- A ningum; est afixado no quadro dos anncios, l fora. J desfizeste as malas? O jantar  s oito. Se me disseres em que quarto ests, irei chamar-te.

Muito obrigada.

- Chamo-me Molly Beckett - apresentou-se a rapariga, a estender-lhe a mo. - Esta  Jean, a do canto  Sue... - prosseguiu at lhe apresentar todas as raparigas
presentes. - Fomos destacadas para alas diferentes, mas juntamo-nos nas aulas e conferncias - explicou-lhe em seguida. - Neste momento, estamos de planto, mas
eu termino s seis. Se quiseres, podemos ir contigo ver a escala.

Todas a olharam com compaixo ao verem o nome da tutora que lhe tinham atribudo.

- Baxter! - exclamou Molly. - No quero assustar-te, mas  melhor no a contrariares, Mintie.  muito severa e, se no simpatizar contigo, pode fazer com que te
expulsem.

Araminta voltou para o quarto e ps algumas fotografias na secretria antes de se sentar a reflectir. No fazia a mnima ideia de como ia ser a sua vida no hospital,
mas no lhe agradava ter de lidar com algum to implicante como a enfermeira Baxter, ou dona cida, como a chamavam as estudantes. Estas ltimas, em contrapartida,
pareciam-lhe muito simpticas. Por outro lado, teria algumas horas livres por dia e podia ir passar os fins-de-semana a casa. Perguntou-se o que  que o doutor estaria
a fazer e se sentia saudades dela... embora fosse improvvel. Prometeu-se esquec-lo rapidamente. No consentia que o que sentia por ele interferisse nos seus estudos.


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Molly foi cham-la passado um bocado e, como ainda no estava na hora do jantar, aproveitou para lhe mostrar as instalaes.

- Vais ter duas tardes livres por semana, mas o mais provvel  que estejas muito cansada para fazeres o que quer que seja. Tambm vais ter algumas horas livres
de manh ou  tarde. Os dias livres so uma questo de sorte, depende da tua tutora...

 hora do jantar, o bar estava cheio. Araminta comeu um prato de carne estufada com salada e uma ma assada e, depois de tomar uma bica, foi para a sala de recreio.
Molly sara para aproveitar o resto da sua tarde livre e, como no encontrou nenhuma das raparigas que conhecera  hora do ch, decidiu ir para o quarto, tomar banho
e deitar-se.

No parava de repetir para si mesma que as coisas melhorariam no dia seguinte e que s estava nervosa com a mudana que se produzira na sua vida. Permaneceu acordada
durante muito tempo, a pensar no doutor e a tentar convencer-se de que, assim que comeasse a trabalhar, deixaria de pensar nele.

Naquele momento, Marcus Van der Breugh estava a jantar com alguns amigos. No entanto, mal prestava ateno  conversa, pois no conseguia parar de se perguntar o
que seria que Mintie estava a fazer. Dissera-lhe que no acreditava que tivesse sido feita para ser enfermeira e receava que a sua intuio estivesse certa. Talvez
fosse por isso que no conseguia parar de pensar nela.


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Deitada na cama no fim do seu primeiro dia no hospital de St. Jules, Araminta tentava esquecer as coisas que lhe tinham corrido mal, repetindo-se vezes sem conta
que era aquela carreira que queria seguir. Acontecesse o que acontecesse, no desistiria.

Infelizmente, comeara da pior forma. O hospital era enorme, com corredores compridos e muitas escadarias. Araminta perdera-se assim que pusera os ps fora do quarto
e, em vez de se encaminhar para o gabinete da sua tutora, fora parar  ala mais afastada do hospital. Consequentemente, chegara atrasada  entrevista.

- Est atrasada - acusou-a de imediato a mulher. Porqu?

- Perdi-me -justificou-se Araminta.

- Que parvoce! Fique a saber que exijo que as minhas alunas sejam pontuais. Teve alguma aula prtica de enfermagem antes de vir para aqui?

Araminta falou-lhe da sua experincia no hospital peditrico, mas no mencionou o seu trabalho como ama.

- Ter que se esforar para atingir o nvel das outras alunas. No tenho tempo para perder consigo, portanto, espero que aprenda depressa - Araminta assentiu de


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modo submisso. - Se no conseguir, ter que se ir embora.

Araminta concluiu que a alcunha que lhe tinham posta, dona cida, lhe assentava como uma luva. "Talvez", pensou, "tenha sofrido alguma desiluso amorosa quando era
nova e seja por isso que  to amarga".

A ala onde ia trabalhar situava-se na parte mais antiga do hospital. Era uma sala enorme, com duas fileiras de camas ocupadas por mulheres de todas as idades. Viu
duas enfermeiras a fazerem as camas, mas elas no lhe prestaram ateno. Finalmente, encontrou a encarregada daquele andar. Esta, depois de a cumprimentar rapidamente,
mandou-a ir fazer as camas juntamente com uma enfermeira, atirando-a, como se costuma dizer, aos lees.

Araminta quase no se lembrava do que acontecera naquela manh. Teve de fazer camas, servir refeies e ajudar uma infinidade de pacientes a levantar-se. No entanto,
apesar de no parar um minuto, nunca conseguia desembaraar-se a tempo.

- s nova aqui, no s? - perguntou-lhe uma paciente idosa. - No pareces to manhosa como as outras...

S pde sentar-se por um momento quando foi almoar. As outras estudantes consolaram-na com carinho.

- O problema  que s nova e ningum tem tempo de te ensinar nada. Hoje sais s seis, no ? Lembra-te de que esta tarde tens de ir s aulas. Nem sequer a dona Acida
pode impedir-te de ir.

Araminta adorou as aulas, embora tivesse conscincia de que ia ter dificuldades para as acompanhar.

- Pea os apontamentos a uma colega - indicou-lhe a professora. - Tem de copiar as aulas a que faltou Araminta pensou, desanimada, que levaria dias a fazer aquilo.


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No fim da primeira semana, teve de reconhecer que aquilo no tinha nada a ver com o que imaginara. Segundo a dona cida, era uma aluna lenta e preguiosa e perdia
muito tempo com os pacientes. Repreendeu-a por se entreter a levar-lhes revistas e a ver as fotografias que lhe mostravam dos filhos ou netos. O mais frustrante
era que tinha de ficar naquela seco durante, pelo menos, trs meses.

Quando o fim-de-semana chegou, apressou-se a ir para casa. No se apercebeu de que o doutor Van der Breugh a viu partir pela janela do consultrio onde estava a
trabalhar.

Durante aquela semana, Marcus surpreendera-se muitas vezes a pensar nela. Por um segundo, pensou em cham-la e oferecer-se para a levar a Humbledon; porm, decidiu
pr aquela ideia de lado. No entanto, no pde resistir  tentao de perguntar por ela a um dos mdicos residentes.

- Ah, sim! J sei de quem ests a falar.  muito boa rapariga, mas ter que se esforar muito para atingir o nvel das outras. Est sob a tutela da Baxter... e tu
sabes como  que a dona cida trata as novatas. J a vi repreend-la uma srie de vezes. Aquela mulher at a mim me d medo! - comentou o seu amigo, risonho.

Araminta chegou a casa a meio da manh e encontrou Millicent e Querubim  sua espera. Enquanto tomavam um caf, contou  prima como fora a sua primeira semana no
hospital.

- A tua me telefonou no outro dia - informou-a Millicent. - Pelos vistos, vo estar ocupados durante algum tempo a examinar novos achados celtas. Disse-me que no
voltaro to cedo...

- Espero que voltem antes do Natal...


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- Claro que sim! Ainda estamos em outubro. J sabes se vais ter frias?

- Penso que no - respondeu-lhe Araminta, a abanar a cabea. - Mas vou pedir para me deixarem gozar os meus dias de folga o mais perto possvel do Natal.

- Gostas do hospital? Ests satisfeita? Araminta assegurou-lhe que sim.

O fim-de-semana passou muito depressa e Araminta voltou para o St. Jules disposta a dar o seu melhor.

Infelizmente, a enfermeira Baxter no parava de implicar com ela. Molly avisara-a de que aquela mulher era capaz de fazer a vida negra a qualquer pessoa e a pobre
Araminta j comeara a tomar conscincia de que era verdade. Parecia que no fazia nada como devia ser e era repreendida por tudo e por nada.

Procurava no pensar no assunto, mas a nica coisa que a consolava era a simpatia das pacientes. A encarregada da sala tambm a tratava muito bem, assim como dois
estudantes do ltimo ano. Em contrapartida, a companheira que lhe tinham atribudo no fazia nenhum esforo para lhe facilitar as coisas.

Melanie era uma rapariga baixinha, muito bonita e esperta, que cara nas boas graas da enfermeira Baxter, razo pela qual os seus descuidos e a antipatia com que
tratava os pacientes passavam despercebidos. Tinha apenas dezanove anos e, desde o incio, deixou bem claro que Araminta no devia esperar nada dela.

- No tens nada melhor para fazer do que falar com os mdicos? - ironizou maldosamente certo dia, ao encontr-la a falar com um dos mdicos. - Foi para isso que
vieste para aqui? Para caares um marido? Vais ver como elas mordem se a dona cida te vir.

- Ora essa! Ele s estava a perguntar-me onde  a sada! - defendeu-se Araminta, estupefacta.

- Que bela desculpa! - troou Melanie.


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Araminta consolou-se, pensando que tinha os dois dias seguintes livres. Como naquela tarde saa s seis, decidiu ir directamente para a estao. Assim, chegaria
a casa antes das nove.

A tarde pareceu-lhe interminvel, mas, finalmente, as seis horas chegaram e ela pde ir pedir autorizao para sair  enfermeira Baxter, que mal levantou a vista
do relatrio que estava a escrever.

- Mudou a cama do fundo do corredor? Tambm tem de arrumar o armrio - declarou. - J o devia ter feito. Pedi  enfermeira Jones que lhe dissesse. A culpa  sua;
nunca ouve o que lhe dizem. Faa-o antes de sair de licena.

- Ningum me disse nada, enfermeira respondeu-lhe educadamente Araminta. - Hoje saio s seis...

A dona cida lanou-lhe um olhar fulminante.

- Vai fazer o que lhe mandei, minha menina. Como  que se atreve a ripostar dessa maneira? Amanh de manh, informarei a directora da sua conduta e aconselh-la-ei
a expuls-la. Se eu no consigo fazer com que obedea, ningum conseguir.

Cabisbaixa, Araminta saiu do gabinete e, sem contar nada do que acontecera a Melanie nem  outra estudante que estava na sala, comeou a fazer o que a enfermeira
lhe ordenara. Reprimiu as lgrimas com dificuldade e prometeu que, assim que voltasse de casa, iria falar com a directora e pedir-lhe para a mudar de seco. No
acreditava que servisse de alguma coisa, mas tinha que tentar.

Eram quase sete horas quando acabou de fazer o que lhe tinham mandado. Despediu-se carinhosamente das pacientes e atravessou o corredor em direco  escadaria de
pedra que levava ao primeiro andar. Ainda no decidira se iria para casa naquela noite ou esperaria at ao dia seguinte. Estava muito irritada e deprimida para


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pensar com clareza. Nada estava a correr como ela esperara. Nem sequer fora capaz de parar de pensar no doutor Van der Braugh. As saudades eram tantas que chegavam
a ser dolorosas.

Na nsia de chegar ao quarto para poder chorar  vontade, no viu o doutor e foi contra ele.

- Oh! - exclamou e, sem pensar duas vezes, rodeou-lhe o pescoo com os braos e deu rdea solta ao choro.

Ele abraou-a e esperou pacientemente at ela se acalmar um pouco.

- Problemas? - indagou finalmente.

- Sim! No faz ideia de como estou desesperada! contar-lhe o que se passava pareceu-lhe a coisa mais natural do mundo. O prazer de se encontrar com ele quando mais
precisava da sua ajuda f-la esquecer a resoluo de o esquecer.

- Venha comigo - indicou-lhe o doutor, a gui-la para uma sala no outro extremo do corredor.

- No posso entrar aqui! - protestou Araminta. -  a sala dos mdicos. No  permitido...

- Eu sou mdico e dou-lhe permisso para entrar. Sente-se, Mintie, e conte-me o que se passa. Limpe a cara - estendeu-lhe um leno, - e comece pelo princpio.

Ela obedeceu-lhe, sem esconder nenhum detalhe.

- E agora vo expulsar-me concluiu. - Fui muito grosseira com a enfermeira Baxter. Ela disse-me que no tenho capacidade para ser enfermeira - confessou-lhe, antes
de se assoar ruidosamente. - No sei porque  que me comportei daquela maneira... acho que ela tem razo, no fui feita para isto... No me importa
- acrescentou, com ar de desafio, - posso dedicar-me a outra actividade qualquer...

O doutor no fez nenhum comentrio.
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- Espere na sala das enfermeiras at eu a chamar limitou-se a dizer. - No, no me pergunte nada. Mais tarde explico-lhe tudo.

O doutor levantou-se e dirigiu-se para o gabinete da directora. Ficou ali durante um grande bocado, a usar todo o seu poder de persuaso para conseguir o que tinha
em mente.

Araminta encontrou-se com as colegas na sala das enfermeiras.

- Ainda no te foste embora? - perguntou-lhe Molly.

- Senta-te aqui - convidou-a, ao v-la to abatida. - Estvamos a pensar em ir ao supermercado da esquina comprar batatas fritas.

- Eu pretendia ir passar o fim-de-semana a casa - revelou-lhe Araminta, devagar, - mas dei uma m resposta  dona cida e acho que vou ser expulsa - sentia-se como
uma criana repreendida pela professora.

- No te preocupes, Mintie - acalmou-a Molly. Vais ver que quando voltares na segunda-feira, j estar tudo resolvido.

- No acredito nisso - Araminta abanou a cabea. Sabes, Molly? Acho que ela tem razo. No sou muito eficiente. Sou muito lenta. Gosto de dar ateno aos pacientes
e, para isso,  preciso tempo...

- No s muito feliz aqui, pois no?

- Para ser sincera, no. Acho que o melhor  ir ao gabinete da directora e dizer-lhe que me vou embora.

- Porque  que no tentas mais uma vez? - indagou outra rapariga, mas, antes que Araminta pudesse responder-lhe, uma enfermeira carrancuda entrou na sala.

- Menina Pomfrey, esperam-na na sala dos mdicos

- informou-a.

- Mintie! - exclamou Molly. - O que  que se passa? Porque  que tens de ir  sala dos mdicos?

- Conto-te quando voltar - prometeu-lhe.


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O doutor Van der Breugh estava  sua espera no meio da sala.

- J decidiu o que quer fazer? - inquiriu.

- J, vou desistir. Espero que no me instaurem nenhum processo.

- E o que  que vai fazer depois?

- Muito obrigada pelo seu interesse, doutor - agradeceu-lhe ela, com voz trmula. Irei para casa e tentarei arranjar outro emprego. Talvez possa voltar para o hospital
peditrico.

No entanto, sabia que tinham contratado outra pessoa para o seu lugar e que os seus servios j no eram necessrios.

- Sinto-me um pouco responsvel pelo que est a acontecer, j que fui eu que a convenci a ficar a tomar conta dos meus sobrinhos. Devia ter imaginado que depois
lhe custaria muito a apanhar as outras estudantes. Alm disso, a enfermeira Baxter... - aproximou-se mais dela. - Sente-se, Mintie, quero fazer-lhe uma proposta,
embora seja possvel que j no confie em mim. Um dos meus pacientes tem um filho que  director de um colgio interno em Eastbourne. No outro dia, disse-me que
esto a precisar de uma auxiliar de enfermagem, pois a que tinham teve que se ausentar para tomar conta da me e no sabem quando voltar. S voltei a pensar nisto
quando a vi, h bocado. O que  que acha? Ter de ir a uma entrevista, mas parece-me que  um trabalho que lhe agradar.

- Com crianas? - perguntou-lhe, entusiasmada. No deve dizer que no confio em si - acrescentou rapidamente. - Agradeo-lhe muito por tudo o que fez por mim.

- Quer que marque uma entrevista? - interrogou-a o doutor.

- Sim, acho que  um trabalho que posso fazer bem... Gosto muito de lidar com crianas.


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Sim, eu sei. Fui falar com a directora. Ela assegurou-me que no ter nenhum problema para se ir embora, apesar de ter de se demitir oficialmente. Vou telefonar
ao meu paciente para que o filho dele entre em contacto consigo. Amanh de manh prosseguiu, enquanto lhe abria a porta, irei lev-la a casa. Virei busc-la s dez
horas.

- No  necessrio, doutor...

- Sim, eu sei, mas agora no temos tempo para discutir o assunto. Por favor, Mintie, faa o que lhe digo.

Se a tivesse tratado por menina Pomfrey, ela no lhe teria obedecido, mas mostrara-se to gentil que lhe foi impossvel deixar de o fazer. Alm disso, amava-o e
faria qualquer coisa para lhe agradar.

- Est bem, doutor - assentiu. - Boa noite.

Saiu da sala muito mais animada. Foi falar directamente com a directora, que lhe passou um pequeno sermo e a aconselhou a procurar um trabalho mais adequado s
suas capacidades, antes de lhe dar autorizao para se ir embora.

Pode deixar o uniforme no seu quarto. No precisa de falar com a enfermeira Baxter. Tenho a certeza acrescentou, a estender-lhe a mo, de que vai encontrar o que
procura.

Quando Araminta saiu, a directora pensou que no faria uma coisa daquelas por ningum, excepto pelo doutor Vander Breugh, um mdico que ela respeitava e admirava
como a poucos.

As colegas de Araminta estavam  sua espera, impacientes.

- E ento? O que foi que aconteceu? - quis saber Molly.

Vou-me embora amanh de manh anunciou ela.

No podes fazer isso! Tens de escrever um relatrio a explicar as tuas razes.


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Araminta decidiu explicar-lhe o que acontecera.

- Bom... no pude comear ao mesmo tempo que vocs porque tive de aceitar um emprego no estrangeiro. Nunca vos disse, mas quem me contratou foi o doutor Van der
Breugh. Aceitei tomar conta dos sobrinhos dele com a condio de que ele tratasse de tudo para eu poder ingressar no hospital. Infelizmente, as coisas no correram
como eu esperava e ele ofereceu-se para interceder a meu favor diante da directora.

- E o que  que vais fazer agora? perguntaram-lhe.
- Procurar outro hospital, outro trabalho...?

- Vou para casa.

- O doutor Van der Breugh fez muito bem em ajudar-te - opinou Molly. - Presumo que se sinta um pouco responsvel.

Sim. Ele disse-me que no acreditava que tivesse jeito para enfermeira, mas eu no lhe prestei ateno. Agora tenho de comear de novo.

- Se te vais embora amanh, tens de fazer as malas. Ns vamos ajudar-te.

Demoraram muito pouco tempo a arrumar tudo. A seguir, Araminta foi falar com a dona cida. Esta passou-lhe um sermo que lhe entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Jantou com as amigas e ficou a conversar com elas enquanto tomavam um ch. Teria muito tempo para pensar no que ia fazer no dia seguinte, quando voltasse para casa.

Levantou-se muito cedo, ansiosa por rever o doutor. Pressentia que aquela seria a ltima vez que o veria. Ele ajudara-a tanto que decidiu aceitar o emprego em Eastbourne,
caso lho oferecessem.

Vestiu-se e foi tomar o pequeno-almoo com as amigas. Pouco antes das dez, pegou na mala e desceu para esperar pelo doutor. Apesar de no ter sido feliz no hospital,
lamentava ter de se ir embora.


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O doutor chegou  hora marcada, cumprimentou-a e guardou a bagagem no porta-malas sem dizer nada, com receio de que ela recomeasse a chorar.

- Primeiro vamos tomar um caf a minha casa. Briskett quer despedir-se de si - explicou-lhe. - Marquei-lhe uma entrevista com o senhor Gardiner, o director do colgio,
para esta tarde, s trs horas. Ele espera-a no hotel Leo Vermelho, em Henley. Pergunte por ele na recepo.

Briskett saiu de casa para a receber, encantado por tornar a v-la.

Tomaram o caf na sala de estar, enquanto conversavam sobre banalidades. O doutor disse-lhe que os gmeos estavam muito bem. Vira-os no fim-de-semana anterior e
estavam a pensar em irem passar o Natal a Frsia todos juntos.

- Mandaram-lhe lembranas, Mintie. Sentem muito a sua falta.

No lhe confessou que ele tambm sentia. Sabia que o melhor era ir devagar e deixar que ela comprovasse por si mesma que podia ser bem sucedida profissionalmente.
Finalmente, apercebera-se de que ela era a pessoa mais importante do mundo para ele. Amava-a. Custara-lhe muito a encontrar uma mulher a quem pudesse amar e desejava
do fundo do corao que ela retribusse os seus sentimentos. Por isso  que se mostrava to cauteloso.

Levou-a a Humbledon onde, mais uma vez, se depararam com a casa vazia. Ao contrrio de Briskett, o doutor leu abertamente o bilhete que Millicent deixara a dizer
que ia passar o dia inteiro em Kingston a fazer compras.

"Briskett", pensou, "tinha razo ao descrever esta casa como sendo elegante, mas fria".

- No importa - declarou Araminta, enquanto


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dobrava o bilhete. - Tenho muito que fazer. Se me oferecerem o trabalho, terei de partir daqui a pouco tempo.

O doutor desejava convid-la para almoar, mas sabia que ela no aceitaria. Na hora da despedida, quando ela lhe agradeceu por lhe ter ajudado a arranjar outro emprego,
limitou-se a desejar-lhe boa sorte, sem mencionar a possibilidade de voltarem a ver-se. Disse-se que tentaria faz-lo no futuro.

Araminta ficou com o corao partido ao v-lo afastar-se. Por sorte, dali a menos de trs horas teria de ir  entrevista. At l, tinha muitas coisas para fazer.

No teve um segundo de descanso para pensar no que acontecera. Passou a tarde a lavar e a passar, enquanto ouvia a tagarelice de Millicent.

O senhor Gardiner no perdeu tempo. Era um homem de meia-idade, calmo e taciturno, que lhe fez algumas perguntas e ficou satisfeito com as suas respostas. Precisava
de uma auxiliar que ajudasse a enfermeira a atender os cinquenta alunos do colgio. Depois de ler atentamente as suas referncias, declarou que lhe pareciam satisfatrias.

- De qualquer modo - acrescentou, - os meus pais disseram-me que o doutor Van der Breugh, que lhes deu ptimas referncias de si,  um homem digno de confiana.
Quando  que pode comear? - quis saber, depois de lhe dizer quanto ia ganhar. - Amanh, talvez? perguntou-lhe, esperanoso.

"Quanto mais depressa, melhor", pensou Araminta.

- Claro! - assentiu. - Mas s chegarei  tarde, porque tenho de resolver algumas coisas.

- Com certeza. Esperamo-la  hora do ch. Apanhe um txi na estao, que ns pagamo-lo. No tem uniforme, pois no? Vou pedir  enfermeira para lhe arranjar um.


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Felizmente, quando chegou, Millicent j estava em casa, de modo que pde dedicar-se a preparar as suas coisas. Mais tarde, telefonou  me para lhe contar as novidades.

- Que ptima ideia! - exclamou ela, satisfeita. - Tu gostas tanto de crianas...  uma pena no poderes ficar com os sobrinhos do doutor Van der Breugh, mas tenho
a certeza de que vais ser muito feliz em Eastbourne. Voltaremos para casa em breve - prosseguiu, - depois poderemos fazer planos para o Natal. Temos muito trabalho
de investigao para fazer e os editores querem que o livro seja publicado na Primavera... acho que vamos ter de passar algum tempo na Cornualha. Fizeram umas descobertas
interessantssimas em Bodmin...

Araminta tinha pena de deixar Querubim em casa. Perguntou-se se a deixariam t-lo na escola e concluiu que dependeria da enfermeira com quem ia trabalhar.

O colgio ficava  beira-mar. Era um edifcio muito grande, rodeado de um jardim e de campos de desporto. Alm disso, tinha uma piscina coberta.

Foi recebida por uma jovem muito simptica que a levou ao escritrio do senhor Gardiner. Este mostrou-se encantado com a sua presena e ofereceu-se para ir apresent-la
 enfermeira.

- Depois vou deixar-vos sozinhas para que se conheam melhor. As crianas vo jantar. Depois tero meia hora de recreio antes de irem para a cama. Presumo que a
enfermeira lhe indique hoje mesmo quais vo ser as suas funes.

A enfermeira tinha um quarto e uma sala de estar no primeiro andar, perto da enfermaria. Era uma mulher ainda jovem e muito simptica.

- Vamos ter muito trabalho - avisou-a. - Gostas de crianas? O senhor Gardiner disse-me que ests habituada a lidar com elas.


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Acompanhou Araminta ao seu quarto, que ficava ao fundo do corredor, no mesmo andar. Era muito grande e confortvel. Em cima da cama havia vrios uniformes.

Experimenta-os para ver se algum te serve - indicou-lhe a enfermeira. - O senhor Gardiner trata-me por enfermeira, mas o meu nome  Norma Pagett. Eu tratar-te-ei
da mesma forma diante das crianas, mas... fez uma pausa, sem saber como prosseguir.

- Quer tratar-me por Mintie? O meu nome  Araminta, mas ningum o usa. Eu posso trat-la por menina Pagett.

- Credo, no! Trata-me por Norma. Tenho a certeza de que vamos dar-nos muito bem.

Antes do jantar, explicou-lhe rapidamente em que consistia o seu trabalho. Quando viu as crianas, Araminta sentiu uma onda de alegria. Apesar de no ser completamente
feliz, pelo menos encontrara um trabalho adequado.

Mais tarde, enquanto tomava uma chvena de chocolate quente no quarto de Norma, voltou a repetir-se que aquilo era o que sempre desejara... contudo, sabia que trocaria
tudo para ver Marcus nem que fosse s uma vez.

Nos dias seguintes esteve to ocupada que no teve tempo para se lamentar. Felizmente, Norma era uma mulher muito organizada e competente, com experincia em tratar
de crianas. Era paciente e simptica e as crianas confiavam nela. Em pouco tempo, tambm comearam a gostar de Araminta, o que tornou o seu trabalho ainda mais
agradvel. "Oxal", dizia-se com frequncia, "conseguisse parar de pensar em Marcus". Na semana seguinte, comearam as frias do meio do trimestre. Como quase todas
as crianas iam passar o sbado, o domingo e a segunda-feira a casa, Norma props-lhe que se revezassem para tomarem conta das poucas que ficariam no colgio.


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- Eu partirei na sexta-feira  noite e voltarei no domingo de manh para te render. Podes voltar s na segunda-feira  tarde. As crianas s chegaro  hora do ch
e o senhor Gardiner no se importa que nos ausentemos, desde que uma de ns fique c para tomar conta das crianas. No so muitas, s meia dzia.

- No tinha a inteno de ir a casa - confessou-lhe Araminta. - Se quiseres, posso...

- Obrigada, mas aconselho-te a aproveitar estes dias. Este trimestre  o pior de todos e precisas de descansar.

Apesar da sua vida atarefada, o doutor Van der Breugh arranjou tempo para telefonar  me do senhor Gardiner.

- Ainda bem que me disse que o seu filho precisava de uma auxiliar de enfermagem. Tenho a certeza de que a menina Pomfrey vai fazer um ptimo trabalho.

- Falei com ele ontem  noite - disse-lhe a senhora.
- Est muito satisfeito com ela. Pelos vistos,  muito competente, as crianas adoram-na e d-se muito bem com a enfermeira.  importante que as pessoas se dem
bem, no acha? Esta semana, as crianas esto de frias e a menina Pomfrey vai revezar-se com a enfermeira para poder ter alguns dias de descanso...

O doutor, que j descobrira o que queria, comeou a fazer planos.

Araminta ficou muito surpreendida ao receber uma carta na manh seguinte. No reconheceu a letra e, por um momento, pensou que fosse de Marcus. Teve de a abrir para
descobrir que era de Lucy Ingram.

Ela dizia que pedira o seu endereo ao irmo, porque queria convid-la a passar um fim-de-semana com os




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pequenos quando lhe conviesse. Os gmeos estavam ansiosos por v-la e, como estava de frias, Araminta podia aproveitar para ir visit-los. Lucy oferecia-se para
ir busc-la a Eastbourne.

Araminta telefonou-lhe naquela mesma tarde. Queria ver os gmeos e... saber notcias de Marcus. No entanto, no queria que a senhora Ingram tivesse de se deslocar
a Eastbourne.

- No se preocupe - disse-lhe Lucy, - pela auto-estrada no se demorar nada. Estarei a no domingo de manh. Estamos ansiosos por v-la.

A escola ficou muito vazia depois da partida das crianas. S oito ficaram ali. Araminta pediu ao senhor Gardiner para a deixar lev-las a uma feira perto dali,
para que se distrassem um pouco.

Passaram uma tarde maravilhosa. O senhor Gardiner deu-lhes autorizao para lancharem num dos melhores cafs da cidade e, quando chegaram  escola, tambm as deixou
ficar a ver televiso at  hora de irem para a cama.

Araminta estava quase to cansada como os pequenos, mas, antes de se deitar, preparou tudo para o dia seguinte, a rezar para que Norma voltasse  hora combinada.

De facto, a enfermeira chegou  hora marcada, quando eles estavam a sair da igreja. Araminta despediu-se rapidamente do senhor Gardiner e das crianas e correu para
a escola, onde a senhora Ingram j a esperava.

- Espero no a ter obrigado a esperar muito - desculpou-se Araminta.

- S cinco minutos.  to bom voltar a v-la, Mintie! Acho que talvez seja melhor almoarmos no caminho.


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Chegaremos a Oxford por volta das trs horas, por isso poderemos tomar o ch com os pequenos. Esto ansiosos por v-la.

- Obrigada por me ter convidado... no estava  espera.

- Gosta do seu novo trabalho? - a senhora Ingram conduzia a alta velocidade pela estrada deserta.

- Sim, muito. Como j deve saber, comecei a estudar enfermagem, mas no gostei. O doutor Van der Breugh intercedeu a meu favor para que me deixassem sair do hospital
e ajudou-me a arranjar este emprego. Estou-lhe muito grata.

- Sim, ele  encantador - a senhora Ingram olhou-a de soslaio.  uma pena que ande sempre to ocupado... ainda bem que podemos falar por telefone. Diga-me: o que
 que faz exactamente?

O trajecto pareceu-lhes muito curto. Passaram a viagem a falar dos mais variados assuntos e, s trs em ponto, a senhora Ingram estacionou o carro diante da sua
casa em Oxford, exactamente como previra.


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Peter e Paul receberam-na com exclamaes de alegria. Disseram-lhe que tinham sentido muito a sua falta e, depois, crivaram-na de perguntas. Ainda se lembrava das
palavras que aprendera a dizer em holands? Lembrava-se da loja de brinquedos? Porque  que vivia to longe? Quanto tempo ficaria ali? Sim, porque, segundo Peter,
tinham muitas coisas para lhe contarem, mas primeiro tinha de ir ao jardim ver os peixes multicolores.

Depois do lanche, sentaram-se a jogar s cartas.  noite, antes de irem para a cama, jantaram e sentaram-se  lareira a conversar sobre tudo, salvo Marcus.

Quando Araminta acordou, ainda no amanhecera.

-  muito cedo informou-a Peter. A dupla entrara silenciosamente no seu quarto e sentara-se na sua cama,
- mas como tens de te ir embora hoje, achmos melhor virmos acordar-te para podermos conversar.

O dia passou muito depressa. O tempo no lhes permitiu sair de casa, mas no se importaram, pois havia muito para fazer ali.

A meio da tarde, o senhor Ingram levou os filhos ao jardim para ver se os peixes estavam bem enquanto a sua esposa e Araminta conversavam sobre roupa.


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- Deve ser lindo... - estava a dizer Araminta, que se interrompeu bruscamente ao ver entrar o doutor.

Ele cumprimentou a irm com um aceno e olhou para Araminta. -Ol, Mintie! Ela respondeu-lhe com um sorriso luminoso:

- Boa tarde, doutor.

- Marcus, s maravilhosamente pontual - comentou Lucy, levantando-se para ir cumpriment-lo. - Estvamos a preparar-nos para tomar o ch.  uma pena que Araminta
tenha que se ir embora esta tarde.

O doutor consultou o relgio.

- Tem de ir tomar conta dos pequenos, no ? Se sairmos daqui s quatro horas, chegar a tempo.

Araminta olhou para a senhora Ingram, que se apressou a explicar-lhe:

- Marcus ofereceu-se para a levar. Afinal, vocs tm muito que conversar.

- Mas isso obriga-o a desviar-se do seu caminho - argumentou Araminta que, no entanto, estava encantada com a perspectiva de passar algumas horas com Marcus.

- Gostava de saber como esto a correr as coisas no colgio e tenho a certeza de que no conseguiremos conversar sossegados com os meus sobrinhos por perto.

De facto, assim que os pequenos entraram, atiraram-se ao tio e os adultos ficaram impossibilitados de estabelecer qualquer tipo de conversa. Tomaram o ch sentados
 mesa, repleta de braos de fatias de po, bolos, uma tarte caseira e bolachas de chocolate.

- Foram os pequenos que escolheram a ementa - revelou a senhora Ingram. - Com eles, tomamos sempre o ch  moda antiga e no posso dizer que me desagrade olhou para
o irmo. - Tiveste tempo de almoar, Marcus?

- Oh, sim! Hoje  o dia de folga de Briskett, mas ele deixa-me sempre o almoo feito.


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Passado um bocado, Marcus lembrou a Araminta de que, para estar no colgio s seis, tinham de partir imediatamente. Ela foi buscar a mala, vestiu o casaco e despediu-se
de todos.

- Araminta, tens de voltar a vir visitar-nos - disse-lhe o senhor Ingram.

Alm de lhe perguntar se estava bem instalada, o doutor no parecia ter nada a dizer-lhe. J estavam no carro h alguns minutos quando ele iniciou uma conversa insossa
sobre nenhum assunto em particular. Araminta, por sua vez, estava rgida como um pau. Dava a impresso de que ia saltar do carro a qualquer momento.

Mal lhe dirigira a palavra em casa da sua irm, embora ningum se tivesse apercebido disso, excepto ele, e agora comportava-se como se fossem dois estranhos. Na
realidade, Marcus decidira pedi-la em casamento naquela mesma tarde, mas, naquele momento, pareceu-lhe melhor no o fazer. Por alguma razo, Araminta preferia manter
as distncias, apesar de o ter abraado com emoo no hospital de St. Jules. "Talvez no queira continuar a ver-me, agora que arranjou um emprego que lhe agrada",
pensou Marcus.

Aps um momento passado em silncio, olhou-a e sentiu-se aliviado ao ver que o rosto dela recuperara a sua habitual serenidade. No entanto, adiou o momento de falar
at se dirigirem para sul, rumo a Eastbourne.

-  feliz no colgio? - perguntou-lhe de repente. Acha que poderia ficar l toda a vida ou encara o seu trabalho como uma coisa temporria? Como sabe, se quiser
pode voltar para o hospital.

- No, isso foi um erro. Espero poder ficar no colgio. A enfermeira vai-se embora no ano que vem e gostava de ficar no lugar dela. No me importava de ficar l
para sempre.

Araminta falava com firmeza, como se esperasse


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uma reaco contrariada da parte de Marcus. Para seu desgosto, no entanto, ele limitou-se a assentir.

- Acha que encontrou o seu lugar no mundo? - inquiriu ele, abruptamente. - No quer casar-se, ter um lar, marido, filhos...?

Araminta quase lhe confessou que era exactamente aquilo que queria, mas para qu? Onde  que ela ia encontrar um marido? Alm disso, o nico homem que desejava ter
como marido estava ali, ao seu lado.

- E o senhor, doutor, no deseja casar-se e ter filhos?

- Na verdade, desejo e espero fazer as duas coisas. "Espero que no o faa com Christina", pensou Araminta, "no seria feliz".

- Era giro.

Era uma resposta muito tola, mas que mais podia dizer? Tentou acrescentar mais alguma coisa, mas tinha a mente vazia. A sua lngua traioeira encarregou-se de improvisar
por conta prpria:

-  bonita? - perguntou-lhe e, quase de imediato, corou de vergonha.

O doutor reprimiu um sorriso.

- Acho que  a mulher mais encantadora do mundo declarou, sem emoo.

- Espero que seja muito feliz - disse-lhe Araminta, com dificuldade.

- Tenho a certeza de que serei. Paul e Peter esto ptimos, no acha?

Araminta achou que aquela mudana brusca de assunto no fora casual, o que s podia significar que Marcus no queria continuar a falar daquele tema.

Continuaram a falar de coisas sem importncia, o que lhes permitiu descontrarem-se um pouco.

O doutor no sabia o que havia de pensar. Araminta nunca lhe dera nenhuma prova de amor, mas estava na defensiva e parecia impaciente por impression-lo com


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os seus bem traados planos para o futuro. Ele queria dizer-lhe que a amava, mas no sabia como. Decidiu esperar mais uma semana.

Passado um bocado, chegaram aos arredores de Eastbourne.

- Faltam dez minutos para as seis. Tem de comear j a trabalhar?

- Sim. Tenho que ajudar as crianas a desfazerem as malas e, depois, jantar com elas.

Marcus estacionou  entrada do colgio e esperou at ela desapertar o cinto de segurana.

- Obrigada pela boleia. Diverti-me muito. No precisa de me acompanhar. Deve estar ansioso por voltar para casa.

No entanto, ele saiu para tirar a sua bagagem do porta-malas e acompanhou-a  porta.

- Adeus, doutor Van der Breugh - despediu-se Araminta. - Desejo-lhe um feliz Natal.

Marcus manteve-se em silncio. Ps a mala no cho e inclinou a cabea para a beijar leve e carinhosamente. Graas  sua enorme fora de vontade, Araminta conseguiu
conter a vontade de o abraar. A seguir, ele voltou para o carro, deixando-a parada no meio do vestbulo, quase sem ver as crianas que corriam ao seu redor.

Aos poucos, voltou  realidade e retomou o seu trabalho.

Quando foi para a cama, no conseguiu conciliar o sono, a pensar naquele momento. Marcus beijara-a realmente ou fora apenas imaginao? "Deve t-lo feito s para
se despedir", disse-se, "afinal, pretende casar-se daqui a pouco tempo".

Ainda bem que lhe contara os planos que traara para o seu futuro. S esperava t-lo convencido de que no tinha a inteno de se casar. Ningum se importaria


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se no o fizesse, nem sequer os seus pais, que se contentariam com a sua felicidade.

Estava to cansada que nem sequer conseguia chorar. Quando, finalmente, adormeceu, no pde deixar de sonhar com Marcus.

 medida que o Natal se aproximava, o trabalho aumentava na escola: era necessrio ensaiar a pea de teatro, o concerto, o recital de poemas e ajudar as crianas
a fazerem os presentes. Araminta passou horas com elas a pintar postais e calendrios, alm de as ajudar a fazer os deveres, como era habitual.

Com tanto trabalho extra, no tinha tempo para pensar nos seus problemas pessoais. S poderia pensar no futuro quando tivesse um dia de folga.

Quando finalmente esse dia chegou, dedicou-se a passear  beira-mar, sem se importar com o vento nem com a chuva. Estava convencida de que nunca mais tornaria a
ver Marcus e no parava de repetir para si mesma que tinha de o esquecer.

Quando voltou para a cidade, foi almoar a um restaurante muito acolhedor e, depois, passou o resto da tarde a comprar coisas sem importncia como pasta de dentes,
creme para as mos, papel de embrulho para as crianas e um pente novo para Norma.

A meio da tarde, permitiu-se tomar um ch como manda a lei durante o qual se entreteve a fazer a lista dos presentes de Natal. Como as lojas ainda estavam abertas,
foi comprar cartes de felicitaes e, depois, resolveu voltar para o colgio.

Nem sequer podia ir ao cinema, pois s havia filmes de terror em cartaz e no lhe apetecia ver nenhum sozinha.

Comprou algumas sanduches e decidiu tomar o ch


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no quarto. Podia entreter-se a ler at  hora de ir para a cama. Tentou convencer-se de que se divertira, mas, no fundo, estava ansiosa por comear a trabalhar.

No fim-de-semana seguinte, decidiu ir ver os pais, apesar da viagem ser cansativa. O pai estava  sua espera na estao, desejoso de lhe falar do sucesso que obtivera
com as suas conferncias.

- Ests com bom aspecto, querida - comentou a sua me, quando foi receb-la. - Esse trabalho assenta-te como uma luva. O teu pai j te falou das conferncias?

Resignada, Araminta preparou-se para os ouvir. Sabia que, por mais que gostassem dela, para eles os celtas estavam em primeiro lugar. Como Millicent tivera que ir
ao dentista, viu-se obrigada a fazer o almoo.

- Gostaste de tomar conta dos gmeos? - perguntou-lhe a me, durante a sobremesa. - O doutor Jenkell disse-nos que o tio deles  um homem encantador. Foi simptico
contigo?

- Sim, muito. E os meninos comportaram-se maravilhosamente. Demo-nos muito bem. Gostei muito da Holanda...

- Imagino que sim interrompeu-a a me. -  uma pena que no tenhas tido tempo de ir ver os hunebedden de Drenthe e os terps de Frsia. Eu e o teu pai temos de ir
l um dia... logo se ver.

- Vo estar em casa no Natal? - quis saber Araminta.

- Claro. Na semana que vem vamos ao sul da Irlanda. O teu pai foi convidado para um congresso e queremos aproveitar para visitar alguns lugares e completar os dados
do livro. Vai ser publicado no ano que vem...

- Eu vou ter quase trs semanas de frias - atalhou Araminta.


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- Que bom, querida! - exclamou a sua me, distrada. - Suponho que venhas pass-las a casa.

- Sim, penso que sim.

Quando voltou para o colgio, o seu ritmo de trabalho intensificou-se. A parte mais urgente era acabar de organizar a pea de teatro que estavam a preparar para
os pais. Araminta encarregou-se de dar os ltimos retoques nas roupas e ensaiar com as crianas. Alm disso, teve de decorar a escola e de preparar a ementa para
o lanche. No entanto, por mais ocupada que estivesse, no conseguia esquecer Marcus. Assim que fechava os olhos para dormir, via nitidamente o rosto dele, desde
as pequenas rugas que se formavam nos cantos da boca quando sorria, at  marca dos culos no nariz. Contudo, no se cansava de se dizer que nem que tivesse de fazer
um esforo hercleo, acabaria por tir-lo da cabea.

Como no sabia tocar piano, tambm foi encarregada de organizar o recital de poemas. O concerto estava marcado para o ltimo dia do trimestre, para que os pais pudessem
admirar as habilidades dos filhos quando fossem busc-los.

Araminta teve de fazer uma directa para acabar de coser as tnicas dos Reis Magos. Embora se sentisse infeliz, j estava quase habituada  sua infelicidade e sabia
que a nica maneira de superar aquela desiluso era manter-se ocupada.

Aproveitou o dia de folga para ir comprar os presentes e escrever os postais de boas-festas. Os seus pais nunca tinham festejado o Natal de uma maneira tradicional.
Embora trocassem presentes e Araminta preparasse sempre uma ceia especial, nunca decoravam a porta nem compravam um pinheiro. Naquele ano, Araminta queria que as
coisas fossem diferentes, por isso comprou bolas para a rvore, fitas, velas e at alguns crackles.


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No vestbulo do colgio tambm havia uma rvore para as crianas enfeitarem.  medida que o fim do trimestre se aproximava, a actividade tornava-se mais febril:
faziam-se testes, preenchiam-se os relatrios escolares e inspeccionava-se a roupa das crianas antes de ser guardada nas malas. Depois do concerto, proceder-se-ia
 entrega dos prmios e, depois, as crianas iriam para casa. Araminta ficaria mais um dia para ajudar Norma e, em seguida, ambas iriam de frias.

No penltimo dia, os Gardiner deram uma festa para os funcionrios do colgio. Araminta vestiu um vestido que lhe assentava muito bem e acompanhou Norma. Passou
alguns momentos agradveis a beber xerez com bolachas e a falar com as professoras de msica e francs. O senhor Gardiner mostrou-se muito atencioso, perguntando-lhe
pelo seu trabalho e pelas suas frias.

O grande dia do fim do trimestre chegou, enfim. Aps o concerto e a entrega dos prmios, realizados na parte da manh, o colgio ficou vazio.

Ento, Araminta e Norma puseram mos  obra: passaram revista aos quartos, asseguraram-se de que os roupeiros estavam vazios, verificaram se faltava alguma coisa
na farmcia e arrumaram a roupa branca. Dois dias antes do incio das aulas voltariam para fazerem as camas e comearem o novo trimestre.

Depois do almoo, Norma preparou-se para partir.

- Vou dizer adeus ao senhor Gardiner e, depois, vou-me embora - disse a Araminta. - Despeo-me j de ti. Feliz Natal e prspero Ano Novo.

Sozinha, Araminta terminou de fazer a mala, levou-a para o vestbulo e deixou-a ali para ir despedir-se do senhor Gardiner.

Ele estava no escritrio, sentado  secretria, e levantou a vista ao ouvi-la entrar.

-Ah, menina Pomfrey! Vejo que vem despedir-se.


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estou muito orgulhoso de si. No h dvida de que nos ajudou muito durante este perodo problemtico sorriu. S lamento no poder oferecer-lhe um emprego estvel.
A nossa ajudante escreveu-me a dizer que a me morreu e a pedir que a aceite novamente aqui. Como a menina foi contratada temporariamente, pareceu-me mais do que
justo voltar a admiti-la. Tenho a certeza de que no ter problemas para arranjar outro emprego e no vejo nenhum inconveniente em recomend-la. O posto de enfermeira
costuma ser muito solicitado nos colgios.

Araminta permaneceu calada. Estava perplexa e decepcionada. O seu futuro dissolvia-se diante dos seus olhos, precisamente agora que encontrara um lugar onde se sentia
segura. Chegara a convencer-se de que a antiga auxiliar de enfermagem no voltaria.

O senhor Gardiner pigarreou.

- Lamentamos muito - prosseguiu, - mas estou certo de que compreende a situao.

- Claro, senhor Gardiner...

- S mais uma coisa. O correio acabou de chegar, h uma carta para si - e estendeu-lhe o envelope, levantando-se para lhe apertar a mo. - A que horas  o comboio?
Fique o tempo que quiser.

- Obrigada, mas j chamei um txi. Apertou-lhe a mo com um sorriso forado e saiu.

No vestbulo, sentou-se e abriu a carta. Era da sua me.

Deves compreender, dizia-lhe, que eu e o teu pai tivemos uma oportunidade nica de ir a Itlia, onde existem achados arqueolgicos interessantssimos. Esta viagem
constitui um excelente material para o livro, prosseguia a sua me, e uma honra para o teu pai. Voltaremos assim que pudermos, provavelmente no dia de Ano Novo.

At l, a tua prima far-te- companhia, conclua a sua me. Tenho a certeza de que ficars grata por este perodo de descanso.


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Araminta leu a carta duas vezes, incapaz de acreditar no seu contedo. No havia margem para dvidas, no entanto. Dobrou a carta com cuidado e atravessou o vestbulo
para telefonar para casa. Millicent atendeu.

- Acabei de receber uma carta da minha me disse-lhe Araminta, - no sabia de nada. Irei no comboio das cinco e chegarei a  hora do jantar.

- Araminta... - respondeu-lhe a prima, aps um momento de silncio, - eu no estarei em casa. A tua me no te disse? No, com certeza esqueceu-se. J estou de partida.
A tia Kate est doente e vou para Bristol tomar conta dela. Lamento, os teus pais saram daqui  pressa e suponho que no... No podes ir passar o Natal com algum
amigo? Eu voltarei assim que puder.

Araminta fez um esforo enorme para no parecer afectada pela desoladora mudana do rumo dos acontecimentos.

- No te preocupes, depois do trabalho todo que tive aqui, no me far mal descansar. Vou visitar alguns amigos. Lamento que tenhas de te ir embora e estimo as melhoras
da tia Kate. O meu txi acabou de chegar e no quero faz-lo esperar. D notcias. Feliz Natal.

O txi estava  espera. Ainda faltava uma hora para o comboio chegar, mas Araminta decidira deixar a bagagem na estao e ir tomar o ch  cidade. Agora, a nica
coisa que queria era ir para um lugar onde pudesse ficar sozinha. No queria pensar. Ainda no. Antes tinha que se familiarizar com a decepo.

Entrou no txi.

- Para o cais, por favor. J lhe digo onde  que deve parar.

O sol comeara a pr-se e estava frio. O cais estava deserto. S alguns carros passavam devagarinho por ali. Ouvia-se o mar e o vento. Araminta pediu ao taxista


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para parar e saiu, no meio do cais. O taxista estranhou, mas ela assegurou-lhe que era ali que queria ficar.

Atravessou a rua para se aproximar de uma prgula que dava para o mar. Era uma construo antiga, com paredes finas que a protegiam do vento. Sentou-se num banco
e ps-se a contemplar o mar. Estava frio, mas ela precisava de organizar os pensamentos. Sentia-se submersa numa enorme decepo, uma decepo tanto mais amarga
quanto era inesperada.

- A compaixo no faz bem a ningum, pequena disse-se em voz alta. - Tens de pesar os prs e os contras - e ps-se a enumer-los pelos dedos. Tens algum dinheiro,
uma casa para onde ires, podes arranjar outro emprego depois do Natal, os teus pais... interrompeu-se. - E Querubim est  tua espera.

Aqueles eram os prs e, por enquanto, recusava-se a pensar noutra coisa. No entanto, no podia deixar de o fazer, pois no podia continuar ali sentada o resto da
tarde e da noite. No podia considerar a ideia de voltar a uma casa vazia, mas, ao mesmo tempo, no havia mais nada que pudesse fazer. Tinha amigos na cidade, mas
perdera o contacto com eles, pois os seus pais eram pessoas respeitveis, mas pouco sociveis. No tinha ningum com quem pudesse passar o Natal.

As lgrimas que contivera at ali comearam a deslizar lentamente pelas suas faces.

O doutor sabia que o colgio estava fechado e que Araminta se encontrava de frias. A velha senhora Gardiner dissera-lhe, no consultrio.

- Mriam, a minha nora - comentara ela, - disse-me que as enfermeiras ficaro at ao dia seguinte. Ela prefere que o colgio fique vazio, mas no tem problemas


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com nenhum professor, acredite. Eu vou passar alguns dias com eles, naturalmente.

Teve que fazer muitas alteraes, entre elas comear a trabalhar mais cedo e acabar mais tarde, mas conseguiu alcanar o seu objectivo. s duas horas, partiu de
St. Jules com destino a Eastbourne.

Quando chegou, a funcionria que lhe abriu a porta disse-lhe que Araminta sara dali h dez minutos.

- Queria apanhar o comboio das cinco. Eu avisei-a de que era muito cedo, mas ela respondeu-me que ia aproveitar para ir tomar o ch.

O doutor agradeceu-lhe e dirigiu-se para a cidade, onde estacionou o carro para ir  procura dela. Primeiro foi  estao e, depois, a todos os cafs, bares e restaurantes
que viu. Contudo, Araminta tinha desaparecido.

Voltou  estao. Estava cansado, preocupado e aborrecido, mas o seu rosto no o demonstrava. Voltou a percorrer a estao, perguntou nas bilheteiras se algum a
vira e voltou para a entrada. Havia uma longa fila de txis  espera dos passageiros que chegariam no comboio que vinha de Londres. Comeou a interrogar os taxistas
um por um, sem perder os seus bons modos. O terceiro tirou o cigarro da boca para indagar:

- Uma rapariga? Com uma mala? Queria vir para a estao, mas mudou de ideia. Anda  procura dela?

- Sim. Lembra-se de onde a deixou?

- Bom, no sei. Talvez, mas no sei quem voc , no ?

- Tem razo. Chamo-me Breugh, sou mdico. A rapariga chama-se Araminta Pomfrey e  a minha futura esposa. Se me levar ao lugar onde a deixou, talvez possa esperar
enquanto conversamos e trazer-nos de volta. Tenho o carro no parque de estacionamento - sorriu. - Se quiser, pode ir comigo falar com ela.

O homem olhou-o fixamente.


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- Est bem, eu levo-o, mas ficarei  espera - declarou.

Araminta, perdida nos seus pensamentos tristes, no ouviu o txi nem os passos do doutor. S deu pela sua presena quando ele se dirigiu a ela com voz grave:

-Ol, Mintie!

Ela levantou a cabea e olhou-o, boquiaberta.

- Oh! - exclamou.

Aquilo foi o suficiente para o doutor, que apanhou a sua mala do cho.

- Est frio. Vamos tomar um ch.

- No - recusou Araminta, antes de acrescentar: Vou para casa.

- Claro. Ande, o txi est  espera.

Araminta tinha o n no estmago, devido  surpresa de o ver. Atravessou a calada e entrou no txi.

- Est bem, menina? - perguntou-lhe o taxista.

Ela respondeu-lhe com um sorriso apagado. Tinha frio e sentia a cabea vazia. Pensar parecia-lhe uma tarefa penosa. Permaneceu sentada em silncio, ao lado de Marcus,
at o txi parar diante de um caf cujas janelas iluminadas pareciam acolhedoras na escurido da noite. Ento, saiu e esperou que o doutor pagasse ao taxista e tirasse
a sua bagagem do porta-malas. A seguir, ele abriu-lhe a porta do caf e conduziu-a a uma mesa.

O caf estava quase cheio, pois eram quase cinco horas. Algumas empregadas de mesa de meia-idade andavam de um lado para o outro, com bandejas cheias de iguarias.
O doutor pediu dois chs e tirou o casaco. Entretanto, Araminta acalmou-se.

- No sei porque  que me trouxe aqui - murmurou, num tom inexpressivo.

- Esperava que me dissesse - retorquiu Marcus. - O


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colgio est fechado e toda a gente se foi embora, mas a menina continuou aqui, sentada no cais, com a sua bagagem toda. Porque  que no foi para casa, Mintie?

A sua voz seria capaz de derreter um icebergue e, muito mais facilmente, o corao frgil de Araminta.

- A outra ajudante vai recomear a trabalhar, de modo que j no sou precisa no colgio. Pretendia ficar por aqui mais alguns dias.

- Porqu? - quis saber o doutor, num tom compreensivo, como se estivesse a tentar acalmar uma criana assustada.

- Bom - comeou a explicar-lhe Araminta, - no tenho nenhuma necessidade de voltar para casa. Os meus pais esto em Itlia, a estudar os celtas, e a minha prima
teve de ir cuidar de uma tia que est doente. S l ficou o Querubim...

O doutor compreendeu que Querubim era o nico lao que a ligava  sua casa. No disse nada, mas o seu silncio era agradvel, servia de consolo.

- Acho que no terei problemas para encontrar outro emprego - prosseguiu Araminta. - Tenho boas referncias...

Era um exagero, num mundo cheio de concorrentes com currculos extensos, mas ela no estava disposta a admiti-lo, nem para si mesma nem para os outros.

O doutor continuou em silncio, a observ-la sem pestanejar.

- Bom, tenho de ir - anunciou Araminta. Aquele estava a ser o momento mais triste da sua vida e tinha de sair dali antes que comeasse a chorar. - No sei porque
 que fiquei aqui. Presumo que tenha vindo por curiosidade, no ?

- Sim - assentiu o doutor. Perdera muito tempo  procura dela, mas limitou-se a sorrir. - Queres casar-te comigo, Mintie?


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Araminta corou.

- Apaixonei-me por ti - continuou o doutor, - assim que te vi, embora no me tenha apercebido disso. Amo-te tanto que no posso viver sem ti.

Araminta demorou alguns segundos a assimilar aquelas palavras.

- A mim? Amas-me? Mas... pensava que nem sequer simpatizavas comigo, apesar de apareceres sempre que eu precisava de ajuda! Tu... tu ignoravas-me.

- No sabia o que fazer. Sou muitos anos mais velho do que tu. Devias ter conhecido um homem mais novo

- sorriu e Araminta sentiu uma onda de amor inund-la.

- Alm disso, foste sempre a inatingvel menina Pomfrey. Decidi esperar pacientemente, com a esperana de que te apaixonasses por mim. Mas j no posso esperar mais.
Se quiseres que me v embora, diz.

- Que te vs embora? - Araminta sobressaltou-se. No, por favor, no vs, eu no suportaria! Casar-me contigo  a coisa que mais desejo neste mundo.

O doutor olhou em redor. Os ocupantes da mesa mais prxima observavam-nos com interesse.

- Vamo-nos embora.

Ps uma nota em cima da mesa, vestiu o casaco e ajudou Araminta a abotoar o dela.

- Porqu? - perguntou-lhe ela, radiante de felicidade.

- Quero beijar-te.

Ento, saram e mergulharam na escurido da noite, no seu pequeno paraso particular. A rua estreita estava quase deserta, s havia duas mulheres carregadas com
sacos, um velho com um co e um trio de msicos de rua prestes a comear a tocar. Nem Marcus nem Araminta deram pela sua presena. Ele rodeou-a com os braos e abraou-a
com fora e, enquanto os msicos entoavam a sua primeira cano, beijou-a.


UTREQUE

Este estado da Europa ocidental situa-se na orla do Mar do Norte e faz fronteira com a Alemanha e a Blgica. Aproximadamente um tero do territrio encontra-se abaixo
do nvel do mar, pelo que foi necessrio realizar grandes obras de engenharia que vo desde a canalizao de rios at  construo de canais e diques para conquistar
o mximo de terreno ao mar. Da o velho ditado: "Deus criou a terra e os Holandeses criaram a Holanda".

Este espao territorial caracteriza-se pela sua elevada densidade populacional. Formando-se uma das grandes regies urbanas do mundo, conhecida por Randsadt holands,
composta por quatro importantes aglomeraes: Amesterdo, Roterdo, Haia e Utreque. Esta ltima  a capital da provncia homnima e est situada nas margens do rio
Oude Rijn e do canal de Amesterdo ao Reno. Trata-se de um dos mais importantes centros econmicos, financeiros, industriais e culturais do pas. Aqui encontra-se
tambm o principal n ferrovirio, que alberga a mais antiga universidade do pas fundada em 1636.

Quando, em finais do sculo XVI, se constituiu a Repblica Holandesa, Utreque era um dos centros polticos


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mais poderosos da regio, ali residia um importante arcebispado desde os primeiros tempos da Cristandade.  por isso que ainda hoje a podemos admirar um grande
nmero de igrejas. Aqui tambm existem mais edifcios medievais restaurados que em qualquer outra cidade europeia. A maior parte deles est situada no corao da
cidade. Entre eles destaca-se a igreja Domkerk e ao seu lado a Torre Dom ou Domtoren, a torre mais alta dos Pases Baixos. Vale ainda a pena visitar os conventos
de Santa gueda e de Santa Catarina que albergam museus muito interessantes. Tambm nico em Utreque  o porto de dois nveis que atravessa o centro a todo o comprimento
do canal de Oude Gracht, onde as esplanadas dos cafs vieram substituir o que eram antigamente o burburinho da actividade porturia quando Utreque era um dos portos
mais importantes do Reno.

A actividade comercial continua a ser a actividade mais importante da cidade, como se pode constatar se chegarmos  cidade de comboio. A estao Central est quase
oculta sob as obras de um grande projecto chamado Hoog Catherine.

Mas nesta cidade to carregada de histria, o visitante no deve permitir que a sua modernidade apague o seu interesse por conhecer em profundidade uma cidade com
mais de dois mil anos. Dos muitos pontos de interesse existentes nesta cidade destacamos apenas alguns. A melhor forma de se render aos encantos destas paragens
 comear por dar um passeio de barco pelo canal a partir de Oude Gracht na Lange Viestraat. Ao sair aproveite e visite o t Hoogt; trata-se de uma manso do sculo
XVII que tem fachadas para duas ruas diferentes e alberga um cinema, um teatro, um restaurante, um pub e um pequeno museu dedicado a produtos alimentares, para alm
de uma curiosa loja


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que data de 1873. Contudo, o local de maior interesse , sem dvida, a Domplein, onde pode visitar a Domtower e, com um pouco de vontade e energia, pode subir os
465 degraus at ao topo e desfrutar das vistas. No deixe de visitar tambm a Domkerk e o Bisschops Hof, ou o jardim do Bispo, bem como o Dom Klosstergang, um magnfico
claustro do sculo XV com magnficos vitrais com cenas da lenda de So Martinho. Aqui perto, na rua Achter de Dom encontra-se o Museu da Caixa de Msica e do rgo;
 o maior museu do mundo neste gnero. O Museu Het Catharijn-convent State, que se situa no nmero 63 da rua Nieuwegracht, alberga uma preciosa coleco de arte
religiosa medieval. No Centraal Museum, que fica no nmero 1 da Agnietenstraat pode ver-se um barco viking que data de 800 a.C., bem como vrias pinturas da escola
de Utreque do sculo XVI e uma casa de bonecas de 1680.

Como pode ver, Utreque  uma cidade linda, sobretudo devido  sua riqueza cultural e histria.  uma cidade que combina de uma forma agradvel a antiguidade e a
modernidade, preservando estes dois conceitos de uma forma extraordinria.


Depois de ter decidido que tinha chegado a hora de constituir uma famlia, Trenton Laroquette comeou  procura da mulher adequada. Contudo, por alguma razo, a
sua lista de candidatas tinha-se visto reduzida a uma s: uma mulher de esprito livre e improvisador que no era precisamente o que mais lhe convinha. Mas, infelizmente,
era a que mais desejava...

Claro que, mesmo que Melodie Allford estivesse interessada em se casar, nunca teria escolhido um homem to pomposo e bem vestido como Trenton. Mas, apesar disso,
no conseguia deixar de se perguntar o que  que aconteceria se lhe pudesse tirar o fato e pr as mos naquele corpo que se adivinhava incrvel...

Uma Proposta Inesperada

Reid Kennard era um banqueiro impiedoso, habituado a comprar e vender aces, que, de repente, se interessou por uma aquisio muito diferente: Francesca Turner.
Arruinada aps a morte do pai, Francesca entrou no escritrio de Reid na esperana de resolver a sua situao... e Reid props-lhe um acordo perfeito: ajud-la-ia
economicamente se ela se casasse com ele.

Mas ser que, naquele casamento de convenincia, Francesca desempenharia realmente o papel de esposa?


Nada teria impedido que Toni Streeton regressasse  Austrlia para assistir ao casamento que uniria o seu irmo  influente famlia Beresford, nem sequer o facto
de saber que esta famlia no apreciava o seu actual estilo de vida. Quatro anos na Europa tinham polido a sua excepcional beleza, transformando-a numa sedutora
tentao para Byrne Beresford, que dirigia com mo de ferro o vasto imprio financeiro da sua famlia.

Toni estava linda com o seu vestido de dama de honor, e para Byrne tornava-se cada vez mais difcil resistir-lhe. Mas um casamento no podia levar a outro. E Tom
no era a mulher mais adequada para ser a esposa de um Beresford.,.

A Melhor Escolha
